Entrevista | Daniel Moreira quer ser o Sagan do ciclismo português

Entrevista | Daniel Moreira quer ser o Sagan do ciclismo português
Foto: FPC

O puncheur Daniel Moreira quer impor-se no pelotão sub-23 e agarrar um contrato no WorldTour, o máximo nível do ciclismo. O TopCycling visitou o corredor da filial da Jayco Alula durante um estágio em Espanha.

A saúde mental está na ordem do dia no ciclismo, mas pouco se fala acerca da morte em competição, uma situação extrema que Daniel Moreira sofreu na pele na época passada.

O jovem de Viana do Castelo, que gosta de dar umas pedaladas com o amigo Iúri Leitão na Serra de Arga, passou nove anos na Tensai-Sambiental, mítica escola de Santa Marta de Portuzelo, pela qual passou também o campeão olímpico.

Seguiu-se uma breve passagem por Paredes até chegar à neerlandesa Willebrord Wil Vooruit, onde concluiu a etapa em juniores, e onde se apresentou vencendo a Amstel Gold Race do escalão.

Em 2025, passou a sub-23 na Hagens Berman Jayco, filial da Jayco Alula, e foi na equipa de Axel Merckx que conheceu Samuele Privitera.

Outro miúdo, neste caso italiano, de Imperia, cidade da costa da Ligúria por onde passa a Milão-Sanremo. Tornaram-se inseparáveis… até ao dia 16 de julho, quando Samuele caiu numa descida nas montanhas que rodeiam o Vale de Aosta.

“Após ganhar o Nacional eu estava muito confiante e fui ao Giro Vale de Aosta para ganhar ritmo para a Volta à França do Futuro. O Samuele era o meu melhor amigo na equipa. Caiu 20 metros à minha frente, íamos a descer, mas percebi que não tinha sido uma queda normal porque tinha o capacete desapertado e foi como se já tivesse desmaiado. Fiquei em choque. Parei a bicicleta, os carros obrigaram-me a ir para a frente e pensei que já estava tudo orientado. Na meta, o treinador disse que ele tinha tido uma paragem cardíaca e tinha sido levado para o hospital, mas que tudo apontava que ia ficar bem. ‘Ok, não vai alinhar amanhã’. Esperei horas, horas, horas até que recebo uma chamada a dizer que ele tinha falecido… No fundo, já tinha falecido em cima da bicicleta, mas os médicos tentaram até à última.“

Daniel Moreira ao TopCycling.

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Ao campeão nacional de sub-23 coube lidar com o luto, a perda e a tristeza.

Sentimentos difíceis de processar, sobretudo para um rapaz de 19 anos, que muito antes do seu tempo e de que a vida imponha a sua lei, teve que amadurecer à força.

“Dentro e fora do ciclismo estávamos sempre em chamada, dávamos-mos mesmo bem. No dia a seguir cancelaram a etapa e eu queria ir dar uma volta de bicicleta sozinho para espairecer, mas a equipa quis ir. Fomos para um lago nadar, algo que ele [Samuele] adorava. Depois retomaram a prova e isso deixou-me triste porque fazia zero sentido haver um vencedor de uma corrida onde alguém tinha morrido. Por impulso ataquei, mas de repente desatei a chorar e já não me consegui mexer. O que mais me impressionou foi ter o apoio dos pais; ele era de Sanremo, até via a chegada da Milão-Sanremo da varanda de casa, e o pai dele veio ter comigo com um sorriso radiante e deu-me um abraço, mesmo tendo perdido um filho, e disse-me para alinhar que era o que o Samuele queria. Isso tocou-me.”

Daniel Moreira ao TopCycling.
Daniel e Samuele em estágio da equipa.
Foto: Hagens Berman Jayco

“Em esforços até 10-15 minutos afirmo-me bem”

No ciclismo e na vida, um ano tem altos e baixos. Antes da tristeza, o corredor natural de Viana do Castelo viveu a felicidade plena nos Campeonatos Nacionais de sub-23.

O percurso em Ourém incluiu repetidas subidas ao castelo, numa jornada de temperaturas escaldantes. Daniel Moreira não é amigo do calor extremo e tem tendência a sofrer alergias nessas condições, mas foi assistido pelo carro da Efapel e salvou o dia.

Deitou quatro bidões pelo corpo e tirou da cabeça a ideia de desistir, interiorizando a velha máxima de que a dor é passageira e a glória é eterna.

“Ganhei o Nacional num dia terrível porque cheguei lá com pontos devido a uma queda que sofri a treinar. Logo na primeira curva caí e parti a corrente. Tentei-me fazer à vida, isto é, endureci o ritmo desde o início para não chegar à meta e sentir-me dececionado por não ter dado tudo. Chegamos 4-5 ciclistas e sabia que o João Martins era mais rápido, mas vi que ia com cãibras e que ia amarrar a perna no sprint. Acabei o primeiro ano [em sub-23] com a sensação de que os resultados vêm por si próprios. Comecei por conhecer o pelotão e acabei a descobrir que o meu ponto forte são finais duros tipo puncheur. Em esforços até 10-15 minutos afirmo-me bem, nesse terreno tenho potência.”

Daniel Moreira ao TopCycling.
Fomos tomar café com Daniel Moreira!

WorldTeams raramente vão buscar sub-23 de último ano

Adora treinar à chuva e os dias de cinco ou seis horas em cima da bicicleta. Também é o DJ do grupo, portanto, leva sempre a música atrás.

Daniel Moreira é um miúdo tranquilo, simpático, que se transforma num animal competitivo a correr.

Em 2026 cumpre o segundo ano na equipa sub-23 da Jayco Alula e quer aproveitar a proximidade face ao máximo escalão para agarrar um contrato.

O atleta, agenciado por João Correia (Corso), é consciente de que a modalidade aumentou o nível de exigência para os jovens ciclistas.

“Quando cheguei a este escalão pensei que ia ter o primeiro e o segundo ano de adaptação, para digerir o que isto é, depois até ao quarto ano para finalizar, mas a realidade já não é esta e as WorldTeam raramente vão buscar sub-23 de último ano. Se calhar já são velhos. Quando falo com corredores veteranos contam que, quando muito, iam à Volta a Portugal no primeiro ano de elites. Agora, há sub-23 de primeiro a correr a Volta; andamos quatro anos para trás.”

Daniel Moreira ao TopCycling.

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Um bolinho, um café e a conversa fluiu quando o TopCycling foi a Viana visitar Daniel Moreira e Iúri Leitão.

Aponta ao Giro Next Gen

Em 2026, Axel Merckx quer subir a parada e ganhar mais, um desafio que vai ao encontro da ambição de Daniel Moreira.

Abre a época na Grécia, onde vai correr com os elites o GP de Rodes e a Volta a Rodes (onde António Morgado se estreou a ganhar em elites), depois segue para Itália para fazer o equivalente ao WorldTour dos sub-23: Troféu Piva, Giro del Belvedere e Palio del Recioto (prova ganha por Rúben Guerreiro em 2016).

Em meados de abril é possível que faça a Liège-Bastogne-Liège (ganha por João Almeida em 2018) e depois aponta ao Giro Next Gen, em junho.

“Em fevereiro fizemos um estágio forte na Toscana, em Itália, porque queremos estar na luta. Não temos corredores de terceiro e quarto ano, por isso não somos favoritos, mas podemos ser a revelação. Fazemos sempre um Excel no início do ano com os objetivos e mudei completamente: em 2025 pus que queria aprender acerca do pelotão sub-23; para este ano quero mais pressão para os resultados e afirmar-me nas corridas. Vou trabalhar para estar na frente porque não sou um ciclista de estar quieto. A equipa ficou contente com a minha afirmação de maturidade.”

Daniel Moreira ao TopCycling.

Para dar um salto qualitativo a equipa foi buscar o britânico Jed Smithson, à Visma, dois italianos de primeiro ano que fizeram pódio na Strade Bianche júnior – Giacomo Serangeli e Ricardo Colombo – e manteve o irlandês Adam Rafferty – 3º no Europeu no contrarrelógio.

Daniel Moreira tem grandes aspirações no ciclismo. Se poderá cumprir o sonho de ser campeão do mundo, como o ídolo Peter Sagan, não sabemos, mas conhecendo o corredor de Viana do Castelo podemos garantir que nunca deixará de perseguir o arco-íris.

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