Entrevista | Não é game over, Rúben Guerreiro está só em pausa
Saiu da Movistar e está focado em recuperar de uma hérnia cervical, mas Rúben Guerreiro quer voltar ao WorldTour e não pendurou a bicicleta.
Rúben Guerreiro continua a respirar ciclismo, mas nem vai correr em Portugal, nem teve problemas com o sistema de localização ADAMS (Anti-Doping Administration System), como reportou há dias o diário espanhol As.
O TopCycling pegou no telefone e esteve meia hora à conversa com o corredor de 31 anos, que se mostrou muito surpreendido pela postura do As, que num artigo intitulado “Ascensão e queda de Guerreiro: de ganhar no Giro e no Ventoux ao desemprego”, alega que o português não notificou uma viagem durante esta última temporada.
Convém explicar que um ciclista profissional está obrigado a comunicar, via sistema ADAMS, qualquer alteração de paradeiro, a fim de estar sempre localizável pelos agentes antidoping.
“Até fui ver ao calendário se era dia das mentiras. Não tenho qualquer problema com as localizações, não cometi nenhuma ilegalidade, nunca sequer recebi um aviso de faltas. É normal, às vezes, um pequeno erro, mas eu nunca tive qualquer problema nem percebo o fundamento da notícia. Nestes 11 anos de profissional as pessoas que me acompanham sabem que sempre fui transparente, leal ao trabalho, com ética. Deixámos de falar com as equipas porque não consigo, desde novembro, fazer uma semana de 25-30 horas. O meu foco agora é ginásio e fisioterapia. Um pouco de bicicleta até onde o corpo dá. Não vou enganar ninguém quando não consigo exercer a minha profissão. Nunca vi um ciclista ser notícia por dar uma falta, mas eu não tenho nenhuma notificação. Não tem qualquer fundamento.”
Rúben Guerreiro ao TopCycling.

“Está cá a vontade competitiva e de dar espetáculo“
Arrumado este assunto, avançamos para o que realmente interessa: Rúben Guerreiro ainda é ciclista? Sim, a bicicleta não foi pendurada e a ideia é voltar.
O TopCycling tentou, por diversas vezes, contactar o “Cowboy de Pegões Velhos” nos últimos meses. Via redes sociais, muitos adeptos interessaram-se por saber mais acerca do futuro do corredor que passou as três últimas temporadas na Movistar.
“Não gosto de falar muito, prefiro falar uma vez pela certa. Acompanho todas as corridas e tenho cá o bichinho. Ainda agora, no inverno, acompanho o ciclocrosse. Está cá a vontade competitiva e de dar espetáculo como sempre tentei fazer”, garante.
A lesão que o tem condicionado é o real motivo da pausa na carreira, tema que já tinhamos abordado em janeiro de 2024 quando estivemos no estágio da Movistar.
“A primeira grande inflamação foi num estágio com a equipa para o Giro de Itália, nem conseguia dormir quanto mais treinar. Tenho sofrido da cervical, onde tenho uma hérnia (…) Em 2024 as coisas não foram bem avaliadas e andei este tempo todo em esforço. Ainda não me comprometi com ninguém porque não estou apto para competir, mas estou a fazer a minha recuperação. As equipas parece que estão desesperadas para tentar combater os ciclistas da frente e acabam por se baralhar. Um ciclista com 31 anos, que tem um ano menos bom ou uma lesão, acaba por ser metido na prateleira, mas ainda há muitos corredores acima dos 30 que fazem um bom trabalho e que mostram que a idade é só um número. Tudo é possível atingir em termos de performance, basta as pessoas estarem em conexão e haver vontade de todas as partes.”
Rúben Guerreiro ao TopCycling.
Correr em Portugal está descartado
Desde 2022 que é representado pelo empresário Giuseppe Acquadro e nada se alterou. Correr em Portugal está descartado porque não motiva o puncheur de 31 anos.
Sem prazos nem datas no horizonte, a ideia é pouco a pouco preparar o corpo, reencontrar o ritmo e ter a esperança de que alguém lhe dê uma oportunidade.
Por agora, Rúben Guerreiro está a ser seguido em Portugal e só recentemente conheceu o especialista que o vai operar e ao qual chegou através de uma conexão improvável.
“Houve um clube grande de futebol que me ajudou, o médico de um clube grande, que me direcionou para um especialista e estou muito grato por isso. Sou cauteloso e prefiro fazer as coisas bem em silêncio. Informei as pessoas que me representam que não procurassem equipa. A competir só no nível WorldTour e neste momento a ideia é fazer uma pausa na carreira, mas com a presença da bicicleta assim que possível. Quero recuperar e ir pouco a pouco, sem desconectar da bicicleta.”
Rúben Guerreiro ao TopCycling.
Sonho é regressar às Grandes Voltas
Para trás fica uma passagem pela Movistar que começou com a vitória no Saudi Tour, em 2023, e acabou de forma fria, sem direito sequer a um post de despedida nas redes sociais da equipa.
Em 2025 o corpo deu tréguas e o “Cowboy” viu a luz: 11º na Volta a Omã e 9º na Figueira Champions Classic. Pagou a fatura na Volta à Andaluzia, quando a inflamação voltou e provocou o abandono.
Com tantos altos e baixos a relação com a equipa foi-se desgastando, embora nunca tenha sido ideal.
“Em finais de 2024 pedi ao meu agente para sair. Não estávamos a ter a melhor comunicação e desde então tem sido um pouco mais para cumprir calendário e dias. Em junho de 2025 reuni-me com uma equipa WorldTour, as coisas estavam a correr bem, mas não se concretizaram e talvez tenha sido o melhor porque mais tarde percebi que precisava de tempo e espaço para resolver a minha situação. As análises ficam para mim. Prefiro ficar só com os bons resultados. Tinha tudo para ser um casamento perfeito. Mostrei o meu carácter e a minha maneira de ser: transparente, leal, companheiro. Acabei por ganhar a primeira corrida, sucederam-se bons resultados no Gran Camiño e noutras corridas. Eles são muito fiéis a um sistema de treino e eu nunca me habituei, era superssensível à carga física e acabou por ser isso, uma má adaptação aos treinos e à forma deles verem as coisas em termos de rendimento.”
Rúben Guerreiro ao TopCycling.
O sonho é regressar às Grandes Voltas e demonstrar que ainda tem nível para o WorldTour. Aguardemos por notícias de Rúben Guerreiro, um ciclista que quando está bem é sinónimo de espetáculo.