Opinião | Wout Van Aert, o loser magnifique que conquistou Roubaix

O que é um perdedor magnífico, o que o caracteriza e porque a expressão se aplica a Wout Van Aert, campeão da recente Paris-Roubaix? A opinião de Gonçalo Moreira.
O meu colega Olivier Bonamici costuma descrever Wout Van Aert como loser magnifique: alguém que é quase mais conhecido pelas suas derrotas do que pelas vezes que ganha, mas, quando levanta os braços, é capaz de nos levar ao êxtase, como aconteceu na Paris-Roubaix.
Primeiro, uma breve contextualização: os eventos desportivos são entretenimento, por isso criámos uma narrativa, em que uns são favoritos e outros são outsiders. O guião apoia-se em factos reais, mas há espaço para ser criativo.
Isto visa captar e manter a atenção do público, que é o “item” mais valioso na indústria dos média. Porque é que alguém escolhe ver seis horas de Paris-Roubaix em vez de dar um passeio ou ver um filme? Aí está o desafio da nossa profissão.
Opinião | O “problema” de Van Aert é ser Van Aert

Foto: A.S.O./Billy Ceusters
O eterno segundo
Wout Van Aert cresceu no ciclismo com o rótulo de campeão: três títulos mundiais de ciclocrosse consecutivos – Zolder, Bieles e Valkenburg – e na transição para a estrada vitória na Milão-Sanremo em 2020.
Até que Mathieu van der Poel acabou com a festa e tornou-se o recordista de vitórias em Campeonatos do Mundo de ciclocrosse, transportando esse ascendente para a estrada com oito Monumentos e um Mundial conquistados.
Dada a supremacia de Van der Poel, podemos dizer que essa rivalidade foi colocada em pausa e outra foi-se forjando, nas clássicas, entre o neerlandês e Tadej Pogacar (12-8 favorável ao esloveno nos Monumentos).
Van Aert passou a ser visto como o eterno segundo: desde que ganhou a Strade Bianche, em 2020, disputou 50 corridas de um dia, ganhou nove (nenhum Monumento) e em 25 ocasiões fez pódio.
Volta à Flandres | Hat-trick para Pogacar

Foto: A.S.O./Pressesports/Etienne Garnier
Faltava a grande vitória
Os devotos de Wout choraram após cada derrota e lesão. Talvez nenhuma corrida resuma melhor esses sentimentos do que a Através da Flandres: em 2024 caiu e fraturou vários ossos, em 2025 tinha superioridade numérica, mas perdeu o sprint para Neilson Powless, e em 2026 atacou de longe apenas para ser neutralizado por Filippo Ganna em cima da meta.
Houve momentos de felicidade? Claro! Destruiu Tadej Pogacar no Col du Granon, servindo o Tour em bandeja de prata a Jonas Vingegaard, virou um Giro que Simon Yates tinha perdido e bateu o campeão mundial nos Campos Elísios.
Só que faltava a grande vitória, o Monumento do Norte, o reconhecimento perante os seus pares. A Paris-Roubaix deste ano simboliza tudo isto.

Triunfo à Gilbert Duclos-Lassalle
Wout Van Aert ganhou uma edição na qual se esperava que Pogacar fechasse os cinco Monumentos de carreira, algo que não acontece desde 1977, e que podia equiparar Van der Poel a lendas como Tom Boonen e Roger De Vlaeminck, em caso de uma quarta vitória no Inferno do Norte.
Foi um triunfo à Gilbert Duclos-Lassalle, que em 1980 foi segundo atrás do lendário Francesco Moser e passou a ser o “próximo francês campeão em Roubaix”. Só 12 anos depois, quando ninguém acreditava que ganhasse, quando se libertou dessa pressão, conseguiu levar a pedra para casa.
Na entrevista logo após a vitória, Wout Van Aert confessou que houve momentos em que deixou de acreditar. Talvez em janeiro, quando partiu o tornozelo no ciclocrosse, tenha sido um deles.

Ponto mais alto de uma incrível carreira
Uns dias após a lesão estive no Media Day da Visma, em La Núcia (Alicante). Quando chegou Van Aert, reparei que o staff lhe tinha posto um banquito com uma almofada para apoiar o pé enquanto atendia a comunicação social.
Ele olhou, riu-se, mas não pôs o pé envolvido pela bota protetora a descansar. Ter o pé ao alto seria conceder perante a lesão e ver-se debilitado. Além de que não era o momento para dar parte fraca com a Visma questionada após várias saídas que fizeram tremer a estrutura.
Essa mentalidade de nunca baixar os braços, de persistir ante a dúvida, finalmente foi recompensada. Esperar até aos 31 anos teve pelo menos uma vantagem, já que à espera, no Velódromo André-Pétrieux, estavam a mulher e os dois filhos, para juntos celebrarem o ponto mais alto de uma incrível carreira.

Foto: A.S.O./Billy Ceusters
Prestações de Wout Van Aert na Paris-Roubaix
| Ano | Resultado | Notas Principais |
|---|---|---|
| 2026 | 1.º (Vencedor) | Ganhou a edição mais rápida da história (48,91 km/h) batendo Pogačar ao sprint. |
| 2025 | 4.º | Recuperou de queda inicial e perdeu o pódio ao sprint para Mads Pedersen. |
| 2023 | 3.º | Furou no Carrefour de l’Arbre quando atacava com Van der Poel, que se isolou. Perdeu sprint para Jasper Philipsen. |
| 2022 | 2.º | Pódio atrás de Van Baarle, que chegou isolado. |
| 2021 | 7.º | Edição chuvosa, em outubro. Vitória de Sonny Colbrelli. |
| 2019 | 22.º | Estreia pela Jumbo-Visma. |
| 2018 | 13.º | Estreia pela Verandas marcada pela trágica morte do colega Michael Goolaerts. |