O que se passa na Visma | Lease a Bike?

O que se passa na Visma | Lease a Bike?

A estrutura da Visma | Lease a Bike venceu as três grandes voltas em 2023, destacando-se como melhor equipa do mundo. Desde então, perdeu esse estatuto, após várias mudanças internas

A Visma | Lease a Bike perdeu ciclistas importantes em 2026, e viu antigos atletas da equipa criticar os novos métodos utilizados. 

As controvérsias geraram dúvidas sobre a estrutura neerlandesa, mas a verdade é que as vitórias importantes continuam – em 2025, a Visma | Lease a Bike venceu duas Grandes Voltas, e foi segunda no Tour de France.

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Foto: Unipublic / Cxcling Creative Agency

O preço do sucesso

2023 foi um ano histórico para a Visma | Lease a Bike. Entre as inúmeras vitórias, destacam-se as três Grandes Voltas conquistadas, por três ciclistas diferentes – incluindo a ‘limpeza’ na Vuelta a Espanha. 

A estrutura neerlandesa sentiu, no entanto, o preço do sucesso. No final dessa temporada, Primoz Roglic – que tinha ganho o Giro D’Italia – deixou a equipa, à procura de ser líder no Tour de France. O esloveno não saiu particularmente feliz com a gestão que foi feita na Vuelta, vencida por Sepp Kuss. 

No ano seguinte, outra figura importante deixa a equipa – Martin Zeeman, diretor desportivo, creditado como um dos génios por trás da ascensão da equipa, deixou a estrutura, para abraçar um novo desafio no AZ Alkmaar, equipa de futebol da primeira divisão dos Países Baixos.

Vuelta Espana 2023 – Sepp Kuss, Jonas Vingegaard e Primoz Roglic – Foto: Rafa Gomez/SprintCyclingAgency

Mudanças importantes na estrutura

A saída de Martin Zeeman deixou um vácuo na direção da Visma | Lease a Bike. A equipa reestruturou-se, e trocou o homem forte por cinco novos diretores, responsáveis pelas várias áreas profissionais do conjunto neerlandês, sob o comando de Richard Plugge

Mathieu Heijboer tornou-se Chefe de Performance. Outro nome importante é o de Patrick Broe: o novo chefe de estratégia da equipa começou a dar nas vistas no youtube, e foi descrito por Richard Plugge como “o Moneyball guy”. Grischa Niermann é o head of racing, Robbert de Groot foca-se no desenvolvimento de talento e Jacco Verhaeren assume o papel de head of coaching.

Nos últimos anos, em todos os aspetos da atividade profissional da equipa, a Visma | Lease a Bike acentuou a sua filosofia à volta da ciência dos dados – seja na gestão da performance dos atletas, na equipa de formação, na nutrição ou no processo de recrutamento de novos ciclistas. Este tem sido um processo natural no ciclismo de forma transversal, mas os neerlandeses são vistos pela opinião pública como pioneiros na matéria.

INGEGAARD Jonas – Créditos: A.S.O. / Billy Ceusters

Os impactos da mudança e saída de ciclistas importantes

Os resultados desportivos continuam a aparecer, ainda que não ao ritmo da temporada de 2023. No entanto, desde a saída de Martin Zeeman da equipa, existiram algumas situações desconfortáveis que deixaram a Visma | Lease a Bike exposta às críticas do público. 

A saída de Roglic não veio só. Os irmãos Van Dijke, ou o jovem Staune-Mittet, também deixaram a estrutura à procura de mais oportunidades. No fim de 2025, Olav Kooij, Benoot e Cian Uijtdebroeks foram outros dos nomes importantes a deixar a Visma | Lease a Bike.

Finais de carreira inesperados 

Se as saídas à procura de maior protagonismo são normais no mercado do ciclismo, houve duas situações que deixaram os fãs do desporto com muitas questões: Fem Van Empel anunciou uma pausa na carreira, devido a falta de motivação. Simon Yates decidiu pendurar a bicicleta, de forma inesperada, depois de vencer o Giro em 2025 e de se apresentar para a temporada 2026. 

Foto: LaPresse

As críticas dos ciclistas

As saídas foram pacíficas, mas houve outros atletas que não deixaram de criticar a equipa após deixarem a Visma | Lease a Bike. Nomes como Dylan Van Baarle ou Attila Valter falaram da rigidez excessiva na gestão dos atletas, e da pouca flexibilidade da equipa para adaptar regimes de treino ou de nutrição. Trine Marie Hansen, mulher de Jonas Vingegaard, acusou publicamente a equipa de “estar a espremer demasiado o limão”. 

“(Sobre a nova equipa, a Soudal Quick-Step) É tudo um pouco mais livre do que estava habituado. Tenho um pouco mais de liberdade para dar a minha opinião, por assim dizer (…) Sempre achei que precisava de mais estrutura. É verdade, mas com um pouco mais de interpretação pessoal. Gosto de fazer um plano claro, mas da maneira que acho certa, não da maneira que os outros acham certa para mim. Gosto de ter mais controlo, e aqui deixam-me fazer isso mais.”  

Dylan Van Baarle ao Wielerevue
Créditos: Kike Abelleira

“Na Visma, o foco era em sessões de treino curtas e explosivas, portanto, muito trabalho de VO2 máximo. Pessoalmente, eu preferia blocos mais longos em ritmo acelerado, mas não havia espaço para isso (…) Desde que Merijn Zeeman saiu, ficou ainda mais disciplinado. Para certos ciclistas isso funciona, mas para um ciclista como eu, não. Eu realmente quero poder ajudar a decidir o meu próprio treino.”

Cian Uijtdebroeks ao Het Laatste Nieuws  

“Quando Merijn saiu, isso mudou, e a equipa também sentiu muita pressão externa, pois queríamos voltar ao topo, mas não estávamos no topo. Não éramos a melhor equipa [do mundo] em 2025 (…) Não é que eles não nos ouvissem. Eles ouviam, mas não sabiam como mudar (…) Para eles, é como se os números e o desempenho na ciência fossem a forma de trabalhar. Mas quando faço exatamente o que me dizem para fazer e não estou a melhorar, então também é a ciência que diz que não está a funcionar comigo (…) Então eu disse: OK, então vamos abordar isso de uma maneira diferente, e foi simplesmente ‘Não, nós não fazemos isso’. Então houve um pouco de atrito, digamos assim.”

Attila Valter, citado pelo CyclingNews

Treinador de Jonas Vingegaard é a mais recente saída

Nos últimos dias, o tópico de conversa voltou à tona com outra saída importante. Tim Heemskerk, antigo treinador pessoal de Jonas Vingegaard e Matteo Jorgenson, deixa a formação, e, na mensagem de despedida, voltou a ecoar as críticas que já vinham a ser feitas. 

“Após 8 anos maravilhosos com a nossa equipa, decidi, com dor no coração, deixar o cargo de treinador. Nos últimos 2-3 meses, a criatividade e a paixão tiveram muito pouco espaço no meu trabalho diário. É exatamente por isso que é hora de parar. 

Os últimos anos foram ricos em momentos marcantes — com as temporadas de 2022 e 2023 como destaques — e, infelizmente, também alguns pontos baixos, com avanços e desafios que moldaram a todos nós”.

Tim Heemskerk, através das suas redes sociais
Foto: A.S.O./Tony Esnault

O reverso da medalha

A Visma | Lease a Bike perdeu o estatuto de melhor equipa do mundo para a UAE Emirates – XRG, depois de 2023, mas nem tudo é mau. 

A equipa neerlandesa foi obrigada a uma mudança na política de contratações – também depois de fechar o ano civil de 2024 com 6 milhões de euro de prejuízo – e nunca voltou a atingir o domínio que levou o conjunto dos Países Baixos a vencer as três grandes voltas num ano. 

Mesmo com as mudanças estruturais na equipa, o conjunto continua vencedor, e com uma clara candidatura a ser a segunda melhor equipa do mundo – uma posição digna, tendo em conta o domínio inédito (e os muitos milhões investidos) da formação de Tadej Pogacar e João Almeida. 

Tour de France Femmes avec Zwift 2025 – Pauline Ferrand-Prévot – Foto: A.S.O.

Em 2024 conseguiram 18 vitórias a nível WorldTour. Em 2025, a equipa voltou a subir a parada – venceu o Giro D’Italia e a Vuelta a Espanha, e foi segunda no Tour de France, com um par de vitórias em etapas. Também ganhou o Tour de France Femmes e mantém o estatuto de uma das melhores equipas femininas do mundo.

Não existindo uma super UAE, a Visma ainda estaria no topo da cadeia alimentar no ciclismo mundial. A seu favor, está ainda a ótima captação e desenvolvimento de talento, com Matthew Brennan ou Jørgen Nordhagen a saltarem à vista.

Foto: Volta Ciclista a Catalunya

Matteo Jorgenson e Wout Van Aert defendem a equipa

Vale também a pena referir que as críticas não deixaram de merecer resposta. Matteo Jorgenson e Wout Van Aert, duas das principais figuras da equipa, saíram recentemente em defesa da formação neerlandesa. O belga deixou mesmo transparecer alguma mágoa em relação às palavras duras dirigidas ao seu conjunto: 

“Acho uma pena dar tanta importância ao facto de isto estar a acontecer dentro da nossa equipa, e até me magoa um pouco. Considero verdadeiramente a Visma-Lease a Bike como a minha equipa. Sei como as coisas funcionam aqui, e definitivamente não é um ambiente desumano. Acho uma pena que a situação esteja a ser generalizada, quando isso é completamente injusto. 

Tenho o maior respeito pelas decisões da Fem e do Simon, mas isso não tem nada a ver com o funcionamento da nossa equipa. Acho que há muito espaço para discutir como se sente e se precisa de uma abordagem diferente, por exemplo, para passar mais tempo em casa”. 

Wout Van Aert
Foto: LaPresse

“A direção reuniu-se no outono passado e refletiu um pouco sobre o que poderíamos melhorar, e percebeu claramente que quer ouvir um pouco mais os nossos desejos este ano.

Pode ver nos calendários que, como ciclistas, nos foi dado espaço para escolher um pouco do nosso próprio calendário, e eles realmente ouviram. Acho que, especialmente no caso do Jonas, porque era difícil para eles abandonarem esta fórmula que tinham aperfeiçoado durante tanto tempo e porque também sabem que funciona – ganharam o Tour duas vezes com ela –, por isso era difícil para eles desistirem disso.

Mas o Jonas perguntou várias vezes se poderia fazer algo diferente e abordar o Tour de uma forma diferente, e sinceramente aplaudo-os por isso, porque não é fácil fazer isso quando se sabe que se tem algo que funciona.”

Matteo Jorgenson no media day da Visma | Lease a Bike

Talvez sejam as dores de crescimento de quem aponta para o lugar mais alto do pódio em cada corrida. Poderá um elevado grau de exigência, de forma consistente, criar algum grau de burnout, ou falta de motivação em parte dos atletas?

Talvez seja uma questão de mentalidade: as abelhas do pelotão parecem querer construir uma filosofia clara, que, normalmente, não será compatível com todos os ciclistas. Se este é o modelo da Visma, talvez a equipa esteja até preparada para situações do género. Por outro lado, também é verdade que este tipo de relatos têm sido (quase) exclusivos à formação neerlandesa. 

As respostas a tudo isto podem ser dadas na estrada, pelo que a temporada 2026 será certamente um ano desafiante para a Visma – Lease a Bike, tendo em conta o crescente investimento e contratações de equipas como Red Bull – Bora Hansgrohe, Lidl – Trek ou a própria Decathlon – CMA CGM Team.

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