Opinião | Aleluia! Milagre de Pogacar em Sanremo

Opinião | Aleluia! Milagre de Pogacar em Sanremo
Foto: LaPresse

Depois da Milão-Sanremo, o comentador Gonçalo Moreira começou a acreditar em milagres e juntou Tadej Pogacar e o padre Guilherme no mesmo texto.

Para quem gosta de ciclismo, Sanremo é a meta do primeiro Monumento do ano, mas a realidade italiana é diferente e a cidade da Riviera di Ponente é mais conhecida por organizar o festival da canção. Por esse palco passaram, desde 1951, Domenico Modugno, Andrea Bocelli, Eros Ramazzotti, Laura Pausini.

Demorei 48 horas a processar as emoções das mais de sete horas de emissão que fiz no Eurosport. A ressaca foi dura e, no domingo, quando narrei o GP Jean Pierre Monseré, senti que estava a meio gás.

Não é um cansaço físico, mas mental, de ter que assimilar tudo o que aconteceu naquelas 6:35.39 de corrida. E aconteceu muito, embora quase tudo na última meia hora.

Comentar a 117ª Milão-Sanremo passar de estar na missa, em paz, e, de repente, a igreja baixar as luzes, de fundo surgir uma batida potente e no altar uma cortina de fumo branco revelar a figura do padre Guilherme, o DJ eclesiástico. Nunca pensei juntar o Tadej Pogacar e o padre Guilherme num texto, mas a Milão-Sanremo fez-me começar a acreditar em milagres.

Van der Poel descolou no Poggio.
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Peguem nas notas e mandem tudo pela janela

A meia dúzia de quilómetros de entrarem na Cipressa, à passagem por Imperia, o posicionamento é tão importante que há mais toques no pelotão do que num canto marcado no último minuto da final da Champions.

Num destes toques, Tadej Pogacar perdeu o equilíbrio e mandou ao chão meio grupo de favoritos, incluindo Mathieu van der Poel e Wout Van Aert. Peguem nas notas e mandem tudo pela janela… quase seis horas a falar da Cipressa, do vital que era para Pogacar entrar com o bloco da UAE nas primeiras posições, de fazer a subida abaixo dos 9:00 minutos e nem falemos do vento… Dias a estudar o vento e catrapum!

Só que o incrível não foi ver os favoritos a cair, mas assistir à remontada – até Van Aert, o Cristo do pelotão, esteve a um minuto, mas salvou o dia. Jasper Philipsen sacrificou-se para que Van der Poel fose o primeiro a reentrar, enquanto Pogacar contou com Felix Grosschartner e Brandon McNulty.

Ninguém diria que foi a estreia do corredor do Arizona na clássica italiana. McNulty parecia nascido e criado nos arredores da Cipressa; tirou Pogacar do fundo do poço e colocou-o na cabeça do pelotão em menos de nada.

Nesse ponto admito que pensei que os UAE iam respirar e guardar o ataque para o Poggio. Aliás, fui rever a emissão e os quatro comentadores concordamos que a queda alterava tudo em termos de estratégia.

O sprint na Via Roma.
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Como resolver este puzzle velocipédico

A 26 quilómetros do final disse eu no ar: “Será que depois da queda e de reentrar no pelotão há instante ele ainda tem a ambição de atacar na Cipressa?” McNulty fez 4:30 a fundo e passou o testemunho a Isaac Del Toro, que puxou mais meio minuto até Pogacar arrancar. Estupefação total por no espaço de 10 quilómetros Pogacar ter passado de rebolar pelo asfalto a destruir o pelotão.

O esloveno, todo esfarrapado e com feridas abertas, mostrou que a obsessão com a Milão-Sanremo não era marketing, mas um pensamento que o atormentava. Como é possível que o homem que tudo ganha não tenha conseguido ganhar este Monumento em quatro tentativas?

Só um ciclista atormentado por uma corrida tem a dedicação necessária para contrariar a natureza de um percurso idealizado para sprinters e classicómanos. Os 300 quilómetros mais fáceis e, ao mesmo tempo, mais aleatórios do ciclismo, resistiram a Pogacar quatro anos, mas ele não estava preparado para fracassar uma quinta vez e voltar a passar um ano a pensar em como resolver este puzzle velocipédico.

Pidcock, Pogacar e Van Aert no pódio da 117ª edição.
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Ganhou por quatro centímetros ou meia roda

Atacou na Cipressa e levou Van der Poel, o bicampeão da Classicissima, e Tom Pidcock, que dias antes tinha ganho a Milão-Turim, mas que em 2025 se estatelou a descer a Cipressa. Chegaram juntos ao Poggio, mas Van der Poel ficou sem pernas e o trono da Alpecin – que vinha de três vitórias consecutivas – ficou subitamente ao alcance.

Quantos pensámos nesse momento: se Pogacar perde esta para Pidcock nunca mais ganha em Sanremo. E com a descida do Poggio pela frente o britânico entrava na zona de conforto, mas as forças igualaram-se até porque Pogacar também é competente nesse domínio.

Vivendo ao lado, no Mónaco, conhece as estradas da Riviera como poucos, além disso, contratou o especialista local e 5º em 2015, Nicolo Bonifazio, para aprender tudo sobre cada metro destas subidas e descidas. Vê-los descer desde a perspetiva do drone-câmara foi um dos momentos da transmissão e quase deu para sentir o vento na cara.

Tudo para decidir na Via Roma, um dos três finais históricos desta prova e o mais equilibrado em termos de distância face ao fim da descida do Poggio: 2400 metros. Pogacar controlou o sprint e a posição de Pidcock, deu-lhe a entender que podia passar junto às barreiras, mas sem nunca abrir a porta e obrigando-o a corrigir a trajetória e a perder centímetros quando quis ir para o centro da estrada. Ganhou por quatro centímetros ou meia roda, consolidando o estatuto de Campeoníssimo.

Tadej Pogacar sonhou e a obra nasceu, ele que tinha dito que preferia ganhar uma Sanremo do que seis Tour de France. Fica a faltar a Paris-Roubaix para fechar os cinco Monumentos e igualar Rik Van Looy, Eddy Merckx e Roger De Vlaeminck.

Aleluia irmãos!

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