João Matias: “Nem só de trepadores vive a Volta a Portugal”

João Matias: “Nem só de trepadores vive a Volta a Portugal”

Sprinters preparam-se para sofrer na Volta a Portugal e João Matias reclama espaço para os homens rápidos do pelotão. Entrevista com o rei do leadout e peça-chave na seleção nacional de pista.

A Volta a Portugal arranca esta quarta-feira, na Maia, e João Matias prepara-se para alinhar pela oitava vez.

O capitão da Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua sabe que o organizador atirou uma bola curva aos sprinters com os seletivos finais em Braga (Sameiro), Senhora da Graça, Torre e Montejunto.

Com um bloco orientado para a velocidade, os homens de Gustavo Veloso apontam às etapas de Bragança e Viseu (3.ª e 5.ª etapas) e em agarrar cada oportunidade correndo ao ataque.

Será uma edição que colocará à prova a química entre os velocistas. Felizmente, João Matias comunica de olhos fechados com Leangel Linarez.

“Não é exagero dizer que, em Portugal, sou o melhor a lançar sprints. O Leangel dá-me muita confiança e noto que tenho leitura de corrida para fazer esse trabalho. Comigo a lançar, o Leangel é a nossa principal arma numa chegada tradicional ao sprint. O César Martingil também é muito forte e o António Barbio sabe colocar muito bem.”

João Matias ao TopCycling.

Guia das equipas portuguesas de ciclismo – Época 2025

Foto: Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

Volta a Portugal muda a perceção da temporada

A fórmula funcionou na Clássica de Viana do Castelo, ganha pelo venezuelano. Foi a única vitória da equipa da Beira Interior este ano, isto após ter somado três – todas com Linarez – em 2024.

João Matias aponta a andar bem o ano todo, mas aos 34 anos sabe que uma boa Volta a Portugal muda a perceção da temporada.

“É o objetivo principal. Tive em 2022 e em 2023 um sucesso que se calhar não contava atingir. Em 2024 estive mais apagado por uma mononucleose e até abril as sensações nunca foram as melhores. Já me sinto outra vez eu. Também gosto de ganhar e, se possível, gostaria que fosse na Volta a Portugal”

João Matias ao TopCycling.

Troféu Joaquim Agostinho | Alexis Guérin faz história

Foto: Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

“Trabalhamos para aperfeiçoar o lançamento do sprint”

Na passada Volta a Portugal a Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua perdeu o domínio nos sprints para a Aviludo-Louletano-Loulé Concelho.

O barcelense reconhece a superioridade dos algarvios no leadout e trabalha para reverter a situação num cenário de crescente pressão pela escassez de sprints ao longo da época.

“Poucas chegadas ao sprint temos tido, mesmo em 2024 na Volta a Portugal só a chegada a Lisboa foi a única mais para sprinters e era num topo. Acabaram por nos vencer, parabéns à dupla Nico Tivani/Tomás Contte. São os nossos principais adversários, tal como o Santiago Mesa, mas trabalhamos para aperfeiçoar o lançamento do sprint.

João Matias ao TopCycling.

A maioria dos diretores desportivos coincidem num ponto: a 86.ª Volta a Portugal favorece os trepadores.

Roladores e sprinters torcem o nariz às dificuldades da Volta a Portugal e João Matias reclama um lugar para os velocistas no pelotão.

Nem só de trepadores vive a Volta a Portugal. Em 2022 já se sabia que a Anicolor ia ganhar – dominaram o pódio com Mauricio Moreira, Frederico Figueiredo e António Carvalho – e muita gente disse que foi a luta pela camisola dos pontos, entre mim e o Scott McGill, que deu vida à Volta.”

João Matias ao TopCycling.

Ler mais | Equipa de João Matias correu o Tour de France júnior!

A direção do Velo Clube do Centro e Gustavo Veloso, ao centro, na apresentação da equipa.
Foto: Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

Vai haver ralhete logo à noite

A responsabilidade de bater Aviludo-Louletano e Efapel recai sobre Gustavo Veloso, líder que passou da bicicleta para o carro há pouco tempo.

Se pudessem recuar no tempo, os homens de Mortágua voltariam à Volta a Portugal de 2022, quando abriram com três vitórias consecutivas [Ourém, Vila Franca de Xira e Loulé].

João Matias conta um episódio marcante dessa edição que espelha a forma de trabalhar do bloco.

“Numa chegada, a 7 km da meta, éramos a última equipa do pelotão. O Marco Chagas até comentou em direto ‘se o Gustavo vê isto vai haver ralhete logo à noite’. A decisão foi do Gustavo; disse-nos ‘quero-vos longe e a 3 km da meta passam para a frente porque a estrada é larga’. Enquanto os outros se estavam a matar na frente por se colocarem, no momento certo passámos para a frente. Já vinha tudo estudado da cabeça do Gustavo. Há muito trabalho à volta da mesa, ao jantar já estamos a falar da etapa seguinte.”

João Matias ao TopCycling.
Matias em ação no GP Douro Internacional.
Foto: Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

A cola que une as peças

O ciclismo não lhe permite por em prática a licenciatura de Educação Física e Desporto Escolar.

Por agora desfruta de cada sprint, de passar conhecimento aos miúdos na Landeiro KTM ACR Roriz, que acaba de correr o Tour de France júnior.

No meio de tudo isto ainda encontra tempo para o ciclismo de pista. Em 2021, com 30 anos, sagrou-se vice-campeão europeu da eliminação.

Iúri Leitão, os gémeos Oliveira e Maria Martins falam dele com reverência.

João Matias é a cola que une as peças, a extensão do selecionador Gabriel Mendes nas tábuas. “Gostava de voltar a ganhar uma medalha em Europeus ou Mundiais. Já começo a ser o velhote da seleção, mas o projeto tem crescido muito”.

Para alguém que vive o ciclismo nos dois pelotões, o investimento de Portugal na pista está a ter repercussões na forma como se corre na estrada.

“Quando passei a pro não se notavam os comboios organizados. Na Tavfer, se calhar, temos o comboio mais forte para chegadas ao sprint e acabam por se pendurar em nós. Noto que há um trabalho mais profissionalizado das equipas, com maior leitura da corrida, também graças às aplicações tipo Google Maps. A seleção que mais sucesso tem tido é a de pista e o obreiro disto tudo é o professor Gabriel Mendes. Há seleções com mais capacidade financeira, mas nós temos compromisso uns com os outros, não somos só uma seleção. Isso tem-nos levado a crescer. Quando se entra para a pista só falta arrancar olhos, mas passamos o risco de meta e somos amigos.”

João Matias ao TopCycling.

Portugal com seis medalhas no Europeu de pista

Foto: Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

O que aporta a pista às provas de estrada?

Boa parte dos ciclistas portugueses em equipas profissionais estrangeiras apareceram no velódromo de Sangalhos.

O campeão nacional Ivo Oliveira tem quatro vitórias este ano, Rui Oliveira foi privado de uma na Eslovénia e Iúri Leitão bateu sprinters do WorldTour em Maiorca.

Porquê? O que aporta a pista às provas de estrada?

“Traz muita leitura de corrida e capacidade de tomar decisões quando vais com o pulso no máximo. É um trabalho de precisão em poucos segundos, não tem nada a ver com o de um voltista numa chegada em alto, por exemplo. Tens que escolher a posição, saber quando arrancar, saber guiar a bicicleta no meio de um pelotão e cada vez há mais contactos nos sprints. Em termos de pedalada, ter uma pedalada mais redonda, mais em cadência, ou seja, ligar a força com a cadência é algo que um atleta passa da pista para a estrada.”

João Matias ao TopCycling.

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