Giro – E ao sétimo dia o pelotão descansou

Giro – E ao sétimo dia o pelotão descansou

Chuva, frio, quedas e etapas com mais de 200km. Fugas vitoriosas nas etapas de montanha. Nada que João Almeida não tivesse antecipado.

“Ti Amo” é um espaço de amor à cultura italiana e ao Giro. O comentador Gonçalo Moreira propõe 21 histórias para 21 etapas.

A etapa do Gran Sasso – a segunda de perfil montanhoso após Lago Laceno – resultou em nada em termos de classificação geral.

Ninguém tira aos corredores as seis horas a levar com chuva e frio. O cansaço está lá e vai-se acumulando; com a climatologia adversa o pelotão ativou o modo “pouca energia” e as diferenças na geral mantêm-se desde o prólogo.

Está a ser uma primeira semana dura e o pelotão sabe que o Giro de Itália só se ganha no Monte Lussari na penúltima etapa. É a teoria de João Almeida.

A última semana vai ser duríssima e aquele último contrarrelógio – que é meio contrarrelógio e meio cronoescalada – vai ser muito duro principalmente pelos dias anteriores. Vai ser um bom espetáculo e tudo pode acontecer naquela última semana. Temos o exemplo da primeira Volta a França que ganha o Tadej Pogacar… ninguém diria que ele ganhava e o certo é que aquele contrarrelógio meteu o Roglic lá para trás e este Giro vai ser similar. Naquele contrarrelógio tudo pode acontecer. Num Giro com não sei quantos mil quilómetros, aqueles 25 quilómetros vão fazer uma diferença abismal.

João Almeida ao TopCycling.

JOÃO ALMEIDA AO TOPCYCLING: PRIMEIRA PARTE

JOÃO ALMEIDA AO TOP CYCLING: SEGUNDA PARTE

João Almeida foi 20º em Lago Laceno e 8º no Gran Sasso com o mesmo tempo dos demais favoritos.
Créditos: La Presse

Giro dos sabores rústicos

Estamos na terra da boa mesa, dos longos almoços e a experiência não é só sentar-se e comer. Começa na cozinha com um bom vinho e uma tábua de antipasti. Itália não é só pizza e este Giro não é dos que vai ao forno e em sete minutos está pronto a comer. Bem-vindos ao Giro dos sabores rústicos, como um ragu’ alla bolognese.

Porque pedimos o regresso às origens na gastronomia, advogamos por tempo de qualidade à mesa e exigimos tudo o contrário ao ciclismo?

Em abril a Accademia Italiana della Cucina retocou a receita oficial do ragu’ alla bolognese pela primeira vez em 40 anos. Uma comissão estudou as origens do prato e registou na Câmara de Comércio de Bolonha a nova receita, as variantes aceites e o que é inaceitável. Preservou a tradição! Se a Accademia Italiana della Cucina o fez pelo ragu porquê atacar constantemente as etapas de 200km quando não há ataques?

Tem-se vindo a lutar por um ciclismo mais humano, logo há que compreender que João Almeida, Remco Evenepoel, Primoz Roglic (entre outros) caíram e a prioridade é recuperar.

Este não é o Giro da pizza, mas do refogado, da carne estufada com tomate, cenoura, azeite e vinho. Primeiro somos induzidos pelo cheirinho que vem da cozinha, depois conquistados à mesa pela carne que cozinhou até quase se desfazer na boca.

Créditos: LaPresse

Vamos ter duas semanas vintage

Em Lago Laceno ganhou Aurélien Paret-Peintre (Ag2r-Citröen) e no Gran Sasso foi Davide Bais (Eolo-Kometa). Duas chegadas em alto e duas fugas vitoriosas.

Da 7ª etapa esperava mais movimentos na parte inicial, mais luta pela fuga e um grupo com outro perfil. Nota-se que as forças já vão justas quando a fuga pega à primeira e a Soudal-Quick-Step abdica de agitar as águas. Se alguém quer uma corrida mexida é Evenepoel.

Os que criticam a 7ª etapa já se esqueceram que a 4ª foi feita a 41km/h de média até Lago Laceno. Ganhou a fuga? Sim, mas as primeiras duas horas de corridas foram um espetáculo: Grupos cortados, favoritos e equipas em pânico, fuga constituída a 78km da meta depois de duas horas a ferro e fogo.

Em Campo Imperatore, no topo do Gran Sasso, Evenepoel tentou surpreender Roglic. Sem efeito.
Créditos: LaPresse

Dizer que o pelotão neutralizou o Gran Sasso pensando no contrarrelógio de domingo – 35km em Cesena, a região do Pirata Pantani – parece-me ver o copo meio vazio.

Eu prefiro ver o copo meio cheio e aposto que vamos ter duas semanas vintage, sobretudo a última. É preferível um Giro que cozinha em fogo lento e deixa um bom sabor de boca do que um Giro aquecido no microondas só para matar a fome.

Não sou um conservador de mente fechada, aceito um twist aqui e ali – etapas mais curtas de montanha de forma esporádica, por exemplo. Da mesma forma que a Accademia Italiana della Cucina admite que o ragu possa ser elaborado com fígados de galinha, salsicha de porco e cogumelos porcini secos.

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