Seleção sub-23 tira bilhete para o Avenir. E agora?

Seleção sub-23 tira bilhete para o Avenir. E agora?
Créditos: Federação Portuguesa de Ciclismo.

Sétimo posto de Afonso Eulálio apura Portugal para o Tour de l’Avenir, do qual a seleção abdicou em 2022. Propomos um debate sobre que modelo de formação queremos?

Graças à solidez de um bloco constituído por três sub-23 de primeiro ano, um de segundo e outro de terceiro Portugal venceu pela primeira vez a classificação por equipas da Corrida da Paz!

O campeão nacional Afonso Eulálio fechou no 7º lugar (fez pódio na etapa rainha e só um furo no prólogo o impediu de lutar pela vitória final). Portugal teve ainda Gonçalo Tavares em 11º, Duarte Domingues em 13º e Alexandre Montez em 17º. Podia ter sido ainda melhor se Lucas Lopes não tivesse furado na jornada final ou Daniel Lima não tivesse problemas gastrointestinais.

A performance é excelente, sobretudo tendo em conta que Portugal o fez na ausência de António Morgado, líder desta geração, que está no Giro sub-23.

Os 15 pontos obtidos na República Checa mais os 20 do GP Orlens colocam Portugal no 5º lugar do ranking e apuram o país para o Tour de l’Avenir (Volta a França do Futuro) que se disputa 20 a 27 de agosto. Só França, Itália, Dinamarca e Eslovénia somaram mais pontos na Taça das Nações.

Afonso Eulálio (ABTF Betão-Feirense) fez pódio na etapa rainha como podem conferir no resumo acima.

Maior montra do ciclismo jovem mundial

Entrar por via do ranking significa que a organização cobre os custos com alojamento e alimentação; as Federações têm que pagar as viagens. Em 2022 Portugal também se apurou, mas a Federação Portuguesa de Ciclismo optou por não ir e o selecionador José Poeira explicou o porquê em entrevista ao TopCycling.

Sub-23 de último ano como Hélder Gonçalves, Afonso Silva, João Medeiros e Pedro Pinto foram à Corrida da Paz. Pedro Silva ainda tinha mais um ano pela frente na categoria, foi 12º e somou os pontos para classificar o país. Na equipa estava ainda Fábio Fernandes que se retirou entretanto.

A Corrida da Paz é uma instituição do ciclismo do leste europeu.
Créditos: Jan Brychta

“Foi uma grande oportunidade perdida

O TopCycling falou com três dos seis atletas que estiveram nessa Corrida da Paz.

Afonso Silva (Kelly Simoldes UDO): “Era uma corrida na qual depositei muita ambição e tinha assuntos a resolver pois em 2019 caí na 1ª etapa e vim para casa. Sei também que não eram datas fáceis tento em conta que a Volta a Portugal acabava três dias antes de arrancar o Avenir. Contudo, bem planeado e organizado teria sido possível fazer ambas. Foi uma decisão da Federação, não me cabe a mim decidir, tive que aceitar e meter o foco total na Volta a Portugal e nos meus objetivos com a equipa.”

Pedro Pinto (Efapel): “Foi um pouco triste. Achava importante ir para a minha evolução enquanto ciclista, tínhamos possibilidade de fazer um bom resultado! Nunca se sabe como podem correr as coisas e mudar a carreira de um ciclista, mas como é óbvio gostava bastante ter ido.”

João Medeiros (L.A. Alumínios/Credibom/Marcos Car): “Trabalhei muito com o objetivo de ser convocado para a seleção. Consegui, mas fui à Corrida da Paz com uma forte gripe. Foi frustrante, na única oportunidade, não ter conseguido colocar no terreno aquilo que considerava ser o meu potencial. Ainda assim, os resultados dos colegas permitiram esse apuramento para o Avenir. Participar no Avenir é algo que fica bem no currículo de qualquer jovem. Não podemos dizer se faria diferença na carreira… no desporto nunca podemos saber. Se falarmos em “aumento de probabilidade para o sucesso” sim, estou convencido de que foi uma grande oportunidade perdida.”

António Morgado é sub-23 mas já se estreou a vencer provas UCI ao conquistar a Volta a Rodes, na Grécia.
Créditos: Joe Cotterill

Portugal aponta ao Tour de l’Avenir com António Morgado

No pelotão português há nove equipas Continentais e um total de 95 profissionais dos quais 18 são selecionáveis para provas sub-23, isto é, 19 por cento do pelotão. As equipas que mais contribuem neste escalão são a Credibom/L.A. Alumínios/Marcos Car de Hernâni Broco e a Kelly/Simoldes/UDO de Manuel Correira – recentes campeões da Volta à Portugal do Futuro com João Silva.

Mesmo com atletas em formação no estrangeiro há limitações evidentes pelo número de corredores. Outro aspeto difícil de contornar é o calendário: no ano passado a Volta a Portugal terminou três dias antes do início da Volta a França do Futuro e esta época as provas coincidem a 20 de agosto!

Em 2023 que ninguém tenha dúvida: Portugal aponta ao Tour de l’Avenir com António Morgado! É lógico que o faça porque o atleta de Salir do Porto é especial. O mais perto que a nação esteve do título foi em 2008 quando Rui Costa perdeu para Jan Bakelants; mesmo sendo sub-23 de primeiro ano Morgado disse ao TopCycling disse que é em França que está o objetivo da temporada após chegar ao Giro condicionado por lesão.

“Tinha metido esta corrida [Giro] como um dos objetivos do ano, queria vir discutir a vitória, embora o Tour de l’Avenir seja o objetivo do ano porque quero ir discutir. No Giro fica sempre aquele sabor amargo porque queria correr para ganhar, mas sei que não tenho a capacidade física.”

Há muito que sabíamos que Morgado e a geração nascida em 2004 promete após dominar em juniores com o bloco da Bairrada. No entanto, convidamos à reflexão sobre que modelo de formação queremos agora que a seleção está em alta e vai voltar ao Tour de l’Avenir.

Deixamos algumas questões:

  • Há interesse em desenvolver o escalão sub-23 em Portugal com um calendário próprio (atualmente há quatro rondas da Taça de Portugal e o Nacional)?
  • Devem provas como o Tour de l’Avenir ser vistas como parte do processo formativo ou pelo prisma competitivo?
  • Que mensagem passa aos jovens a não presença no Tour de l’Avenir (como em 2022) quando a conquistaram na estrada?

O debate é interessante e se for feito de forma construtiva é o ciclismo que tem a ganhar.

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