Reminiscências da Maia-Milaneza na Volta a Portugal

Reminiscências da Maia-Milaneza na Volta a Portugal

Ouvimos Bruno Pires, ex-corredor da Maia-Milaneza de Manuel Zeferino, projeto que recordamos pelo impacto que teve na Volta a Portugal.

Vinte e três anos depois, a Maia foi o ponto de partida da Volta a Portugal e ao ver o Estádio Doutor José Vieira de Carvalho lembrei-me do autarca e de um dos projetos que acarinhou, a equipa de ciclismo da Maia-Milaneza, parte da estrutura da União Ciclista da Maia.

Em meados dos anos 90 nasceu a Hipermercados Jumbo-Maia com nomes fortes como José Azevedo e Claus Moller.

Para um miúdo do Porto, como eu, o Jumbo da Maia era um paraíso porque teve um dos primeiros McDonald’s do país. A euforia era tanta que celebrei lá um aniversário, com direito a visitar a cozinha e tudo!

Voltemos ao ciclismo. Muitas coisas se passaram entre 1994 e 2007, boas e más.

Guia da 86.ª Volta a Portugal | As etapas, equipas e análise

Formado na UCM, Diogo Narciso já ganhou três medalhas em Europeus de pista e está na Volta.
Foto: União Ciclista da Maia

Última equipa nacional numa grande Volta

Como parte da UCM, a Maia venceu quatro Voltas a Portugal: Fabian Jeker (2001), Claus Moller (2002), David Bernabéu (2004) e Xavier Tondo (2007). Também correu a Taça do Mundo de ciclismo – o equivalente ao atual WorldTour – e foi a última equipa nacional numa grande Volta – a Vuelta a Espanha de 2003.

O final do projeto não foi bonito. Acusações de doping e a reputação do ciclismo manchada num caso que acabou sem repercussões penais. Em 2011, a Relação do Porto absolveu Manuel Zeferino e Marcos Maynar, médico da equipa que foi associado ao colombiano Miguel AngeLopez, que cumpre sanção de quatro anos.

Vuelta a Espanha 2025 – Percurso completo anunciado

A UCM continua a competir nos escalões jovens.
Foto: União Ciclista da Maia

Ciclismo nacional atravessa uma crise profunda

A visita à Maia levou a Antena 1 a ouvir Manuel Zeferino, face visível de uma direção ambiciosa.

O vencedor da Volta a Portugal de 1981, pelo FC Porto, recordou os bons velhos tempos ao microfone do jornalista Pedro Ribeiro.

“Os orçamentos eram muito maiores. Há 23 anos a Maia gastava 1,75 milhões de euros. Dava para pagar os orçamentos todos das equipas nacionais (…) Ganhamos quatro Voltas a Portugal enquanto Maia-Milaneza, na Vuelta a Espanha fomos terceiros por equipas, ganhamos Comunidade Valenciana, Astúrias, grandes prestações no Paris-Nice. Foi a época de ouro do ciclismo nacional, entre 2001 e 2003.”

Manuel Zeferino à Antena 1.

Admitindo que o ciclismo nacional atravessa uma crise profunda e que o pelotão da Volta a Portugal está aquém dos pergaminhos do passado, Manuel Zeferino vê com bons olhos a presença da Israel Premier Tech Academy, satélite da equipa WorldTour.

“É preciso maior investimento na Volta a Portugal, só com grandes equipas presentes é que a Volta a Portugal se tornará outra vez Grandíssima (…) Não quer dizer que venham as equipas do WorldTour, mas têm sempre grandes equipas de formação aonde têm grandes ciclistas, os ciclistas do futuro, esses sim poderão dar forte competitividade à Volta a Portugal.”

Manuel Zeferino à Antena 1.

Entrevista | Ricardo Scheidecker (Tudor) no TopCycling

Bruno Pires está no segundo ano como diretor desportivo da Tudor.
Foto: Tudor Pro Cycling

Bruno Pires fez parte da estrutura até 2008

Quando ouvi Manuel Zeferino lembrei-me de Bruno Pires, que pela Maia-Milaneza foi 7º na Volta a Portugal de 2006. Nesse ano correu em apoio a João Cabreira, que terminou 4º a 2:37 do vencedor David Blanco.

O alentejano de Redondo passou a profissional na UCM e fez carreira na Leopard Trek e na Tinkoff-Saxo. Por estes dias dirige a Tudor no Tour de l’Ain.

“A Maia-Milaneza era a equipa mais forte de Portugal e fazia grandes resultados no estrangeiro, que era algo que já me aliciava. Foi o meu início como profissional, de muita aprendizagem porque estava rodeado de gente que percebia muito de ciclismo. Daí aprendi a forma de correr, que hoje ensino aos corredores, foi muito com o Zeferino que aprendi esse processo, que hoje aplico.”

Bruno Pires ao TopCycling.

Bruno Pires fez parte da estrutura até 2008, antes de sair para a Barbot-Siper e depois dar o salto para o WorldTour. Pela Maia estreou-se a vencer – na Volta a Trás-os-Montes – e foi campeão nacional, em 2006, em Castelo de Vide.

Duas décadas depois ainda recorda o que sentiu quando foi recrutado por Manuel Zeferino.

“Quando fui assinar o primeiro contrato profissional nem acreditava que era real, quando recebi a primeira roupa da Maia também foi ‘será que isto é verdade’. Foi uma experiência fantástica.”

Bruno Pires ao TopCycling.

Entrevista | Fabian Cancellara no TopCycling: “Acordo com um sorriso”

Foto: União Ciclista da Maia

Maia continua a respirar ciclismo

Através da Earthconsulters/Maia/Frutas Monte Cristo, a cidade continua a respirar ciclismo. Após 2007, a UCM reinventou-se como equipa de formação e compete com os sub-23.

Também na Volta a Portugal quase ganharam o Prólogo. Como? Graças a um jovem que passou pela estrutura e que agora corre na Rádio Popular-Paredes-Boavista, o gaiense Daniel Dias.

No pelotão da Grandíssima encontramos mais dois “antigos alunos”: Diogo Narciso da Credibom-LA Alumínios-Marcos Car e Francisco Pereira da Feirense-Beeceler.

O clube é presidido por António Pereira e a gestão desportiva fica a cargo de Jorge Henriques. Este ano os destaques têm sido João Martins – top 10 no Campeonato Nacional – e Guilherme Mesquita – 16º na Volta a Portugal do Futuro.

Na Maia não se vive só de história, através da UCM o futuro faz-se pedalando.

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