Pogacar e Vingegaard são imbatíveis ou haverá surpresa no Tour de France?

Analisamos a temporada dos cinco candidatos a vencer o Tour de France, uma lista encabeçada por Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard.
Em 2026, o Tour de France promete ser um dos mais empolgantes de sempre e tudo pela presença dos melhores voltistas desta geração – Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard – e de uma série de aspirantes que ameaçam o estatuto dos vencedores das cinco últimas edições da prova francesa e de nove das 19 Grandes Voltas desde 2020.
Há, no entanto, uma tendência de domínio do esloveno e do dinamarquês que se tem estendido às sete maiores Voltas de uma semana. Esta temporada, Pogacar venceu na Romandia e na Suíça, enquanto que Vingegaard se impôs na Paris-Nice e na Catalunha.
As exceções à regra vieram de Isaac Del Toro, que venceu o Tirreno-Adriático e o Dauphiné, e de Paul Seixas, que varreu a concorrência no País Basco. O mexicano é o braço direito de Pogacar, logo, está neutralizado à partida na luta pelo Tour de France, pelo que o único pretendente que foi capaz de uma vitória relevante foi um francês de 19 anos.

O fator imprevisível na equação dos favoritos é aportado pela Red Bull, que com um duo dinâmico – Remco Evenepoel e Florian Lipowitz – tem uma palavra a dizer ao longo das três semanas.
Podia acrescentar nomes à lista, como o de Juan Ayuso, que vai liderar a Lidl-Trek, procurar na Netcompany Ineos um perfil ideal para as três semanas ou apostar pela surpresa de ver Tom Pidcock discutir um pódio a partir de uma equipa de segunda divisão. Prefiro cinco valores seguros que esta época já mostraram serviço.
Uma frase escrita no diário El País, durante o Giro, reflete o sentimento de quem vê ciclismo atualmente: “Com Vingegaard, como com Pogacar, as grandes etapas de montanha só servem para assassinar qualquer esperança de incerteza.” Será alguém capaz de os contrariar?
Analisemos o que cada um dos cinco favoritos à vitória no Tour de France fez ao longo de 2026.

Foto: A.S.O.Billy Ceusters
Tadej Pogacar
Com 12 vitórias em 16 dias de competição, a versão deste ano de Tadej Pogacar ainda parece ser melhor quando comparamos com anos anteriores.
Fez duas Voltas e não deu a mínima hipótese e em ambas correu pela primeira vez. A primeira foi a Romandia – que abordou 1-2 kg acima do peso do Tour de France pela massa muscular que ganhou para suportar o pavê – e o esloveno controlou sem se despentear, vencendo três etapas e a geral sobre Florian Lipowitz.
Já na Volta à Suíça ganhou por submissão: três etapas, geral e 6:32 sobre o segundo classificado (Richard Carapaz), a maior diferença entre os dois primeiros em 67 anos. Pogacar tem estado intratável e chega ao Tour como líder de vitórias este ano: 13 em apenas 16 dias de competição, incluindo a tão ansiada (pelo esloveno) Milão-Sanremo.
Leva o bloco de montanha previsto desde o início do ano: Isaac Del Toro tem estado superlativo e ganhou Dauphiné, Tirreno-Adriático e UAE Tour; Adam Yates focou-se em preparar o Tour após cair no Giro; Brandon McNulty foi 6.º na Suíça e preparou os ataques do tetracampeão do Tour; e Jonathan Narvaéz ganhou três etapas no Giro e ainda foi à Suíça picar o ponto.
Resumindo, Tadej Pogacar está no bom caminho para alcançar a quinta vitória no Tour de France e juntar-se a Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain. Sobre o único homem que se pode interpor entre o esloveno e a história falamos já a seguir.
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Jonas Vingegaard
Em 2026 mudou o calendário e, como o TopCycling ouviu em Espanha da boca de Jonas Vingegaard, cumpriu o sonho de não só correr, mas de ganhar o Giro de Itália. O dinamarquês passeou classe e venceu todas as chegadas em alto disputadas entre os homens da geral, batendo recordes na alta montanha – Blockhaus, Corno alle Scale, Pila (Gressan), Carì e Piancavallo.
Ouvi com curiosidade a teoria do comentador Juan Antonio Flecha, que vê Vingegaard pronto para o Tour. Explicou Flecha que nos 30 minutos da subida a Carì o dinamarquês atingiu um VAM – velocidade média de subida – de 1816 VAM e o mesmo teria acontecido em Piancavallo se não levantasse o pé; um VAM acima de 1800 apenas está ao alcance de outro corredor: Tadej Pogacar.
O domínio do líder da Visma no Giro não surgiu do nada, porque no Paris-Nice ganhou por 4:32 a Daniel Martinez, a maior margem entre campeão e vice-campeão desde o período prévio à II Guerra Mundial.
Chega ao Tour com 12 vitórias, ou seja, números que só conseguiu em 2023. O único senão é o coletivo, já que não pode contar com o lesionado Wout Van Aert – talismã da Visma nas Grandes Voltas – nem com o retirado Simon Yates, que estava planificado para o Tour.
Vingegaard vai apoiar-se no bloco que dominou o Giro, agora reforçado por Matteo Jorgenson, Bruno Armirail e Edoardo Affini – que renderam em alto nível no Dauphiné, onde ganharam o contrarrelógio por equipas e Jorgenson terminou no 4.º lugar. Se Davide Pinganzoli – 8.º no Giro e vencedor recente da Route d’Occitanie – e Sepp Kuss – ganhou uma etapa no Giro e acabou na 13ª posição – estiverem como em maio Vingegaard pode estar descansado.
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Foto: Rodrigo Rodrigues e Igor Martins / FPC
Paul Seixas
Aos 19 anos é o novo menino bonito do ciclismo francês, que desde 1985 procura um sucessor para Bernard Hinault, um vazio que Paul Seixas parece ter condições para preencher.
O que fez na Liège-Bastogne-Liège pôs o público a sonhar: Pogacar atacou em La Redoute e, ao contrário das três vezes anteriores, em que descarregou os rivais na subida belga e cavalgou para a vitória, desta vez houve resposta à altura e Seixas seguiu o esloveno. O francês despertou em Roche-aux-Faucons, mas foi o momento do ano.
O campeão com raízes portuguesas tem o pack completo: forte na alta montanha e um talento natural para o contrarrelógio. No entanto, há um aspeto que rodeia a estreia de Seixas no Tour que não é ideal: está em final de contrato e a continuidade na Decathlon é incerta.
Além disso, o Dauphiné encarregou-se de dar ao jovem prodígio uma dura lição, já que partiu com a ambição de se tornar o campeão mais da história e nem acabou a corrida devido a uma queda.
O recente estágio em altitude em Les Arcs, nos Alpes franceses, permitiu-lhe recuperar das lesões nos braços e nas mãos, pelo que continuou a afinar a forma com os fiéis gregários Aurélien Paret-Peintre e Nicolas Prodhomme. O bloco é sólido, mas não tem a força dos blocos rivais, mais ainda com Daan Hoole em dúvida, dado que o neerlandês é chave para Seixas.
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Remco Evenepoel
Foi a contratação estrela da Red Bull para este ano e avisou logo que o objetivo era ganhar o Tour de France, onde já foi 3.º em 2024. Meia época depois, podemos dizer que Remco Evenepoel chega envolto em dúvidas: por um lado, esteve forte nas provas de um dia, por outro lado falhou nas corridas por etapas – foi apenas 5.º na Catalunha (vs. Vingegaard) e 10.° no UAE (vs. Del Toro), demonstrando incapacidade para seguir os melhores nas etapas montanhosas.
De todos os favoritos ao pódio no Tour de France, o belga é o único que chega sem ter corrido desde finais de abril, quando subiu ao pódio da Liège-Bastogne-Liège, atrás de Paul Seixas e de Tadej Pogacar. Também é preciso lembrar que foi o primeiro a iniciar a temporada e que entrou a ganhar em janeiro, em Maiorca.
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Florian Lipowitz
Por outro lado, a Red Bull tem em Florian Lipowitz um seguro de vida, após um surpreendente 3.º lugar no passado Tour. O alemão chega “no ponto”, após vencer a Volta à Eslovénia, o primeiro triunfo desde que ganhou o Sibiu Cycling da Roménia em julho de 2024.
Após abrir a época de Voltas no Algarve (8º), demonstrou uma solidez impressionante: 3.º na Catalunha, 2.º no País Basco, 2.º na Romandia – perdeu estas corridas para Vingegaard, Seixas e Pogacar, respetivamente.
O mais sério voltista germânico desde Jan Ullrich e Andreas Kloden deu à Alemanha o primeiro pódio no Tour em 20 anos partindo como outsider. Lipo fez uma ascensão meteórica: em três anos passou de estagiário, em 2022, ao pódio no Tour, em 2025.
Agora, com o estatuto de favorito, veremos do que é capaz o antigo biatleta natural de Ulm, no centro-sul do país.