Entrevista | Beñat Intxausti: “Neste Giro de Itália viu-se um Afonso Eulálio carismático”

Entrevista | Beñat Intxausti: “Neste Giro de Itália viu-se um Afonso Eulálio carismático”
Foto: Bahrain Victorious

O empresário de Afonso Eulálio atendeu o TopCycling para falar de contratos, do sonho cor de rosa vivido durante o Giro de Itália e projetar o futuro do talento da Bahrain Victorious.

Há quem pense que o Giro de Itália terminou a 31 de maio, mas para Afonso Eulálio o pós-corrida tem sido frenético e para sobreviver a esta agitação tem-se apoiado no empresário Beñat Intxausti, um antigo corredor do WorldTour convertido em representante de ciclistas.

O basco vai para o sexto ano na A&J All Sport Agency, uma das maiores agências do pelotão internacional, fundada pelos irmãos Alex e Johnny Carera.

Simpático e frontal, Intxausti não esquivou nenhum tema e contou ao TopCycling qual é a situação contratual de Afonso Eulálio na Bahrain.

Ele tem contrato até final de 2028, mas é verdade que com o Giro as coisas mudaram muito. A equipa está muito contente e querem fazer um contrato de mais longo prazo com ele. Neste inverno três equipas do WorldTour perguntaram por ele, mas o Afonso sabia onde queria continuar. Reunimos em dezembro e em janeiro e o Afonso sempre deixou claro que queria continuar na Bahrain porque foi quem apostou nele quando estava em Portugal.”

No ciclismo atual um contrato que une duas parte não é garantia de nada dado que estamos num mercado muito agressivo, mesmo que não exista uma janela de transferências. No último defeso fizeram-se operações de milhões de euros, como a saída de Remco Evenepoel para a Red Bull Bora ou a de Oscar Onley para a Ineos Grenadiers.

Há equipas dispostas a apostar em certos corredores pelo valor e pela projeção de futuro que têm. Negociar está na ordem do dia, mas Afonso Eulálio está contente na Bahrain, onde ganhou o respeito de staff e corredores.

Mas quanto vale um atleta com potencial para ganhar etapas e liderar uma equipa do WorldTour numa Grande Volta?

“O valor de mercado é imposto pelo próprio mercado. Quando o corredor termina contrato este ano e analisas o Giro que fez, seguramente haveria equipas muito interessadas nele e em oferecer-lhe um contrato muito melhor que o que temos. É difícil de quantificar e depende da oferta e da procura. Nós temos contrato assinado, mas estamos a negociar um contrato a longo prazo com a Bahrain, durante o Giro pode-se multiplicar por cinco ou por seis em relação ao que tínhamos.”

Eulálio perdeu em Potenza para Arrieta, mas vestiu a maglia rosa.
Foto: LaPresse

Entrevista ao treinador de Afonso Eulálio: “Gosta de correr e correr para ganhar”

Madeira de campeão

Na passada segunda-feira, Afonso Eulálio regressou a Portugal e no aeroporto tinha à espera adeptos, família e um batalhão de jornalistas e fotógrafos.

Foi um regresso a casa atípico, pelo que o empresário do figueirense teve que servir de para-raios e possibilitar ao atleta desconectar dos nervos de três semanas de competição.

Quinta-feira é dia de reunir a imprensa e cerca de 20 a 25 jornalistas, portugueses e estrangeiros, esperam para ouvir a nova figura do pelotão internacional, que também tem vários convites para ir à televisão.

Traduzir em números este interesse mediático é a parte difícil de gerir carreiras.

“O Afonso que terminou o Giro é diferente do Afonso que iniciou o Giro. É um corredor com muito mais valor na equipa e no mundo do ciclismo. Vestiu a camisola rosa, foi o melhor jovem, a nível desportivo aumentou muito o valor dele e depois está o carisma de cada atleta. Há corredores muito bons que não têm esse dom com a imprensa e o Afonso ganhou o público e os jornalistas.”

A nível de visualizações, seguidores e comentários nas redes sociais, a Bahrain bateu todos os recordes. No entanto, não foi este súbito interesse do público que fez a equipa apostar no antigo corredor do Feirense.

Há um projeto “Eulálio” em marcha na Bahrain desde o inverno passado.

“Ainda antes da negociação do contrato eles já tinham um projeto a quatro anos para o Afonso: criar um corredor sólido para Grandes Voltas e para voltas de uma semana, mas a longo prazo. Esse projeto incluía fazer uma Grande Volta, o Giro, e que pouco a pouco fosse aprender a ser líder. É verdade que a Bahrain começou com o Buitrago como líder, infelizmente ele caiu e abandonou, mas no primeiro dia de descanso, quando chegaram a Itália, falei com o Afonso e disse-lhe: ‘Abriu-se uma porta para capitaneares a equipa e seres o líder.” Ele assumiu esse papel sem nenhum tipo de nervosismo, o que é raro num ciclista com pouca experiência, e aí vi que tem madeira de campeão, que não lhe tremia o pulso ao ser líder de uma equipa como a Bahrain que tinha perdido o seu líder. Depois dessa chamada entrou na fuga e assumiu a liderança do Giro, portanto, dentro dele já estava esse líder que a equipa projetava e no qual confiava.”

Eulálio perdeu a rosa no Vale de Aosta após nove dias a liderar.
Foto: LaPresse

Momento de afirmação de um jovem

Beñat Intxausti e Afonso Eulálio trabalham juntos desde 2024. O empresário estava atento ao calendário português e às prestações dos jovens talentos pelas respetivas seleções, por isso o 7.º lugar na Corrida da Paz, em 2023, foi um momento de afirmação de um jovem pouco conhecido.

Na altura, assinei uma antevisão da prova onde se pode ler: “Com Morgado no Giro a responsabilidade recai sobre…“. Eulálio nem era o destaque da seleção, onde Gonçalo Tavares e Daniel Lima tinham mais galões.

“Notei que na Chéquia fez pódio [na 3ª etapa] e contactei com ele. Contou-me a história de que vinha do BTT e tinha pouco tempo de estrada. Em 2024 já o via mais maduro, sendo jovem, mas com ousadia. Quando vi o Training Peaks e acedi aos treinos e aos números dele vi que tinha qualidade, um grande motor e um bom potencial.”

Tal como as vertentes só mostram um lado de uma montanha, os resultados e os números são a quantificação de certos parâmetros de um ciclista.

Comportamento, profissionalismo e atitude são o lado intangínvel, que só com o tempo se podem analisar.

“Conhecia o Afonso pelos resultados, mas desde que passámos a trabalhar comecei a conhecê-lo como pessoa. Neste Giro viu-se um Afonso carismático, líder de equipa, de grupo, com quem as pessoas simpatizam, mesmo estando num momento de máxima pressão e tensão. Soube gerir e isso é um dom que tem dentro. Ao princípio teve receio pelo inglês, mas mexe-se com uma facilidade impressionante, controlando em todo o momento o contexto, tanto as entrevistas, como em corrida.”

Transferências de Portugal para ProTeams e WorldTeams

Créditos: LaPresse

Onde está o teto do sorridente Eulálio

Os seis dias de amarelo na Volta a Portugal ajudaram a Bahrain a apostar num atleta pouco conhecido, aliás, Afonso Eulálio foi o primeiro corredor em 10 anos a saltar de uma Continental portuguesa para o WorldTour.

Felizmente, Beñat Intxausti tinha o radar ligado, até porque em 2008 correu a nossa Volta com a Scott – American Beef. Era neo-pro e tinha acabado de fazer 5.º numa Volta a França do Futuro ganha por Bauke Mollema, viria a correr 11 anos na máxima categoria.

“Portugal sempre foi escola de bons ciclistas, corredores com fome de ciclismo e talento. Fui colega do Rui Costa na Movistar e desde jovem que era talentoso. Os jovens em Portugal estão a aparecer bem. É verdade que, às vezes, não sei se é esquecimento ou se não se trabalhou tanto, talvez os empresários também tenhamos parte de culpa, não se detetou esse talento. Em Portugal há muitos corredores bons, segue-se muito o ciclismo e há jovens corredores que podem dar o salto, não sei se para o WorldTour, mas para uma ProTeam. Posso falar de um que não é meu corredor, mas que tem capacidade e margem de crescimento, o João Martins [da Credibom – LA Alumínios – Marcos Car]. No ano passado fez top 10 em corridas fora de Portugal, tem um perfil muito interessante ao ser rápido, pode ser lançador e ainda pode crescer. Neste ciclismo de pontos UCI e de conseguir vitórias em etapas é um perfil interessante.”

Por agora, ficamos a aguardar pelo descobrimento do próximo Afonso Eulálio, mas é bom saber que o enorme Giro de Itália do figueirense pode contribuir para aumentar a presença de corredores portugueses no WorldTour, este ano resumida a seis atletas masculinos e uma feminina.

Quanto à pergunta que todos fazem: onde está o teto do sorridente Eulálio? O empresário basco confidencia-nos uma conversa curiosa com o diretor da Bahrain que acompanhou o português no Giro, Franco Pellizotti.

“Gosta da pressão, sobressai com a pressão, não fica nervoso, por exemplo, no dia do contrarrelógio, que era o pior para ele, estive uns dias a visitá-lo e o Pelizzotti contou-me que o Afonso estava a dormir 9-10 horas todos os dias. Sendo líder do Giro e com tudo o que isso significa. Eu via-o mais como corredor de provas de uma semana, de clássicas tipo Liège-Bastogne-Liège ou Flèche Wallone, porque tem muita explosividade e tecnicamente é bom, sabe colocar-se no pelotão, e tem a ousadia para as provas de um dia. Também o via com madeira de líder e neste Giro demonstrou-o.”

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