António Morgado no Giro de Itália: “Venho sem pressão e estou feliz”

António Morgado no Giro de Itália: “Venho sem pressão e estou feliz”
Foto: Igor Martins

Entrevista TopCycling na estreia de António Morgado em Grandes Voltas: o sonho de ganhar uma etapa e a realidade de ser gregário, num Giro de Itália que queria ter preparado melhor.

Há entrevistas e depois há as entrevistas com António Morgado, que se prepara para a estreia em Grandes Voltas, que acontece no Giro de Itália. Falar com o corredor de Salir do Porto é sempre divertido, porque aos 22 anos é dos poucos ciclistas com um discurso genuíno, num panorama desportivo cada vez mais artificial.

Primeiro, as coisas importantes. O Bigode Voador é fã de Itália e de lasanha, por isso quisemos saber o que seria preciso para chegar ao final da prova, em Roma, feliz.

“Sei lá. Uma vitória numa etapa. Vou trabalhar, possivelmente os dias quase todos, mas se houver uma oportunidade de sprintar ou numa fuga claro que não vou desperdiçar.”

Começa forte… e pouco ambicioso!

O ADN de campeão está sempre latente no discurso do atleta da UAE Emirates, que era para acompanhar João Almeida no sonho cor de rosa, mas que agora será mais um a trabalhar para Adam Yates.

“Claro que gostava de estar aqui com o João, mas é o que é e espero que esteja em casa a recuperar bem. Vou fazer o trabalho que a equipa me propuser até à minha meta, porque a nossa meta não é a meta final, e vou dar o meu melhor. Nas subidas irei mais tranquilo. Eu e o Mikkel Bjerg somos os mais pesados e rolantes do bloco, capazes de trabalhar no terreno plano, pelo que vou ser o primeiro ou o segundo a entrar ao trabalho, mas estou contente com o papel, venho sem pressão e estou feliz.”

Morgado é campeão nacional de contrarrelógio.
Foto: FPC

Primeira vitória como profissional foi em Itália

A Itália faz parte da carreira de António Morgado, mesmo que não o tenhamos visto correr aí.

A estreia em Campeonatos da Europa foi em Trento (2021) e ainda júnior ganhou o Giro della Lunigiana (2022). No ano seguinte estreou-se no Giro Next Gen e sofreu nas rampas do Stelvio; depois veio o primeiro triunfo pela UAE, no Giro della Romagna (2024), e o primeiro abandono, no Giro da Toscana (2024).

“Gosto de Itália, é um bom país. A minha primeira vitória como profissional foi em Itália. A comida é boa, o ambiente é bom, as subidas são boas, as estradas são boas… mais ou menos, as estradas não são assim tão boas.”

Entrevista António Morgado: “O que fiz ali nunca mais vou fazer”

O TopCycling foi a Benidorm conversar com os portugueses da UAE Emirates.
Foto: TopCycling

Treinar com Javier Sola

Na primeira experiência a correr uma prova de três semanas, ninguém espera que seja a figura da corrida ou sequer a revelação, mas o nome do jovem formado na Bairrada há muito que se tornou um fenómeno mundial.

Sendo tão jovem é notável que parece sempre tranquilo, como quando lhe perguntam pelo percurso e responde que só estudou as primeiras três etapas, que marcam a Grande Partenza, na Bulgária.

Talvez seja um mecanismo para gerir as expetativas e ninguém tem maiores expetativas acerca de António Morgado do que o próprio. Constatamos isso em Benidorm, no mês de janeiro, quando no dia da apresentação da equipa nos contou que tinha começado a treinar com Javier Sola, o mesmo preparador de Tadej Pogacar e de João Almeida.

Agora, após meio ano com o espanhol, confirma que está no bom caminho.

“Com o Javier fiz uma grande transformação e sinto-me muito melhor. Nas clássicas não dá para mostrar, mas acho que fiz uma boa temporada até lá. As clássicas são o que são: continuo a dizer que aquilo não é o meu tipo de corrida, porque acabam quase sempre ao sprint, basta estar bem colocado. É preciso ter pernas, mas se estiveres bem colocado… Eu gosto de corridas mais duras e mais longas.”

Foto: Igor Martins

Duas vitórias no bolso

Quanto a favoritos tem as coisas claras: Jonas Vingegaard parte na pole position e tem uma grande equipa à volta. O dinamarquês também se preparou de forma ideal, segundo o português, isto é, correu 15 dias e treinou durante dois meses especificamente para o Giro de Itália.

A tendência das estrelas é essa, mas nem todos se podem dar ao luxo. Em termos de dias de competição, encontramos um pouco de tudo entre os candidatos à geral:

  • Ben O’Connor (29 dias)
  • Adam Yates (25 dias)
  • Giulio Pellizzari (21 dias)
  • Felix Gall (14 dias)
  • Egan Bernal (9 dias)

António Morgado vai abordar a corrida com 21 dias de competição nas pernas e duas vitórias no bolso – no Troféu Calviá, em Maiorca, e na Figueira Champions Classic, pelo segundo ano consecutivo.

Corridas por etapas só teve a oportunidade de fazer a Volta ao Algarve, dado que a equipa continua a privilegiar tê-lo nas clássicas do pavê.

“No início da época estava a andar muito bem e vou ser muito mais consistente este ano, só que neste momento é complicado porque não tive uma janela grande de treino. Quando estás assim, já com desgaste, é complicado aumentar os teus números, por isso não estou na minha melhor forma. Para estar bem em três semanas sei o que preciso de fazer na preparação; para o Giro não foi a melhor porque tive que fazer a Paris-Roubaix, que não tinha no plano, prolongar a minha época de clássicas e não consegui preparar bem esta corrida porque não consegui descansar. Fui de Roubaix direto para altitude e lá é complicado descansar, mas sei que não estou para ganhar a geral. Vamos lá ver como é que corre. Quero fazer três semanas a fundo.”

No terceiro ano como profissional chegou o momento que os fãs portugueses de ciclismo aguardavam e António Morgado vai finalmente correr uma Grande Volta. Que seja a abertura de portas das corridas por etapas e o que faltava para convencer a UAE Emirates a reformular-lhe o calendário.

VÍDEO | António Morgado em entrevista ao TopCycling

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