TREK Bicycle | A história dos 50 anos e visita à fábrica no Wisconsin, E.U.A.

Quando recebi o convite para viajar até Waterloo, no Wisconsin, sabia que não ia apenas conhecer a fábrica da Trek Bicycle, ia também conhecer o local onde a empresa nasceu, ver onde se projetam as bicicletas e ter contacto com a história de uma das marcas mais marcantes na indústria do ciclismo.
Ao longo de vários dias entrei em locais onde poucas pessoas de fora da empresa entram, pude ver e tocar nas máquinas que marcaram a história da marca, testei algumas bicicletas que serão lançadas ainda este ano, ouvi histórias contadas por quem as viveu e percebi melhor a cultura que continua a moldar a Trek cinco décadas depois da sua fundação.
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Tudo começou num celeiro vermelho, e já vão 50 anos de história
Em 1976, um empreendedor, Dick Burke, e um apaixonado pelo fabrico de bicicletas, Bevil Hogg, decidiram juntar-se para criar a sua própria marca de bicicletas. Num pequeno celeiro vermelho, na cidade de Waterloo, no estado norte-americano do Wisconsin, nascia a Trek.

Mas a história da Trek começou ainda antes, e há momentos curiosos desta história que merecem ser contados.
Bevil Hogg era proprietário da Stella Bicycle Shop, uma loja de bicicletas em Madison, onde vendia bicicletas Stella. Foi através dessa ligação ao setor que conheceu Dick Burke, um empresário que acabaria por investir no negócio e juntos abriram uma segunda loja, com a ambição de criar uma cadeia de lojas de bicicletas nos Estados Unidos.
O projeto, no entanto, não correu como esperavam. As lojas não eram rentáveis e acabaram por encerrar, mas desse aparente fracasso nasceu uma ideia ainda mais ambiciosa. Em vez de vender bicicletas de outras marcas, decidiram criar a sua própria marca e fabricar bicicletas de alta qualidade em solo americano.
Na altura, o mercado era dominado por fabricantes japoneses e italianos, a ideia de construir bicicletas de alta qualidade nos Estados Unidos parecia um desafio difícil de concretizar. Ainda assim, os dois fundadores acreditavam que havia espaço para uma marca americana que apostasse na qualidade de construção, na inovação e numa relação mais próxima com os ciclistas.

A origem do nome “Trek”
Ainda antes de produzirem o primeiro quadro, havia uma decisão importante por tomar: escolher o nome da nova empresa. Curiosamente, esse momento espelhava bem as personalidades dos dois fundadores. Dick Burke apresentava propostas mais diretas e empresariais, enquanto Bevil Hogg procurava algo mais simples e que transmitisse aventura, descoberta e liberdade, o espírito de andar de bicicleta.

Foi através do amigo Tom French ( funcionário da sua antiga loja Stella Bikes ) que Bevil colocou o nome “Trek” entre as suas sugestões. Apesar de ser sul-africano e de a palavra lhe ser familiar (associada à ideia de uma grande viagem ou jornada), nunca lhe tinha ocorrido utilizá-la como nome da empresa, a ideia foi na verdade, de Tom French.
Quando Bevil Hogg e Dick Burke se juntaram para decidir o nome, ambos compararam as diferentes opções e acabou por ser Dick Burke quem escolheu “Trek”.
Era um nome curto, fácil de pronunciar em qualquer parte do mundo e representava na perfeição a ideia de explorar novos caminhos sobre duas rodas.
Cinco pessoas e os primeiros 900 quadros
Os primeiros tempos foram tudo menos fáceis. A equipa era composta por apenas cinco pessoas, que trabalhavam diariamente naquele pequeno celeiro transformado em oficina. O objetivo era simples: fabricar bicicletas da melhor qualidade possível, sem atalhos nem compromissos.

No primeiro ano de atividade, a Trek produziu cerca de 900 quadros, um número modesto quando comparado com a dimensão atual da empresa, mas suficiente para lançar as bases daquela que viria a tornar-se uma das maiores marcas de bicicletas do mundo.

O sucesso é uma consequência de fazer o que está correto
Ao longo de 50 anos, a Trek passou de uma pequena fábrica de quadros em Waterloo para uma das maiores marcas de bicicletas do mundo. Curiosamente, durante a visita à sede da empresa percebe-se que a história da Trek não é contada apenas através dos seus produtos, mas também através de vários valores, estando um deles em destaque: “Do the Right Thing”.

Mais do que um slogan, e analisando alguns acontecimentos históricos, este princípio ajudou a moldar algumas das decisões mais importantes da empresa.
Um dos primeiros exemplos surgiu em 1984, quando a Trek equipou a 7-Eleven Women’s Team. Numa época em que o ciclismo feminino tinha pouca expressão, a marca apostou numa equipa profissional feminina, um compromisso que décadas mais tarde ganharia uma dimensão muito maior.

Em 2019 nasceu a Trek-Segafredo Women, a primeira equipa do WorldTour criada por uma fabricante de bicicletas. A contratação de Lizzie Deignan, após a maternidade, simbolizou também uma mudança de mentalidade. A Trek assumiu o compromisso de garantir igualdade de condições entre homens e mulheres, tornando-se uma referência no ciclismo feminino. Depois, outras equipas deram o passo.

Essa filosofia também se refletiu nos produtos. A Trek 2000 mostrou que um quadro em alumínio podia combinar baixo peso com uma qualidade de construção excecional, graças às suas soldaduras praticamente invisíveis, que rapidamente se tornaram uma imagem de marca.

A evolução continuou com a aposta na fibra de carbono. Antes dos atuais quadros totalmente em carbono, a Trek desenvolveu soluções que uniam tubos de carbono a terminais em alumínio, acumulando experiência que acabaria por dar origem à tecnologia OCLV Carbon, ainda hoje uma das referências da indústria.


Quando o mountain bike começou a ganhar popularidade, a Trek optou por aprender com quem tinha ajudado a criar a modalidade. A integração de Gary Fisher permitiu à marca adquirir conhecimento e desenvolver bicicletas competitivas, criando bases sólidas para a presença que mantém hoje nas disciplinas de BTT.

A competição sempre foi um laboratório para desenvolver novos produtos. A Trek ganhou projeção internacional ao fornecer bicicletas à US Postal Service e continua atualmente entre a elite do ciclismo mundial através da Lidl-Trek, tanto no masculino como no feminino.


Apesar da dimensão que alcançou, a Trek continua a ser liderada pela família Burke. John Burke, filho de Dick Burke, mantém-se como presidente e CEO da empresa e continua a defender a mesma prioridade que ouvimos repetir durante a visita: desenvolver boas bicicletas e cuidar bem dos clientes e colocar mais pessoas a andar de bicicleta em todo o mundo.

Talvez seja essa consistência que explique porque, mais de meio século depois, a Trek continua a ser uma das marcas mais influentes da indústria da bicicleta.
Portugal também tem lugar no livro do 50.º aniversário e história da marca. Nas páginas do livro comemorativo há lugar de destaque para José Eduardo Santos, carinhosamente conhecido por “Pepito“, o carismático mecânico português que integrou durante vários anos as equipas WorldTour da Trek.

Foto: Trek Bicycle Company
Reconhecido pelo profissionalismo, dedicação e pela relação próxima que mantinha com corredores e colegas, Pepito deixou uma marca profunda dentro da estrutura da equipa. Falecido em 2024, continua a ser recordado pela Trek como uma das pessoas que melhor representou os valores da empresa, merecendo um tributo especial nesta obra comemorativa.

Conversa com Bevil Hogg e John Burke
Durante a visita à sede da Trek tive a oportunidade de ouvir uma parte da história da marca contada por quem a viveu. Bevil Hogg recordou alguns episódios e falou sobre o presente e futuro da indústria do ciclismo, enquanto John Burke, filho de Dick Burke e atual CEO da empresa, explicou a a visão e responsabilidade que a Trek tem para o futuro. ( Ver vídeo )
Na sede da empresa Trek em Waterloo, onde hoje em dia trabalham milhares de pessoas e são desenvolvidas algumas das bicicletas mais avançadas do mercado, tive a oportunidade de visitar departamentos como o Trek Factory Racing, o Trek Prototype Development, Trek Performance Research e Trek Future.

Meio século depois, a dimensão da empresa mudou, mas a história continua a ser uma parte importante da identidade da marca e a energia que senti, a forma como fui recebido, espelha a hospitalidade e atenção que têm para com as pessoas.
Há muita marca de bicicleta a surgir no mercado, mas costumo dizer que quando adquirimos um produto de uma marca com história e tradição (seja a Trek ou outra), não compramos só um produto, compramos um pedacinho de história do ciclismo.
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