Ricardo Scheidecker: “É preciso líderes com sentido de Estado”

Um olhar sobre o ciclismo mundial com Ricardo Scheidecker, que também nos explica como a Tudor vai chegar ao WorldTour.
Nos últimos três anos, tenho ido ao encontro de Ricardo Scheidecker, em cada apresentação da Tudor, pelo excitante que é o projeto, mas também pela visão periférica que o português tem do ciclismo.
A equipa suíça vem do seu melhor ano: foi 13ª do ranking mundial, estreou-se a vencer uma clássica do WorldTour (GP do Quebec) e também pela primeira vez fez pódio num Monumento.
A máxima categoria ficou a certa distância e no triénio 2023-2025 as ProTeam premiadas com o Euromilhões do ciclismo foram a Lotto e a NSN. Sobre a buzina, também a Uno-X ocupou o lugar da desaparecida Arkéa.
A Tudor entrou tarde na corrida pelo bilhete premiado, mas já aponta à próxima renovação das licenças, em 2029. A época que agora começa é o primeiro momento para pontuar e a planificação está feita desde o estágio de novembro, no qual os corredores foram informados dos respetivos calendários até ao Tour de France.
“A contagem de pontos começa desde a primeira corrida. Costumo usar a expressão ‘Money in the Bank’; vamos acumulando, acumulando (…) Há uma coisa que eu tenho noção, que é a dimensão da nossa equipa e onde podemos fazer a diferença, e a escolha do calendário é muito pensada. Por isso eu sou muito focado no que se faz dia a dia. O importante é estar preparado e trabalhar no processo, e não estar a pensar três dias ou três anos à frente e esquecermo-nos daquilo que é o presente.”
Ricardo Scheidecker ao TopCycling.
A visão da Tudor é fazer parte do WorldTour. A marca de relógios helvética tem uma visão a longo termo de investimento na modalidade e encontrou em Fabian Cancellara um embaixador à altura das suas ambições.
Em 2027 vão inaugurar a base de operações, em Sursee, um projeto multimilionário que ajudará a fortalecer a ligação entre equipa e fãs.
O quartel-general que vai projetar a Tudor para outra dimensão

Foto: José Jordan
Tudor tem investido em pesquisa e desenvolvimento
O encontro de diretores e ciclistas com os média, no início de janeiro, voltou a ser em Moraira, uma encantadora vila na costa de Alicante. É a segunda casa da Tudor, que aí passa os invernos desde que a estrutura nasceu.
É junto ao Mediterrâneo que se forjam os laços que são testados durante a temporada. Só assim se mantém o grupo unido quando as coisas custam a sair, como aconteceu com Julian Alaphilippe, a contraração estrela do ano passado que averbou 12 pódios até finalmente ganhar o GP do Quebec, em setembro.
“São emoções que não têm preço. Quando o Julian ganhou no Canadá foi muito especial. Ele é um amigo, muito mais do que um corredor da nossa equipa e vivi muitas experiências com ele. Deu-me muita alegria, mas eu sou uma pessoa que vive as vitórias e os resultados sempre muito intensamente.”
Ricardo Scheidecker ao TopCycling.

Foto: Tudor Pro Cycling
A nova obsessão das superequipas
Para otimizar a performance dos corredores a Tudor tem investido em pesquisa e desenvolvimento. É a nova obsessão das superequipas, as únicas com orçamentos capazes de financiar os próprios departamentos de inovação.
A Tudor, como a Visma ou a Red Bull, trabalha dia a dia no desenvolvimento de produtos com os parceiros técnicos. Ricardo Scheidecker dá um exemplo.
“A Oakley não tinha capacetes competitivos. Fizemos um projeto com eles, começámos do zero, num trabalho que eu nunca vi. São 15-16 anos que eu trabalho nisto, mas aquilo que se fez com a Oakley – e se faz com outros patrocinadores técnicos – da sinergia entre o nosso departamento de inovação e o deles, é único. O resultado foi que, em menos de um ano, tínhamos os capacetes de estrada mais competitivos do pelotão.“
Ricardo Scheidecker ao TopCycling.
Fabian Cancellara no TopCycling: “Acordo com um sorriso”

Foto: Tudor Pro Cycling
Para onde caminha o ciclismo?
Ricardo Scheidecker é o responsável pela vertente desportiva da Tudor e não descansa à sombra do que já foi conquistado.
Primeiro vieram os convites para as clássicas das Ardenas, depois para as do Norte e para o Giro. Em 2025 estrearam-se no Tour e este ano farão as três Grandes Voltas pela primeira vez.
É a progressão natural para uma ProTeam com melhor e maior estrutura do que muitas WorldTeam.
A pressão é grande para estar nas principais provas e corresponder às expectativas de patrocinadores que investem milhões de euros. Uma situação antagónica: por um lado nunca houve tanto dinheiro a circular no ciclismo, por outro lado continuam a acabar equipas.
“Há muitos anos que digo que o ciclismo vive acima das suas possibilidades e é lógico que a modalidade ganhou e continua a ganhar valor. É isso que faz os corredores andarem mais rápido, caírem mais, porque arriscam mais, e depois há equipas que impõem pressão. Nós não vivemos com pressão, mas temos que querer ganhar, tem que ser intrínseco.”
Ricardo Scheidecker ao TopCycling.

Foto: Tudor Pro Cycling
Tour gera milhões em direitos televisivos
O desporto do povo conseguiu captar patrocinadores de alto perfil e todos querem coincidir com as altas esferas da sociedade num sítio: o Tour.
Entre os vários intervenientes no negócio do ciclismo, nenhum tem tanto poder como a Amaury Sport Organisation (ASO), entidade que organiza o Tour e a Vuelta. A empresa da família Amaury encerrou 2024 com um lucro de 111 milhões de euros, valor muito superior ao exercício de 2012, onde o lucro não passou de 38 milhões de euros.
É óbvio que a saúde financeira da ASO é melhor que a das equipas e que o dinheiro tarda em chegar aos atletas. Por exemplo, ganhar o Tour pagava 400 mil euros em 2005 e o prémio subiu para 500 mil euros em 2025; os prémios totais da prova aumentaram 25 por cento em 20 anos, uma percentagem muito inferior à de Roland Garros, que cresceu 190 por cento.
Ricardo Scheidecker reconhece o mérito da ASO em preservar intacta a reputação da corrida.
“Os diferentes stakeholders não se entendem porque não há confiança nenhuma. Os direitos de televisão, para mim, nunca vão ser distribuídos porque o organizador do Tour tem o seu legado mais de 100 anos e tem um produto de enorme valor. Agora, podemos encontrar outros meios de receita que podem ser distribuídos. Vamos falar sobre isso seriamente, mas sobre isso ninguém fala. Já aconteceu e essa receita não foi distribuída como devia ter sido. Porquê? Cada um gere o seu negócio da forma mais como melhor entende. Eu só tenho que tirar o chapéu à ASO pelo seu profissionalismo, porque as coisas que fazem, fazem bem. São o melhor organizador de corridas do mundo.”
Ricardo Scheidecker ao TopCycling.
O modelo de negócio do ciclismo não muda há décadas e parece uma utopia que venha a mudar a curto prazo.
Richard Plugge, responsável máximo da Visma Lease a Bike, disse no Media Day da equipa, onde o TopCycling marcou presença, que “o ciclismo está numa espiral descendente” e que “até equipas relativamente grandes estão em problemas, por isso temos que garantir que o ciclismo muda profundamente”.
Ricardo Scheidecker remata a entrevista com uma reflexão que é extensível a muita gente que vive o ciclismo de forma apaixonada: “É preciso líderes com sentido de Estado. É o que o mundo não tem hoje. No ciclismo também é preciso. E a honra estar sempre em cima da mesa”.
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