Beatriz Pereira muda de ares na Rio Miera

Beatriz Pereira muda de ares na Rio Miera

Terceira época em Espanha para Beatriz Pereira promove reencontro com a antiga rival Beatriz Roxo. Uma conversa sobre maturidade e o que está por fazer no ciclismo feminino.

Desde abril do ano passado que Beatriz Pereira sabia que o futuro não passava pela Bizkaia Durango. Foram meses a estudar a evolução do pelotão espanhol e tentar encontrar uma estrutura no escalão Continental.

A exigente legislação introduzida pelo governo de Espanha em 2024 veio profissionalizar as equipas, mas complicou a procura de um lugar já que o pelotão Continental passou de oito a três equipas.

A corredora de Vila Nova de Famalicão assinou pela Rio Miera Cantábria Deporte, após concluir com êxito a difícil adaptação ao escalão de elites que incluiu terminar o passado Giro de Itália.

“Foram dois anos difíceis como era de esperar por ser sub-23. A preparação está a correr bem. Mudei de treinador, de equipa e precisava de mudar de ares. Mudar o método se queremos mudar os resultados. Estou muito contente e espero conseguir demonstrar isso nas corridas que muitas vezes é o mais difícil.”

Beatriz Pereira

Mulheres do Norte

Na formação da Cantábria haverá três portuguesas: Beatriz Pereira chega à equipa onde já estava Beatriz Roxo, enquanto Marta Carvalho foi recrutada para as sub-23.

As três foram campeãs nacionais de fundo em juniores e para as duas mais velhas a rivalidade sempre marcou a relação quando uma corria pela Bairrada e a outra pela Academia de Paredes.

As Beatriz são mulheres do Norte: Pereira é famalicense e Roxo gaiense. O sonho de viver do ciclismo levou-as a passar a sub-23 no competitivo calendário espanhol e nada como passar dois anos fora da zona de conforto para diluir velhas rivalidades.

“Já nos conhecemos há muito tempo. Em parte ela [Beatriz Roxo] foi responsável pelo sucesso que tenho hoje porque fez-me treinar mais e puxar por mim. Essa rivalidade era fruto da imaturidade. Quando as corridas em Portugal são o teu mundo é normal que fiques chateada quando perdes, mas tudo isso deixou de existir quando chegamos a Espanha. Todas as portuguesas estávamos super unidas porque é a maneira de termos alguém familiar, que fala português e que percebe os nossos costumes. Hoje em dia é isso que a Beatriz representa para mim.”

“A base do ciclismo feminino tem que subir um nível”

O calendário é provisório, mas Beatriz Pereira deve iniciar a época a 4 de fevereiro, na Volta à Comunidade Valenciana.

A prova é de categoria 1.1 o que significa que não há restrições para a participação de equipas amadoras como a Rio Miera

Os obstáculos estão mais acima: a nova legislação impede que estes projetos participem na Vuelta ou na Volta ao País Basco.

“Tenho sentimentos contraditórios. Tem que se começar por algum lado e foi dado espaço suficiente às equipas para o fazerem por vontade própria. Mentiria se dissesse que não sinto que isto é injusto porque só Espanha e França estão a aplicar a legislação, não a nível da UCI. Pode haver equipas UCI a ocupar vagas em provas espanholas que eram preenchidas por equipas locais. Sinto que é uma medida necessária, incontornável porque a base do ciclismo feminino tem que subir um nível.”

Aos 20 anos, Beatriz Pereira pensa o que diz sem receio de dizer o que pensa. Só assim foi capaz de ultrapassar momentos onde chegou a questionar se queria ser ciclista.

Acerca da nova realidade em Espanha, que levou ao desaparecimento de várias equipas, a atleta considera que os projetos devem ser ambiciosos.

“Se só trabalharmos o WorldTour, o topo, falta um escalão intermédio. É uma maneira de elevar o nível das provas porque se as atletas forem pagas podem fazer do ciclismo uma profissão a tempo inteiro e consequentemente o nível subirá. Se a base melhorar o pelotão ficará mais uniforme, porque sinto que no ciclismo feminino há 15 atletas que disputam todas as corridas e o resto do pelotão está um bocadinho desfalcado.”

Créditos: Río Miera Cantabria Deporte

Giro com a média de idades mais baixa desde 1996

A realidade é que o ciclismo feminino se divide em 15 equipas no WorldTour e uma segunda divisão Continental onde a maioria das estruturas trabalha de forma amadora.

Pegamos no Giro do ano passado como exemplo. Nove Continentais correram a mais antiga corrida por etapas do calendário – a Bizkaia Durango foi uma delas. No mesmo pelotão tivemos Annemiek van Vleuten – que preparou a prova estagiando nos Alpes italianos – e Beatriz Pereira – convocada a uma semana do evento.

“O Giro foi inesperado, provavelmente não estava tão bem preparada quanto gostaria, mas estou grata à Bizkaia porque a atleta que saiu do Giro foi diferente para melhor, apesar do sofrimento de tantos dias a perseguir o grupeto. Foi das melhores coisas que a Bizkaia me pode dar durante estes dois anos.”

Em 2024 tivemos o Giro com a média de idades mais baixa desde 1996, um reflexo da transição geracional que acontece no pelotão feminino.

As grandes Voltas podem estar fora do radar de Beatriz Pereira, mas o trabalho continua. O sonho de chegar ao topo é alentado pelo que não se vê: a fibra moral de uma miúda que, aos 19 anos e sem preparação específica, foi capaz de concluir um Giro onde se andou ao ritmo das profissionais.

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