Rúben Rodrigues já ganha no ciclismo sub-23 pela Euskadi
Leintz Baularari Itzulia-Aretxabaleta parece um código indecifrável, mas é o nome da prova que Rúben Rodrigues ofereceu à Fundação Euskadi em meados de um mês de agosto com overbooking no calendário de ciclismo.
Nesta região de Espanha tudo é diferente. O ciclismo é sagrado, mas a vida não é fácil. O clima chuvoso, a barreira linguística e o carácter reservado das pessoas são desafios.
Rúben Rodrigues fez de Itsasondo uma segunda casa. É uma aldeia rural, na província de Guipúscoa, com 661 habitantes, junto ao rio Oria e cuja paisagem é marcada pelo monte Murumendi.
Finalmente chegou a vitória
O verde do monte é sinónimo de esperança, sentimento que nunca abandonou o ciclista português nas três épocas ao serviço da Fundação Euskadi.
Desde júnior, quando correu na Bairrada com António Morgado, Gonçalo Tavares e Daniel Lima, que o TopCycling acompanha a aventura basca do atleta minhoto.
No País Basco há duas competições importantes no ciclismo de formação: no inverno o Torneio Euskaldun e no verão o Torneio Lehendakari. Foi num tríptico deste último que finalmente chegou a vitória.
Entrevista | Rúben Rodrigues tem segunda oportunidade no ciclismo basco

“Senti que tinha pernas para disputar a corrida”
Sexta-feira correu-se o Circuito Aiala-Amurrio (111 km) – vitória de Iker Villar (Caja Rural-Alea) – e no domingo Laudio Saria (111 km) – vitória do francês Hugo Tapiz (Finisher). Duas vitórias de equipas satélite das ProTeam da Caja Rural e da Kern Pharma.
O que motivou este artigo sucedeu no sábado. A Leintz Baularari Itzulia, em Aretxabaleta, teve 115 km e Rúben Rodrigues ganhou!
“Andei escapado na sexta-feira e no final ajudei um colega [Jorge Gonzalez] a sprintar, espremi-me ao máximo e ele conseguiu um 2º posto. Ver-me na frente e sentir que tinha pernas para disputar jogou um papel importante para o dia seguinte. Foi uma corrida plana, a meio uma subida de 10 minutos bastante dura, tudo isto passado duas vezes. Na primeira subida senti que tinha pernas para disputar a corrida; à entrada da última subida, a 15 km da meta, a equipa colocou-me nas primeiras posições e fui desde o início ao máximo, sem olhar para trás, sabia que era o meu momento porque tudo o que seja acima de 10 minutos de subida adequa-se a mim. Passei no topo com mais um corredor, tínhamos três a perseguir e decidi jogar frio. Fiz a descida à roda no grupo de cinco; a dada altura fui pela esquerda da estrada e o grupo pela direita, aumentei o ritmo e fui olhando para trás para manter a margem. Foi um contrarrelógio de 5 km até à meta, com alguns topos pelo meio.”
Rúben Rodrigues ao TopCycling.

Foto: Fundación Euskadi
“Desbloqueei os medos de tentar e nunca ter conseguido“
Têm sido três anos de altos e baixos, o normal em qualquer carreira e ainda mais normal para um jovem de 21 anos.
Bem se pode dizer que foi uma vitória procurada, trabalhada e que recompensa o esforço de um atleta que abdicou de tudo pelo sonho de ser ciclista.
“Ainda me custa recordar os momentos da corrida porque parece que não é bem real. Sempre fui um ciclista que na parte final tinha que ajudar os colegas, chegava com os melhores e nunca tinha conseguido vencer. Tinha claro que num grupo reduzido era difícil ganhar porque com o passar dos anos fui perdendo ponta final, que é o que dá vitórias, tinha que encontrar o triunfo de outra maneira. Iam comigo dois Finisher, um Caja Rural e um Gomur. Abri um máximo de 10 segundos, o Gomur era muito alto e arrancou do grupo, mas ainda tinha alguma força e consegui ganhar. Não acreditei na vitória até cruzar a meta, mas permaneci focado. Disputar uma corrida deste nível… não há palavras. É para isto que faço cinco ou seis horas de treino na pré-época quando sem a certeza de nada. Por um dia desbloqueei os medos de tentar e nunca ter conseguido; às vezes falta a primeira vitória para desbloquear a percentagem da cabeça que te faz continuar quando vais a sofrer. Estive bem física e psicologicamente.”
Rúben Rodrigues ao TopCycling.

Promessas que se vão pagar à mesa com uma txuleta
À boa maneira basca foram feitas promessas que se vão pagar à mesa com uma “txuleta” ou não fosse o País Basco um paraíso para os amantes da carne.
Rúben Rodrigues vive como tantos emigrantes: com a sensação de que a distância o afastou do público nacional e de que a falta de vitórias transforma uma boa trajetória em algo menos vistoso.
“As pessoas em Portugal não conhecem bem a minha caminhada nem o bem que está a correr. Hoje em dia só se liga ao primeiro lugar e ao pódio. Estava difícil de chegar, mas poder partilhar a vitória com as pessoas que gostam de mim é a melhor parte. A sensação de me ver ganhador desbloqueia a percentagem mental que permite correr sem medo e leva à vitória. No domingo seguinte à vitória fizemos outra corrida e ia completamente livre, não se deu outra vitória, mas estive perto porque andei escapado e só fui apanhado a 5 km. A sensação de poder correr sem medos e depois de uma vitória é muito prazerosa, vou tentar aproveitar-me disso para continuar com esta boa sequência.”
Rúben Rodrigues ao TopCycling.
Diário de um sub-23 – Rúben Rodrigues

Um miúdo meio perdido numa aldeia remota
Itsasondo, voltamos ao ponto de partida desta aventura. Três anos na mesma aldeia dão para muito e um português é uma presença quase exótica no País Basco rural.
Vestindo a pele de ciclista Rúben Rodrigues pedala pelos montes de Guipuscoa. O desafio é quando volta a ser um miúdo meio perdido numa aldeia remota, a cerca de uma hora de Vitoria e San Sebastian.
“Estes três anos têm servido para crescer como ciclista e como pessoa. Tens que te aprender a moldar às pessoas e ao que te rodeia. Este ano dei-me a conhecer mais, a procurar as pessoas da aldeia para tudo o que precisava e toda a gente me apoiou e motivou quando as coisas não saiam como eu queria. Tenho muita gente a agradecer por estes anos, por vezes ficavam mais contentes com os meus resultados do que eu.”
Rúben Rodrigues ao TopCycling.
Mikel Gaztañaga, diretor da Fundação Euskadi, bem como a família, têm sido um importante apoio, sobretudo nos momentos em que tudo é questionado.
Será que estou melhor em casa com a família? Será que podia adiantar a vida já que o ciclismo dura pouco?
Rúben Rodrigues aposta em algo que parece irreal, mas a vitória renovou o sonho de fazer do ciclismo vida, seja na Fundação Euskadi, continuando no circuito amador, seja dando um salto para a Euskaltel-Euskadi, equipa mãe.