Diário de um sub-23 – Rúben Rodrigues

Diário de um sub-23 – Rúben Rodrigues

Rúben Rodrigues corre na Laboral Kutxa, filial da Euskaltel Euskadi. É o primeiro de vários atletas que nos vão aproximar da realidade que vivem os sub-23.

Chamo-me Rúben Mota Rodrigues e corro na Laboral Kutxa, equipa de formação basca com um projeto muito ambicioso.

Os sub-23 passamos por experiências caricatas e passá-las aos leitores é uma coisa que tenho muita vontade de fazer. Vamos a isso.

O objetivo é contar-vos a abordagem a uma corrida, neste caso o 58º Circuito do Guadiana. Realiza-se em Don Benito e conta para a Taça de Espanha, por isso é preciso chegar num bom nível.

A preparação foi feita no inverno, na semana anterior só faço ajustes e descanso bem o corpo para chegar fresco à corrida. A semana começou com treinos de base, algumas séries, na sexta-feira levantei o pé e deixei o corpo recuperar, foi hora e meia suave para recuperar ao máximo.

Gosto de fazer massagem desportiva depois de alguns dias de carga, algo que em Espanha não faço tanto. Como estava em Portugal recuperei a rotina da massagem com o meu massagista de confiança e sente-se muito a diferença depois de carregar e libertar as contraturas que resultam da carga sucessiva.

É algo a que o ciclista tem que dar muito valor: saber recuperar, gerir entre carga e descanso, faz parte do dia-a-dia e da abordagem às corridas.

Créditos: Markel Bazanbide

Hidratos desde o pequeno-almoço até ao jantar

Viajei para Salamanca, ponto intermédio face à equipa que vinha do País Basco. De lá fui com eles.

No dia anterior à corrida é importante a alimentação. Domingo previa-se uma prova exigente – 165 km a alto ritmo. Temos que ingerir bastantes hidratos desde o pequeno-almoço até ao jantar.

Comecei com o nutricionista da equipa, que gere o meu plano, e nos dias anteriores à corrida dá-me mais liberdade para comer. A nutrição é importante na aproximação à corrida, sem combustível e energia o corpo não rende o que deveria.

A intenção da equipa é disputar a classificação geral da Taça de Espanha. A Don Benito levámos uma equipa forte, apesar do percurso não se adaptar às nossas características: costuma-se chegar em sprint massivo e não é um percurso muito seletivo porque só tem uma subida de 1-2 km feita cinco vezes.

Créditos: Markel Bazanbide

Fazer o máximo até à meta

Levámos dois elites todo-o-terreno e o objetivo era meter alguém no top 10. O meu papel era tentar estar na fuga para jogarmos em superioridade numérica. Gostamos sempre de deixar tudo e passam-nos a ideia de que é para fazer o máximo até à meta, não nos contentarmos com pouco.

A Taça de Espanha é disputada por sub-23 e elites. Este ano são 11 corridas que pontuam para a geral, com início em fevereiro e final em maio.

É preciso ser constante e versátil. Os vencedores da Taça de Espanha conseguem sprintar em grupos reduzidos, passar montanhas quando o percurso é exigente e são atletas preparados para passar a profissionais. O exemplo mais recente é o Thomas Silva (Caja Rural).

O objetivo da época é o Torneio Euskaldun, disputado no País Basco em terrenos onde nos adaptamos melhor e pelo que vi no estágio temos um grupo coeso para fazer bons resultados.

Boa disposição no reconhecimento do percurso do 58º Circuito do Guadiana, em Don Benito.

Deu para rir e aproveitar a incrível paisagem

Ficámos no hotel com o resto das equipas, saímos para rodar hora e meia, fazer umas ativações. As viagens para a Taça de Espanha são longas e eu adormeço sempre. Acordei numa área de serviço ao lado da maior central nuclear de Espanha.

Almoçámos e na mesa ao lado estavam uns portugueses que não sabiam que eu era português. Em conversa uma senhora perguntou-nos se achávamos bem que votasse no André Ventura. Fiquei a ouvi-los e não me pronunciei porque a política não é o meu forte, mas achei engraçado.

Entre que saí para rodar 40 km no dia antes da prova e que terminei a competição foi uma correria. Já em casa, no País Basco, é que dá para pensar no fim-de-semana.

Logo no treino percebemos que a diferença se ia fazer no plano, a subida era de quatro minutos e com o vento forte percebemos onde tínhamos que estar. Foi bom dar essa volta.

Como íamos tranquilos deu para rir e aproveitar a incrível paisagem de Don Benito. Tem descampados verdes que recomendo para quem gosta de dar uma volta de bicicleta. Passamos por uma mesquita toda banhada em ouro e não resistimos a tirar uma foto.

Créditos: Markel Bazanbide

Por causa do vento mudámos o plano

Após o treino tivemos reunião. Analisamos o percurso, o vento, o clima. Temos uma aplicação que nos mostra a direção do vento e onde ia soprar mais forte para estarmos preparados. Essas reuniões fazem a diferença porque trazemos sempre um plano, mas no dia anterior parar e falar sobre a corrida é importante para ajustar.

O meu papel era sair às fugas e ajudar nos quilómetros finais. Por causa do vento mudámos o plano e optámos por levar a equipa toda bem posicionada nesses momentos-chave. Foi importante falar porque no final as coisas saíram-nos muito melhor com essa abordagem.

Ao jantar foi uma risota, é um momento de descontração. Nos hotéis há sempre momentos caricatos com as pessoas que nos servem e que estão preparadas para pessoas normais, não para ciclistas famintos. Primeiro dão-nos um pratinho com massa e arroz, depois trazem a proteína. Nós tentamos repetir e dizem-nos sempre um “não” de forma seca.

Ficámos num hotel de quatro estrelas, costumamos ficar em hotéis porreiros na Taça de Espanha. Entramos sete num elevador onde cambiam cinco e ficamos presos, mas saímos ilesos. São coisas que só nos acontecem quando estamos juntos.

Créditos: Markel Bazanbide

Percurso tinha retas infindáveis

No dia da corrida acordámos cedo, saímos de bicicleta para a apresentação e a corrida foi como esperávamos. Não era uma chegada para sprinters como noutros anos, a cada passagem na meta o grupo principal selecionava-se cada vez mais.

O percurso tinha retas infindáveis, apenas quatro ou cinco viragens em 40km. Sabíamos que em algumas viragens tínhamos que estar na frente e foi o que tentámos fazer.

Sabíamos que éramos das equipas com melhores cartas para jogar, a par da Cortizo – filial da Burgos-BH – e da Caja Rural. Metemos um corredor na fuga logo na primeira volta, o que ajudou a jogar atrás porque não precisámos de perseguir e poupou-nos bastante esforço.

Créditos: Markel Bazanbide

Abanicos

Eu não tenho o perfil mais correto para estas corridas e na brincadeira com o Lucas Lopes, que correu pela Supermercados Froiz, dissemos que não havia nada a fazer.

Somos pesos-pluma e em plano, com abanicos, custa-nos muito e foi sobretudo aprender. Numa reta com vento lateral até ficamos cortados e ajudámo-nos a reentrar numa altura em que o grupo tinha só 25-30 elementos.

Apesar de parecer um perfil plano para sprinters foi um percurso duro e seletivo, aprendi muito e em próximas corridas já vou estar mais preparado e a equipa também.

Ganhou o Vojtech Kminek (Cortizo) e nós metemos o Iñaki Diaz no top 10. Eu fechei no lugar 91 entre os 93 que terminaram; 88 corredores não acabaram.

Gostei muito do fim-de-semana, de vos contar o que se passou. Se voltar a ter esta oportunidade seria um gosto voltar a contar-vos tudo de novo.

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