Quinn Simmons: “Não vamos correr pelo segundo lugar”

O Topcycling foi ao Media Day da Lidl – Trek conhecer Quinn Simmons, campeão nacional estadunidense, que fez Tadej Pogacar tremer na Lombardia
Quinn Simmons não é um ciclista qualquer, mas alguém que valoriza tanto a ética como a estética em competição.
O único estadunidense da equipa que, durante anos, representou os Estados Unidos da América, através da Trek, é agora germânica, desde que a Lidl assumiu o controlo das operações.
Nada que preocupe o corredor do Colorado, porta-estandarte dos solitários do pelotão, aquela espécie rara que leva o sofrimento a patamares impensáveis. O ciclismo é simples, quando é visto pelos olhos de Quinn Simmons, que tem como missão dar espetáculo, mesmo quando pela frente está Tadej Pogacar.
“Recuso-me chegar à partida e desistir logo da vitória, e correr para segundo, só porque há um ciclista melhor”.
Quinn Simmons
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Foto: A.S.O./Billy Ceusters
Pôs em causa a quinta Lombardia de Pogacar
Quinn Simmons assinou uma época de alto nível, assumindo-se como um dos agitadores de serviço.
Começou o ano com vitória na Volta a Catalunha, depois regressou a casa para vencer os Campeonatos Nacionais e já com o maillot de Capitão América ganhou na Volta à Suíça.
Faltou a vitória no Tour de France – foi segundo na sexta etapa – e um dos objetivos para 2026 é ir buscar esse triunfo fugidio. Em Montreal, palco do próximo Mundial, subiu ao pódio e sonhou com discutir o título no Ruanda, num dia em que tudo correu mal aos estadunidenses.
A moral oscila consoante as exibições. Alta em Montreal, baixa no Ruanda, apenas para voltar lá acima com o quarto lugar na Lombardia. No último Monumento da época passou quase todo o dia em fuga e pôs em causa a quinta Lombardia de Pogacar.
O esloveno lá acabou por se impor na clássica das folhas mortas, mas elogiou a exibição de Quinn Simmons, e confessou que o ciclista da Lidl – Trek pregou um susto à UAE Emirates – XRG.
“É engraçado, porque vejo muitas vezes as pessoas a questionarem as minhas táticas naquele dia. Posso prometer uma coisa: se tivesse esperado até à última subida, nem sequer estaria entre os 20 primeiros (…) Quando está alguém, como o Tadej, a perseguir, infelizmente, três minutos na subida não são suficientes. Comecei a sonhar com o pódio. Acho que estava ao meu alcance. Só não consegui chegar lá no topo. Seria bom estar lá em cima e tirar a foto, mas acho que provei o meu ponto”.
Quinn Simmons
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Créditos: A.S.O./Billy Ceusters
Em busca de redenção
Em 2026, Quinn Simmons terá um calendário semelhante ao da passada temporada. Arranca na Strade Bianche, vai à Amstel Gold Race, faz os Nacionais e espera apresentar-se no Tour de novo com a camisola de campeão dos EUA.
Na Amstel, partiu como líder e após duas horas de corrida comunicou via rádio que o ritmo da corrida ia louco e que ia tornar-se numa clássica para trepadores. Teve que ser o amigo Mattias Skjelmose a dar um passo à frente.
“Corremos juntos como juniores. Tem sido divertido acompanhar o progresso da carreira dele. Eu estava lá quando ele venceu na Suíça e a Amstel. É um dos poucos ciclistas do pelotão que, quando vemos vencer, ficamos genuinamente felizes por ele. É um dos ciclistas mais trabalhadores da equipa e do pelotão.
Somos super honestos um com o outro quando competimos. Uma história engraçada: quando ele ganhou a Amstel, antes da partida e nas duas primeiras horas da corrida, ele dizia que ia estar lá para me ajudar no final. Eu dizia: “Vocês estão rápidos demais”. Quando fui terceiro, em Montreal, estávamos basicamente a discutir sobre quem ia até ao fim: “Não, tu é que deves ir”, “Não, tu é que deves ir”. É muito bom ter alguém em quem podemos confiar plenamente. Além disso, damo-nos muito bem. Partilhamos o quarto. É bom ter isso.”
Quinn Simmons
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A grinta que lhe está no ADN
Skjelmose acabou por bater Remco Evenepoel e Tadej Pogacar. A prova que percorre o Limburgo neerlandês é uma das indispensáveis no calendário de Simmons, já que desperta recordações dos tempos de júnior, quando se alojava na região numa casa que serve de base de operações à Federação dos Estados Unidos.
A outra zona onde se sente em casa é a Toscana. A paisagem e a comida fascinam o craque do Colorado, que até já passou férias em família na região. Para Simmons, na Strade Bianche tudo é elegante e para um showman dá um gozo particular exibir-se à frente dos fãs italianos, que tanto valorizam a grinta que lhe está no ADN.
“Se tivesse de nomear o meu maior objetivo, seria conseguir a etapa do Tour que me escapou este ano. Mas acho que fazer uma temporada ao mesmo nível de 2025 já seria um grande sucesso”.
Quinn Simmons
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Apelo para um ciclismo mais espetacular
Não sendo um ganhador em série, por esta altura já temos claro que Quinn Simmons procura ser protagonista e dar espetáculo.
No entanto, está longe de ser um idealista, isto é, não dá uma pedalada sem pensar que pode ganhar.
“Só somos pagos porque a televisão está ligada. Temos de ter um bom desempenho e temos de fazê-lo bem. Não podemos fazer coisas estúpidas. É um desporto no qual quanto mais olhos estiverem postos em nós, na equipa e nos patrocinadores, mais dinheiro todos vamos ganhar. É a nossa carreira, devemos isso a nós próprios, aos patrocinadores, à equipa.
Não podemos alinhar à partida e desistir imediatamente da vitória, e correr pelo segundo lugar, só porque há um ciclista que é melhor do que nós. Temos de tentar tudo. Mais uma vez, como disse anteriormente sobre o entretenimento, devemos a nós próprios e ao desporto tentar vencer. Não vamos ficar parados e correr pelo segundo lugar”.
Quinn Simmons
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O Tour é a única corrida que importa para os americanos
O sentimento de correr com a Stars and Stripes, nome pelo qual é conhecido a bandeira dos Estados Unidos, não só ajuda à rápida identificação do atleta da Lidl – Trek, como coloca na agenda mediática toda a nação.
O país que vai receber os Jogos Olímpicos em 2028, em Los Angeles, tem uma geração de ouro no WorldTour, graças a nomes como McNulty, Powless, Kuss, Jorgenson e Riccitello.
Nos Estados Unidos, como na maioria dos países não-europeus, só há uma prova com repercussão global.
“O Tour é a única corrida que importa para os americanos. O facto de termos quatro ou cinco ciclistas a competir a sério no Tour faz com que se sinta o entusiasmo das pessoas. Estou a fazer um treino, paro numa estação de serviço e um tipo sai da sua carrinha para me dizer como está entusiasmado por nos ver no Tour e como foi bom ver a camisola (campeão norte-americano) lá. Nunca esperaria que fosse fã de ciclismo. São pequenos momentos que fazem sentir que o desempenho atrai fãs. Temos um grupo muito bom para construir isso agora.”
Quinn Simmons
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Fã de esqui de montanha
Sendo nativo do Colorado, estado cuja paisagem está marcada pelas Montanhas Rochosas, Quinn Simmons é fã de esqui de montanha, modalidade na qual foi vice-campeão mundial júnior, em 2017.
Por agora, a vida do corredor da Lidl – Trek foca-se exclusivamente no ciclismo, mas no final da conversa com os jornalistas Quinn Simmons lá deixou cair o velho desejo de, um dia, competir nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Em 2026 o evento terá como sede Cortina d’Ampezzo, perto de Milão, seguindo para os Alpes franceses em 2030. Quatro anos mais tarde regressa a Utah, onde já se realizaram em 2002. A ideia fica no ar, embora seja provável que a estreia olímpica ocorra nos Jogos Olímpicos de Verão, em Los Angeles.
Créditos da fotografia de destaque: A.S.O./Charly López