Em plenos Campeonatos do Mundo 2025 e já após assistir ao “Tri” de Remco Evenepoel no contrarrelógio, partilho uma conversa que tive este ano com Peter Sagan, um dos Campeões do Mundo mais emblemáticos da história do ciclismo.

Quantos atletas no desporto mundial conseguiram terminar a carreira e manter-se como verdadeiras estrelas mediáticas? Não muitos e no ciclismo ainda menos, mas Peter Sagan conseguiu rentabilizar uma carreira que lhe permite viver do mediatismo que conseguiu pelas suas conquistas desportivas, pela sua forma de estar no pelotão e na vida.
Três títulos de Campeão do Mundo, sete camisolas verdes no Tour de France, vitórias em monumentos como o Tour de Flandres ou a Paris-Roubaix, e uma personalidade única tornaram-no num ícone que que vai além do ciclismo.

Começo assim este artigo para vos colocar em perspectiva o significado e a dimensão que tem o atleta, a figura, o personagem, a imagem e a marca Peter Sagan.
Hoje em dia, Sagan é uma espécie de “estrela de cinema” (no bom sentido). Só não está em Hollywood porque não quer, acredito que se quisesse o conseguiria. “Este ano passei três meses num programa de dança na televisão, foi super intenso mas gostei”, contou-me.

Peter, terminaste a tua carreira de ciclista profissional, como é a tua vida hoje em dia? O que fazes profissionalmente?
“Trabalho com os meus patrocinadores, como a Specialized, a 100%, a Sportful, a Monster, a My Whoosh e também a Pierre Baguette, a minha agenda depende deles, faço muitos eventos, granfondos e apresentações, o que me mantém ocupado e ainda ligado ao ciclismo.
Sempre que sou convidado para alguma corrida ou evento especial, estou disponível. O difícil é encontrar o equilíbrio entre todas estas coisas.
Este ano foi especial porque estive bastante tempo nesse programa de dança, mas encaro a vida como uma espécie de férias permanentes. Hoje em dia se não tenho de pensar em performance, treinos e corridas, então todos os dias são um bom dia. (risos).”
Quando lhe perguntei qual foi a parte mais difícil de lidar durante a carreira, a resposta surpreendeu-me porque pensava que iria referir a dureza dos treinos, a disciplina alimentar, os estágios em altitude, mas não, depois de pensar alguns segundos respondeu:
“Para mim o mais difícil foi a fama, acho que é complicado para qualquer pessoa que de repente se torna famosa. Toda a gente quer ser famosa – nas redes sociais, a querer ser influencer – mas depois percebes que pode ser mais uma carga do que uma vantagem.
A verdade é que é bem melhor ser rico e não famoso, do que ser famoso e pobre. (risos)
Claro que ser famoso também me trouxe vantagens e oportunidades, é algo que me vai acompanhar para sempre, ao longo da minha carreira aprendi a lidar com isso, mas confesso que não foi fácil.

Peter Sagan sabe que já viveu o que tinha a viver como profissional, está completamente adaptado à sua vida pós-profissional, trabalha para os seus patrocinadores e fala como mais um membro da empresa (das várias com quem tem contrato).
Durante os dias em que tive a oportunidade de partilhar umas voltas de teste da nova Specialized Diverge com ele, falava com a restante equipa da Specialized como mais um da equipa, referindo-se à marca como “nós”, “nós estamos bem”, quando falava da corrida da Taça do Mundo de XCO que ia acompanhando no telemóvel em algumas pausas.

Hitórias de bastidores – Das piores temporadas, à importância do treinador Patxi Vila
Peter Sagan foi um dos ciclistas que viveu a transição para aquilo que hoje em dia chamamos de “ciclismo moderno”, uma expressão utilizada quando é referida a forma de correr no pelotão, a forma como os treinos são controlados, como a nutrição e abordagem alimentar mudou, como tudo é diferente. O Eslovaco sentiu a transição em que altura da sua carreira?
Foi em 2014, 2015, a UCI obrigou as equipas a terem no mínimo três treinadores e aí começou a mudança, disse Sagan.

“Antes havia plano de treino mas também treinava pelo que sentia, mas de repente tinha treinadores a dizer “vais ser melhor trepador, mas vais manter a potência no sprint.” Apesar de já ser um ciclista vencedor na altura pensei: ok, vamos tentar. Mas não funcionou, 2014 foi a minha pior época.”
Em 2015 quando cheguei à Tinkoff a história continuou com o treinador Bobby Julich, que tinha as mesma teorias, mas não estavam a funcionar e as coisas descambaram quando não se quis responsabilizar.
“Ao fim de quatro meses na Tinkoff, quando não ganhava, ele disse que eu estava com burn-out, que estava acabado e que nunca mais ia vencer nada.
Eu disse-lhe: sabes que mais? Eu sigo o meu caminho, tu segues o teu. Não quero voltar a ver-te na vida.”
É raro ouvir um ciclista falar assim, sem filtros, sem ser “politicamente correto”, notei que Peter Sagan não necessita ter reservas nesta fase da sua vida e continua a ser diferente, tal como quando era ciclista profissional.
“Depois, tudo mudou com Patxi Vila, um treinador mais humano, que tinha sido ciclista e percebia melhor as necessidades de cada atleta. Com ele encontrei o equilíbrio. Voltámos a trabalhar com base no plano mas também no que eu sentia, não como uma máquina, e comecei a ganhar outra vez.”
Com base no que me disse, fui pesquisar pelas vitórias das temporadas 2014 e 2015, quando Sagan lutava quanto às regras de treino que lhe queriam impor. Após seguir o caminho que achava o correto para si (ainda em 2015), venceu os três títulos mundiais, entre 2015 e 2017.
Por vezes, vemos ciclistas que deixam de ganhar e julgamos que já não têm talento. Mas há muita coisa que não passa na televisão: mudanças de equipa, métodos de treino diferentes, treinadores que não se adaptam ao estilo do atleta, lesões, problemas pessoais, tudo isto tem influência no rendimento de um atleta mas o público em geral não faz ideia de tudo o que se pode passar.
UCI e as proibições
Peter Sagan ficará na história do ciclismo não só pelas suas vitórias mas também pela habilidade que tinha (e tem) a manobrar a bicicleta. Perguntei-lhe como via as regras da UCI que limitaram posições aerodinâmicas como o “super tuck”, ou outras regras limitativas no pelotão profissional.
“Eu usei todas essas posições, como profissionais nós temos a noção do que estamos a fazer mas percebo a UCI, as crianças viam-nos no Tour e tentavam imitar. Houve quedas. Eles têm de proteger o futuro e eu percebo isso.
É como a Fórmula 1: vês na TV, mas não vais pegar num carro de F1 para andar na estrada. É a diferença entre os profissionais e os que não são profissionais. Nem todas as pessoas têm essa noção.”
Mostrou também compreensão na limitação dos guiadores muito estreitos e manetes viradas para dentro:
“É perigoso. Não consegues manejar tão bem a bicicleta. Há alguns anos atrás, no BTT também usámos guiadores curtos e hoje em dia chegaram à conclusão de que guiadores largos dão mais controlo. Portanto, eu acho que a UCI está a fazer um bom trabalho ao impor alguns limites neste aspeto.
A tecnologia que mais o marcou
Quando lhe pedi uma resposta rápida sobre a tecnologia que mais influenciou a sua carreira, Sagan não falou em potenciómetros, rodas aero ou travões de disco:
“Houve duas coisas que me marcaram, o medidor de frequência cardíaca ajudou muito a evoluir nos treinos quando era jovem.
Depois vieram os medidores de potência, os travões de disco, as bicicletas em carbono, mas sinceramente, o que mais me ajudou foi sempre poder contar com a Specialized, que me ouviu e garantiu andar nas melhores bicicletas possíveis. Isso foi uma grande vantagem durante toda a carreira.
A minha conversa “formal” com Peter Sagan demorou vinte minutos, falámos de outras coisas enquanto pedalávamos e o convite para vir a Portugal ficou feito (como podem ver no vídeo do teste à Diverge 4).

A sua personalidade extrovertida e simples, sem pensar no que os outros diriam, aliada ao talento e ao carisma, tornaram-no numa das figuras do desporto mais conhecidas do planeta. Peter Sagan teve visão e soube aproveitar isso, sobretudo depois de terminar o ciclismo profissional.
Hoje tem umas merecidas “férias permanentes” como o próprio diz, mas na verdade sabemos essas “férias” deram muito trabalho para conseguir.

Obrigado Peter, espero ver-te por Portugal um dia.
Vídeo na Eslovénia, testando a Specialized Diverge 4 com Peter Sagan e Daniel Oss
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