Tadej Pogacar fala sobre a queda na Vuelta, a recuperação e a segurança no ciclismo: “Estou contente por estar vivo”

Tadej Pogacar fala sobre a queda na Vuelta, a recuperação e a segurança no ciclismo: “Estou contente por estar vivo”
A.S.O./Thomas Maheux

Tadej Pogacar concedeu uma extensa entrevista ao The Athletic, onde abriu o livro sobre a temporada mais marcante da sua carreira

Depois de vencer o Tour de France pela quinta vez, um número que o coloca no panteão do ciclismo, Tadej Pogacar sofreu a queda mais grave da carreira na Vuelta, onde se encaminhava para riscar mais um objetivo da sua lista de conquistas.

O esloveno concedeu uma entrevista ao The Athletic, onde abordou a queda, a recuperação complicada a nível psicológico, o problema da segurança no ciclismo, entre outros temas. Com a habitual descontração, o antigo campeão do mundo abre a porta à mente de um dos melhores de todos os tempo.

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Créditos: Cxcling Creative Agency/David Rojas

A queda na Vuelta e a recuperação mais difícil da carreira

Tadej Pogacar fez uma das melhores épocas de clássicas de sempre ainda antes da vitória no Tour de France que deu direito ao recorde de cinco conquistas. Vitória na Strade Bianche, Milano-Sanremo e Volta a Flanders, e segundo lugar na Paris-Roubaix. Seguiram-se os triunfos na Suíça, antes de igualar Merckx, Anquetil, Hinault e Induráin em França.

Depois do Tour perspetivava-se uma temporada histórica: Pogacar era suposto riscar a Vuelta da sua lista, antes de tentar o terceiro triunfo seguindo nos Mundiais, e de correr o Europeu em casa. A terminar, tinha hipótese de vencer a Lombardia pela sexta vez, o que significaria 4 em 5 monumentos, e um segundo lugar na restante corrida em 2026.

A.S.O./Charly López

Mas no ciclismo nada é certo, mesmo que na linha de partida um dos atletas seja francamente superior aos restantes. Pogacar caiu ao oitavo dia da Vuelta. Uma etapa de transição, com pouco interesse, que se tornou num dos pontos mais importantes do ano. Acabou a Vuelta para o esloveno, mas começou outra corrida: a da recuperação mais complicada da sua carreira.

“Estes acidentes acontecem sempre muito depressa. Lembro-me de ter perdido o controlo do guiador com a mão direita, por isso estava inclinado para a frente e a cair por cima do guiador. Ainda estava mais ou menos na bicicleta quando vi uma camisola amarela da Visma, acho que era o (Ben) Tulett, e bati nele e depois caímos.

A próxima coisa de que me lembro foi de estar a voar e de bater com muita força no chão. Não me lembro de ter batido com a cabeça, nem da primeira vez que tentei levantar-me, mas lembro-me de não conseguir levantar o braço. Pedi ao médico para o levantar por mim.

Depois, só queria sentar-me no chão, junto à berma. Lembro-me de ter tentado pegar na bicicleta, mas com a mão esquerda não conseguia segurar nada. Não me lembro de grande coisa da ambulância, mas lembro-me de ter ido para um hospital nas proximidades, e isso foi toda uma experiência“.

Tadej Pogacar, em entrevista ao The Athletic

Créditos: Cxcling/Toni Baixauli

No hospital, depois da queda grave, o (à altura) campeão do mundo, viveu episódios quase surreais:

“Trouxeram-me um recipiente para urinar e disseram que eu precisava de urinar porque tinha de esvaziar a bexiga. Eu pensei: ‘Para quê?’ Depois, deixaram-me atrás das cortinas durante cinco minutos e tive de urinar na cama, o que foi uma experiência e tanto. Depois disso, fiquei ali deitado a dar autógrafos aos médicos e enfermeiros e a tirar algumas fotos.

Eu estava um pouco fora de mim, e eles estavam a cortar o meu fato de corrida pelas costas, a retirar pequenos pedaços da camisola e a perguntar-me se eu podia autografar essas partes do fato. Por isso, o meu fato de corrida agora tem muitos buracos, que eu ofereci à equipa“.

Pogacar explicou as diferenças para a queda que teve na Liége, em 2023: na altura foi operado ao pulso de imediato, o que facilitou a recuperação. Desta feita, foram dois dias na cama sem nada para fazer. “Acabamos por sentir pena de nós próprios“, disse, entre explicações sobre o estado frágil em que estava. A crença de que depois da cirurgia a situação ia melhorar durou até o esloveno acordar da cirurgia:

“O médico tentava fazer algumas piadas, mas eu não estava com disposição para isso. Fiquei mesmo deprimido depois da cirurgia. Durante as duas primeiras semanas, não estava nada bem mentalmente. Estava mesmo em baixo. Não era uma pessoa divertida de se ter por perto. Acho que a Urska (Zigart, companheira de Pogačar e também ciclista profissional) não ficava contente por me ver em casa, porque eu estava simplesmente deprimido. Sabes, sem sentir nada“.

O estado mental é difícil de imaginar. Passar de um dos melhores atletas do mundo para ter dificuldade em fazer simples movimentos. Pogacar explica como esse binómio o fez sentir:

“No dia seguinte, disse: “Vamos a pé até um sítio que fica a 10 minutos”, uma das melhores gelatarias. E lembro-me bem de como foi difícil. Fomos à gelataria, lá dentro da loja, e ainda estava bastante calor e eu estava a suar. Lembro-me de me terem dito para não suar muito por causa dos pontos, por isso entrei um pouco em pânico, o que só fez com que começasse a suar ainda mais.

Precisava de me sentar porque estava exausta, estava mesmo a sofrer. Então, terminei o gelado e, no caminho de volta, quase tive de correr para casa porque me sentia muito desconfortável ao ar livre. Tinha de chegar a casa o mais depressa possível“.

Tadej Pogacar, em entrevista ao The Athletic

Créditos: A.S.O./Morgan Bove

O regresso à bicicleta foi remédio santo. De forma gradual, o esloveno foi ganhando motivação. Ainda assim, as marcas da queda ficaram: “Se eu voltar a cair de bicicleta agora, pode ser muito problemático. Toda a gente diz que tive sorte, e temos sempre sorte depois de uma queda de que saímos ilesos e bem. Mas quanto mais falamos com as pessoas, mais descobrimos sobre a gravidade da lesão. Temos a Internet e pesquisamos no Google. Vemos que é bastante grave e que não é para brincar. É um pouco assustador, para ser sincero, pensar nisso“.

Como competidor que é, Tadej Pogacar começou imediatamente a pensar em correr. O objetivo: os Europeus, que em 2026 se corriam na Eslovénia, e que passavam a 10 km da casa dos pais do cinco vezes campeão do Tour.

“Também ajuda na recuperação dos ossos e da concussão. Se não tivesse nenhum objetivo, talvez na minha cabeça pudesse tirar dois meses de férias e simplesmente não fazer nada, sair para tomar uns copos, para jantares agradáveis, e chegar em novembro e perceber: “Oh, porcaria, talvez tenha sido uma pré-temporada demasiado boa”, e a amplitude de movimentos não seria tão boa como é agora.

Isso estava a dar-me motivação, e depois fizemos outra radiografia ao osso. Não tinha cicatrizado muito em três semanas, e senti que não estavam contentes por me deixarem correr, por isso a motivação baixou um pouco.“

Tadej Pogacar, em entrevista ao The Athletic

A nega da equipa pode ter sido um presente disfarçado. O esloveno conta, ao seu jeito, uma história que chamou “engraçada“:

“Há duas semanas, estava na Eslovénia e fui fazer mais uma tomografia computadorizada. Sabia que tinha uma fratura na vértebra C7, mas depois descobrimos que tinha mais duas vértebras fraturadas, a T1 e a T2.

Naquele momento, fiquei contente por não ter participado no Campeonato da Europa, que tinha sido o meu objetivo inicial. Quando vi que tinha três vértebras partidas? Na verdade, estou simplesmente feliz por estar vivo, ou apenas por conseguir manter-me de pé.”

Agora, no início de novembro, já não sente “desconforto“, apesar dos “cuidados para não cair“, e de não poder “levantar pesos com o braço esquerdo ou com o pescoço“. Retomou os treinos na Eslovénia, mas a queda continua a deixar marcar a nível psicológico: “Reparei que estava a ir um pouco mais devagar nas curvas, tendo mais cuidado nas zonas perigosas“.

Na ausência de Pogacar, foi Remco Evenpoel a vencer os Europeus, depois do final ao photo finish com Ciccone. Foto: UEC | Sprint Cycling Agency

A segurança no ciclismo profissional

A queda de Tadej Pogacar na Vuelta veio reacender um debate que, na verdade, foi contínuo no ciclismo, e que este ano conheceu novos, e terríveis, capítulos, com um dos destaques a ser a morte de Finlay Tarling na Volta a Portugal.

O esloveno falou do problema da segurança no ciclismo, e começou por mencionar casos próximos, desde as suas fraturas, às da namorada e ciclista profissional, Urska Zigart, sem esquecer Eddie Dunbar, Michael Matthews e Tim Wellens, nomes próximos de Pogacar que tiveram problemas com quedas esta temporada.

“Mas acho que é normal no ciclismo. Este ano, depois da minha queda, vi um vídeo do Marc Márquez, o piloto de Moto GP, sobre quantas vezes ele caiu na carreira e quantos problemas teve. E pensei: “OK, o nosso desporto não é assim tão mau”, mas, ao mesmo tempo, quando olhamos para outros desportos, é bastante mau.

Este ano voltou a ser um ano mesmo, mesmo mau. Estes acidentes estão a tornar-se cada vez mais comuns. Vi algumas estatísticas que indicam que afetam sobretudo os ciclistas sub-23, e não acho que seja uma coincidência, porque a organização das corridas está a um nível ainda mais baixo do que o do WorldTour“.

Tadej Pogacar, em entrevista ao The Athletic

A morte de Finlay Tarling na Volta a Portugal foi uma das maiores tragédias do ano. Foto: Igor Martins – Volta a Portugal

A explicação? Para o esloveno, começa pela falta de pessoas e condições, mas não acaba por aí: “Há menos protocolos de segurança em vigor, menos agentes da polícia, menos pessoas a cuidar da estrada; As velocidades são muito mais elevadas, mas as chegadas são as mesmas. E há mais lombas na estrada do que há 10 anos, que foram concebidas para abrandar o tráfego, não para serem ultrapassadas a alta velocidade.

“Os organizadores podem limpar melhor a estrada, sinalizá-la melhor e tornar as chegadas menos perigosas. Não precisam de ser largas e retas numa estrada de oito faixas como o Tour de Guangxi, mas temos de evitar superfícies em mau estado e curvas nos últimos 500 m, buracos, lombas e rotundas.»

Há muitas coisas a fazer. Mas não se trata, definitivamente, de medir meias e a largura dos guiadores, como faz a UCI. São todos estes pequenos detalhes — e, juntos, isso dá muito trabalho, mas acho que é necessário dedicar mais atenção a isso.“

A vitória de McNulty nos Mundiais

O outro tópico em discussão foi a vitória de Brandon McNulty nos Mundiais do Canadá. Pogacar tinha hipótese de conquistar o arco-íris pela terceira vez consecutiva. Não correu, mas viveu a vitória do colega de equipa de forma intensa:

“A vitória do Brandon fez-me ficar com cabelos brancos. Fiquei tão nervoso nas últimas duas horas e meia da corrida. O Isaac esteve sempre tão forte. Esperava que ele conseguisse arrasar com toda a gente, mas depois ele estava a esforçar-se demasiado e, felizmente, o Brandon partiu para a ofensiva.

Acabou por ser a movimentação vencedora, e eu passei o tempo todo a gritar para a televisão até à linha de chegada, a enviar energia para o Canadá. Espero que tenha chegado até ele, porque fiquei mesmo exausto depois de ver a corrida, e tão feliz e emocionado por ele. Não podia estar mais feliz por a vitória ter ficado na equipa. Mal posso esperar para correr com ele no próximo ano.”

Tadej Pogacar, em entrevista ao The Athletic

Isaac del Toro e Brandon McNulty na Lombardia, depois dos Mundiais. Créditos: LaPresse

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