Gonçalo Costa (Decathlon) e o fantástico mundo novo do ciclismo

A estrutura Decathlon CMA CGM tem 32 anos de existência no ciclismo e até à chegada de Gonçalo Costa nunca tinha tido um português nas suas fileiras.
Houve um tempo, agora longínquo, em que ciclistas de nações periféricas partiam à aventura para França e para Itália, apenas com a bicicleta e a mochila, inscreviam-se em corridas populares na esperança de serem vistos por algum diretor-desportivo ou pelo menos juntarem dinheiro para poderem continuar a alimentar o sonho.
O ciclismo moderno é, em tudo, diferente: miúdos de 16 e 17 anos já estão identificados pelas principais equipas, têm empresário e são capazes de romper barreiras históricas, como ver o campeão português de juniores na maior equipa francesa da atualidade, após ter passado pela neerlandesa WWV Hagens Berman-Jayco e pela Academia Efapel.
Gonçalo Costa é júnior de segundo ano, por isso ainda não deu uma voltinha com Paul Seixas, o campeão com raízes portuguesas, mas está encantado com o projeto, como o TopCycling conferiu no aeroporto de Valência, onde apanhamos o famalicense após estagiar com a Decathlon.
“O trabalho com a equipa tem sido cinco estrelas. Depois de correr pela seleção no Pays de Vaud [Suíça], vou fazer a clássica dos Alpes, que é mesmo ao lado da sede da equipa, em Chambery, e ainda a Region du Sud, também nos Alpes, e que se corre em estradas onde passa o Tour de France. São três dias para trepadores, sem contrarrelógio, que é o que encaixa perfeitamente em mim.”
Esta temporada tem corrido pela seleção provas da Taça das Nações – foi 5.º na Volta a Castellón, 13.º no Troféu Victor Cabedo e 21.º na Corrida da Paz – e provas como Volta a Loulé (3.º) e Abertura (5.º) para não perder o ritmo nem o contacto com os amigos.
Apesar de gostar de correr em Portugal, é no estrangeiro que sente que pode crescer como ciclista.
“Sinto que sou capaz de chegar ao nível deles e que estou a evoluir. Gosto de provas duras com subidas longas, de preferência que acabem em alto. Dou-me bem com todo o tipo de terrenos, mas é complicado andar no plano e com vento. O que menos gosto é de fazer contrarrelógio à chuva, porque desmotiva arrancar logo a levar com chuva.”
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Bloco da Decathlon é uma superequipa
Para 2026, o português quer mostrar à equipa que merece continuar e fazer a progressão para o programa de sub-23, pelo qual passaram Léo Bisiaux, Paul Lapeira e os irmãos Paret-Peintre.
Os primeiros meses serviram para assimilar a nova realidade, o impacto de receber os equipamentos, as bicicletas de competição e de treino, perceber como funciona a equipa e conhecer os objetivos.
Durante o estágio de janeiro, em Chambery, nos Alpes, conta Gonçalo Costa que foi a primeira vez que se apercebeu da dimensão do projeto francês.
“Fazíamos o treino, à noite falávamos sobre o que tínhamos feito mal e bem, o que podíamos melhorar. Estou numa escola daquilo que mais gosto, que é o ciclismo. Fomos correr, demos uma caminhada de 20 quilómetros à chuva com 3000 metros de acumulado. Conhecemos os produtos da terra; provamos o fondue e, apesar de adorar queijo, o fondue era feito com um queijo tipo Serra e eu não sou grande apreciador.”
Com 15 corredores de nove nacionalidades, o bloco da Decathlon é uma superequipa, que tem como cara mais conhecida Seff Van Kerckhove.
O belga foi 3.º no Mundial de contrarrelógio e este ano ganhou a Strade Bianche, o título nacional de crono e a Volta a Castellón; Seff é uma estrela em ascensão tal como o irmão Matisse, que dá cartas na Visma sub-23.
“O Seff é como eu, mas mais experiente, sabe lidar com as corridas porque cresceu em Espanha, tem casa na Bélgica, fala imensos idiomas e vejo-o como alguém com quem posso aprender porque tem um comportamento profissional.”
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Foto: Decathlon CMA CGM
Gonçalo Costa não se sente inferior
Gonçalo Costa não contava internacionalizar-se tão cedo, mas o empresário João Correia abriu-lhe as portas da WWV Hagens Berman-Jayco, o que o levou a deixar para trás os amigos da Academia Efapel.
No último ano de cadetes, em 2024, e no primeiro de juniores, em 2025, foi campeão nacional e esteve acompanhado pelas pessoas certas.
“Agradeço muito tanto ao Tiago Machado como ao José Azevedo. Ainda hoje, quase todas as semanas, vou treinar com o Tiago. Quando estava na Efapel ele rebentava comigo quando íamos à Assunção, ele ia à frente até ficar só eu e quando ficava só eu rebentava comigo também. Ficávamos todos pendurados pela estrada.”
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“Orgulhoso por fazer parte da equipa“
Em um ano e meio de experiências pela Europa, o famalicense admite que o maior salto foi conhecer o andamento dos juniores de outros países com tanta ou maior tradição do que Portugal.
Sem tirar valor aos colegas europeus, Gonçalo Costa não se sente inferior: “Por vezes deixamos de acreditar em nós a achar que eles são do outro mundo, mas são pessoas como nós, que cresceram naquele ambiente. Eles têm que saber lidar com ventos laterais e paralelo, como nós temos que saber lidar com as subidas.”
É curioso que o momento-chave no processo de recrutamento para a Decathlon ocorreu em Portugal, quando foi observado por Guillaume Bonnafond, responsável pelo projeto NewGen (que inclui sub-23 e juniores).
“A minha maior vitória foi nos Nacionais. Nesse dia estava presente o diretor da equipa, falamos antes da prova e eu queria que ele soubesse o meu valor. Passado um tempo mandou-me os testes para fazer e o João [Correia] informou-me que tinha entrado para a equipa. Nem acreditei. Conversei com os meus pais, depois de ir ao estágio e conhecer as dinâmicas da estrutura, e senti-me orgulhoso por fazer parte da equipa.“
Quando tenta descrever esse sentimento em maior detalhe, faltam-lhe as palavras. Afinal, Gonçalo Costa é só um miúdo de 18 anos.

Nasceu para andar de bicicleta
Felizmente, os pais adoram a bicicleta e têm genes competitivos. Tanto o pai, Simão, como a mãe, Olga, fizeram provas de BTT em Masters e o filho ia com eles para todo o lado, dando ao pedal desde os cinco no BTT e desde nove anos na estrada.
Gonçalo Costa nasceu para andar de bicicleta e nunca deu um chuto numa bola porque, como dizem os amigos, tem dois pés esquerdos. A exigência física e psicológica cativaram-no e decidiu apostar tudo na estrada, mesmo que por vezes tenha aprendido da forma mais dura.
“Aprendi que descansar é muito importante. Achava que podia andar aí sempre de roda no ar, mas a maneira de correr e a tática das provas lá fora é completamente diferente de Portugal. Aqui atacam dois ou três, selecionam o grupo que chega ao fim e depois para-se. Lá fora quando se arranca nunca mais para.”
O tempo dirá se Gonçalo Costa vai tornar-se o primeiro ciclista português a passar a profissional na Decathlon. Até lá, podem apanhá-lo a treinar na Senhora da Graça – ir ao santuário e voltar a casa são 160 quilómetros.
A Torre ainda está por subir e do Montejunto não guarda boas recordações, já que na montanha do Oeste perdeu a Volta a Portugal de cadetes para Leonardo Garcia, corredor que na altura representava a Alenquer/GDM/Anipura e que o destino juntou com Gonçalo Costa na WWV Hagens Berman-Jayco.