O que sente Van der Poel na Flandres? “Uma valente dor nas pernas”

O que sente Van der Poel na Flandres? “Uma valente dor nas pernas”

TopCycling foi a Pedreguer, onde a Alpecin-Deceuninck estagiou em janeiro, trocar umas palavras com o bicampeão da Volta à Flandres. Afinal Mathieu van der Poel é humano!

Não deve ser fácil ser Mathieu van der Poel. O neto de Raymond Poulidor e filho de Adrie van der Poel cresceu rodeado de uma pressão que tem vindo a aumentar de ano para ano.

Primeiro para se perceber se tinha herdado as qualidades velocipédicas dos familiares, depois para se consolidar como corredor de referência e suportar a carga de liderar a Alpecin- Deceuninck. Todos os anos a pressão é renovada: irá Mathieu ganhar uma terceira Volta à Flandres, a primeira Roubaix, brilhar novamente na Amstel e repetir a amarela no Tour de France?

Imagem: Topcycling.pt

O TopCycling foi ao encontro do fenómeno durante mais um estágio em Pedreguer, no hotel que o antigo ciclista Alexander Kolobnev abriu em Pedreguer e onde Van der Poel tem treinado após cumprir o intenso calendário natalício do ciclocrosse, que para ele arrancou a 27 de novembro. Em 12 provas ganhou quatro, mas perdeu outras cinco para Wout Van Aert entre o Natal e o Ano Novo.

Já o conheço há alguns anos. Tivemos boas batalhas desde que éramos muito jovens, em juniores. Ele tem sido o meu rival desde há muito tempo e continua a ser até hoje”,

conta ao TopCycling durante o Media Day da equipa sobre a rivalidade com Van Aert.
Imagem: UCI

Mathieu van der Poel atende-nos com profissionalismo após passar por cinco entrevistas para televisões internacionais e uma intensa troca de perguntas e respostas com jornalistas belgas e neerlandeses que durou três quartos de hora.

Em inglês não é tão expansivo como quando se expressa em flamengo, ele que nasceu em Kapellen (Bélgica), mas é herói nos Países Baixos.

Responder às mesmas perguntas corrida após corrida deve ser esgotante, sobretudo quando a maioria andam à volta do recorrente problema nas costas e da rivalidade com Van Aert. É ele a estrela da equipa e por ele meios de comunicação de várias nações foram a Espanha.

Imagem: Topcycling.pt

Fomos fazer séries com Van der Poel, mas no carro

Há pormenores onde se revela até que ponto a Alpecin-Deceuninck procura proteger o seu maior ativo. Na saída para o treino matinal – que consistiu em várias séries na subida de Vale de Ebo (7,6km a 6% de média) – Mathieu van der Poel é o último a chegar, desse modo evita ser perseguido pelas câmaras de repórteres fotográficos e televisivos.

A caravana segue em comitiva para a montanha, a ideia é os jornalistas seguirem o treino, captarem imagens, mas todos querem imagens do mesmo. O diretor do carro que segue Van der Poel diz-nos logo que só podem seguir com ele em três das quatro séries, porque na última ele quer ir concentrado. Nós alinhamos no treino e fomos fazer séries com Van der Poel, mas no carro…

Realmente acabou por fazer cinco subidas, o que mostra que Mathieu van der Poel faz o que quer, o que sente. É ele que pedala e é por ele que a Alpecin-Deceuninck passou de ser um projeto de segunda divisão a estar no WorldTour.

Vídeo

Vídeo: Topcycling.pt

A terceira Flandres ou a primeira Roubaix?

Craque que é craque quer ganhar tudo, mas arriscamos uma pergunta difícil: preferes a terceira Flandres ou a primeira Roubaix? O corredor de 28 anos explica que “não é que Roubaix seja mais importante do que a Flandres este ano. Ficaria muito contente por ganhar outra Flandres. É tão difícil ganhar um Monumento que não importa muito qual ganhas”.

O que sente Mathieu van der Poel no pavé da Flandres e no Inferno do Norte? O fenómeno ri-se:

Sinto uma valente dor nas pernas no final. São provas especiais, tens que conhecer as corridas, tens que as saber ler, o posicionamento é super importante e a tática faz parte do jogo. É isso que as torna super empolgantes.

Imagem: Photo News

Um colega francês pergunta-lhe pelas costas, as famosas costas que tantos problemas lhe têm dado desde que caiu no cross-country olímpico em Tóquio.

Quando vou fácil na estrada sinto-me bem. Hoje fizemos alguns testes de lactato, tive que ir a fundo e não estou a 100 por cento ainda, mas estou melhor pelo tratamento que tenho feito. Na estrada é obviamente melhor do que no ciclocrosse que é mais intenso para as costas e espero poder andar como costumo andar”, descansa os fãs o quatro vezes campeão mundial de ciclocrosse.

Dor de pernas e de costas. Afinal os génios têm um lado frágil, que os humaniza. Na estrada isto ficou bem patente quando ficou vazio no Mundial de Yorkshire e até no sprint que lhe tirou a Flandres de 2021, perante um Kasper Asgreen teoricamente menos explosivo.

A reta da meta em Oudenaarde por vezes tira, por vezes dá; em 2020 o neerlandês bateu no mano a mano Wout Van Aert e em 2022 foi melhor do que Dylan van Baarle, Valentin Madouas e Tadej Pogacar.

Imagem: Photo News

De olhos postos no Mundial de Hoogerheide

Encerrada a época de cross, fará estágio de altitude na Comunidade Valenciana antes da Strade Bianche – que ganhou em 2021. Antes disso corre os Mundiais de Hoogerheide, entre 3-5 de fevereiro.

O trono de campeão está vazio, já que o britânico Thomas Pidcock optou por não defender o título. Embora os confrontos recentes no ciclocrosse pareçam favorecer Wout Van Aert, esta é a corrida da casa para a família Van der Poel.

Hoogerheide é o município onde desde 1988 se disputa o GP Adrie van der Poel – que o filho Mathieu venceu cinco vezes, mas onde viu Van Aert tirar-lhe um Mundial sub-23, em 2014.

Queria muito fazer ciclocrosse outra vez porque no ano anterior, devido à lesão nas costas, só fiz uma corrida e meia. Era algo que queria muito, voltar ao ciclocrosse”, confessa o líder da seleção dos Países Baixos para o Mundial.

Poderá o Mundial de ciclocrosse custar-lhe o êxito na Flandres? Afinal, Mathieu van der Poel ganhou o Mundial de 2020 e uma Flandres atípica em outubro, enquanto no ano passado chegou à Ronde sem ter feito ciclocrosse pela lesão.

Imagem: UCI

Será possível ganhar ambas com o calendário tradicional?

“Claro que sim. As corridas estão tão separadas que é possível ganhar ambas. Tenho a certeza que é possível”, explica o corredor da Alpecin-Deceuninck que em 2021 quase lograva fazer esta particular dobradinha – foi o ano do último título mundial de ciclocrosse de Mathieu van der Poel, mas na Ronde foi Asgreen que fez a festa.

Vemo-nos em Benidorm, Mathieu! O TopCycling vai ter enviados-especiais na penúltima ronda da Taça do Mundo e desfrutar de um grande duelo Van der Poel, Van Aert, Pidcock pré- Mundiais.

Imagem: UCI

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