Nélson Oliveira (Movistar): “O objetivo no Giro de Itália é o pódio”

Em vésperas de iniciar a quarta participação no Giro de Itália, Nélson Oliveira falou ao TopCycling com um discurso ambicioso que visa colocar Enric Mas, líder da Movistar, no pódio em Roma.
Costumo dizer, durante os diretos no Eurosport, que quando Nélson Oliveira se retirar, o ciclismo português vai sentir muito a falta do corredor da Movistar, que se prepara para iniciar o quarto Giro de Itália da carreira.
Nesta modalidade há aspetos intangíveis diretamente ligados à longevidade das carreiras e o atleta de Anadia cumpre-os todos: é um talento físico fora de série, é um bom colega e é leal às equipas que representa.
Na era dos watts, Nélson Oliveira continua competitivo e Enric Mas não abdica de o ter ao lado na estreia que o maiorquino fará no Giro de Itália, como o TopCycling constatou na entrevista ao anadiense, que já se encontra na Bulgária à espera da Grande Partenza.
“Temos o Enric Mas para a geral e o Orluis Aular para as chegadas rápidas, porque passa bem a média montanha. Também vamos tentar ganhar desde a fuga com o Javier Romo e o Einer Rubio quando chegar a montanha. Salvo o contrarrelógio, que não o favorece, é um percurso interessante para o Enric. Teve azares no início da época e pouco correu desde o Tour de France, mas disse-me que treinou bem em altitude e sente-se bem. O objetivo é o pódio.”
Além do português e do maiorquino, a equipa escolheu o sprinter Orluis Aular, Einer Rubio, Javier Romo, Ivan Cortina, Lorenzo Milesi e Juan Pedro López. O bloco será dirigido por Max Sciandri, Matthew White e Juan Carlos Escámez, o antigo fisioterapeuta de confiança de Alejandro Valverde, que após 15 anos na equipa passou a diretor-desportivo.
As ausências de João Almeida (UAE) e de Richard Carapaz (EF), que já subiram ao pódio da prova italiana, devem favorecer o aparecimento de nomes surpreendentes na luta pela geral.
“Há sempre quem quebre e quem surpreenda na terceira semana, basta recordar o exemplo do Simon Yates, na passada edição. O Jonas Vingegaard é o favorito, mas temos que ter em conta o Adam Yates e o Jai Hindley, que dá mais garantias que o Giulio Pellizzari em Grandes Voltas.”
Nélson Oliveira espera que a Visma chame a si a responsabilidade de controlar a corrida e garante que a Movistar chega à sua zona de conforto, as corridas por etapas.
O papel é o de sempre: “Ajudar a equipa no que me propuserem, estar com Enric e nas chegadas em pelotão ou em grupos reduzidos também ajudar o Orluis a colocar-se. Na alta montanha serei dos primeiros a entrar ao serviço porque depois estão o Romo, o Juanpe e o Einer que sobem bem.”
“Sempre que há contrarrelógio aponto a essa etapa”
O próximo Giro é menos montanhoso do que nos últimos anos, a semana final não tem excessiva dureza e há apenas 42 km de contrarrelógio.
Será uma jornada plana entre Viareggio e Marina di Massa, à 10ª etapa, numa estrada junto à praia onde há apenas duas curvas, ao estilo da jornada de abertura do Tirreno-Adriático.
“Preferia que fosse menos plano, mas sempre que há contrarrelógio aponto a essa etapa. Este ano fizemos alguns ajustes na bicicleta e no fato de contrarrelógio, mas mantemos os mesmos parceiros e o grande salto tecnológico foi de 2024 para 2025, quando a Abus desenvolveu um novo modelo de capacete. Melhoramos em eficácia aerodinâmica e ganhamos quase 1 seg/km, mas depende sempre das pernas. Este ano ainda não fui ao túnel de vento, mas o Cian Ujtedebroeks tem ido bastante.”
Em abril, no Gran Camiño, foi 3º no contrarrelógio disputado na Corunha, ganho por Julius Johansen. Foi um esforço de 15 km feito a uma média que rondou os 420 watts, a demonstração de que aos 37 anos não está longe dos seus melhores números.
Isto após ter partido a clavícula em fevereiro, motivo pelo qual falhou o Paris-Nice e a Volta ao País Basco.
TopCycling em Valência | Movistar rejuvenesce em 2026

Foto: Rodrigo Rodrigues
Estreia foi na Vuelta a Espanha de 2011
Pela frente, um desafio importante: chegar a Roma e converter-se no segundo ciclista da história a iniciar e concluir 23 Grandes Voltas, igualando o registo do polaco Sylwester Szmyd.
O número enche este nativo de Anadia de orgulho, mas não está omnipresente nos seus pensamentos.
“Espero chegar a Roma. Não tenho o objetivo de igualar o recorde, mas sim de atingir o final da corrida. Este tema às vezes surge em conversas na equipa, sobretudo através dos mais novos que perguntam ‘quantas Voltas fizeste’ e quando respondo ficam surpreendidos. O próprio Aular, com quem partilho quarto na Bulgária, ainda há pouco me perguntou.”
A estreia foi na Vuelta a Espanha de 2011, que começou em Benidorm e Nélson Oliveira ainda se lembra bem dessa experiência na RadioShack.
“Tinha lá o Tiago Machado, o Sérgio Paulinho e lembro-me que entrei numa fuga e sofri muito. A fuga chegou e ganhou o Daniele Bennati; eu não me alimentei como devia e paguei a inexperiência. Quando ia em sofrimento, com a fuga mesmo à frente, mas sem pernas para reentrar, veio ao pé de mim o José Azevedo e disse ‘vais ser um grande ciclista’ e aquelas palavras naquele momento foram importantes.”
Não se enganou o atual diretor-geral da Efapel, à época diretor-desportivo da RadioShack de Johan Bruyneel, o belga que também teve que por um travão à vontade do novato, que tanto queria ajudar que ia ao carro buscar água vezes sem conta e não fazia uma boa gestão das forças.
Episódios que, hoje em dia, Nélson Oliveira recorda com o sorriso próprio de um veterano que é reconhecido como um dos melhores gregários do mundo.
Entrevista | Cian Uijtdebroeks à procura da terceira vida na Movistar