João Almeida na Vuelta: “Vou tentar estar na frente com os melhores”

Após a queda na Volta à Polónia, João Almeida recuperou a tempo para alinhar na Vuelta a Espanha ao lado do máximo favorito, Tadej Pogacar.
Este sábado, o corredor natural de A dos Francos inicia a quinta participação na Vuelta a Espanha, uma corrida onde já foi vice-campeão, mas também 4.º e 9.º, um registo animador ao qual só o abandono de 2024 tira certo brilho.
Que João Almeida vamos ver nas próximas três semanas é uma incógnita, afinal, o ciclista da UAE Emirates sofreu um aparatoso acidente na Volta à Polónia e só completou quatro das sete etapas.
“Foi uma queda dura, tirou-me a parte mais dura da corrida, só fiz os dias planos, os mais fáceis. Desde a Polónia não treinei grande coisa, não me sinto tão fit nem tão bem.”
Vuelta a Espanha 2026 – Guia com as etapas, os inscritos, datas, horários e transmissões

Foto: Unipublic Cxcling Antonio Baixauli
A mente a tentar sobrepor-se ao corpo
Em vídeos já gravados no Mónaco, de onde parte a Vuelta, partilhados pela equipa dos Emirados Árabes Unidos nas redes sociais, é visível um penso no joelho esquerdo do português.
Em conferência de imprensa prévia à corrida espanhola, o caldense desvalorizou esse pormenor: “Foi uma pancada forte, sofri um edema ósseo, mas o penso é para a ferida não apanhar muito sol, não foi nada grave.”
A sensação geral, após ouvir João Almeida, é de que a confiança não está em alta, como quando fez a antevisão da Volta à Polónia. Mesmo assim, foi possível ouvir o corredor repetir várias vezes uma frase: “Vou dar o meu melhor.”
É uma espécie de mantra que João Almeida repete para si mesmo e para os que com ele quiseram conversar. Talvez seja a mente a tentar sobrepor-se ao corpo, que este ano não tem respondido como era habitual.
No entanto, há um fator que pode ajudar a recuperar a moral do melhor voltista português desta geração: Tadej Pogacar.
O favorito número um a ganhar a Vuelta está do mesmo lado da barricada e João Almeida é mais um soldado ao serviço de Pogi.
“Conto dar o máximo nos primeiros dias para ver como me sinto. Vou dia a dia tentar ajudar o Tadej o máximo que conseguir e os resultados vão ficar pendentes, mas vou dar o meu melhor. Bloqueado pela presença do Tadej não estou, é tudo uma questão de força física. Espero chegar à última semana melhor do que comecei, felizmente temos um grande líder para nos dar grandes resultados. O Tadej é quase uma garantia. As perguntas pra ele não são sobre se vai ganhar, mas como o vai fazer. Obviamente que não é bem assim, é difícil pra todos, mesmo pra ele.”

Caníbal dos tempos modernos
Ter Pogacar como amigo e não como rival dá tranquilidade a toda a equipa e tira pressão ao português.
O esloveno é o Caníbal dos tempos modernos, logo, politicamente correto. Em vez da voracidade que marcou Eddy Merckx, o Caníbal original, Pogacar opta por uma versão à século 21, que inclui distribuir presentes pelos colegas e rebocar Isaac Del Toro até ao pódio do Tour de France.
Poderá suceder o mesmo na Vuelta?
“Só depende das minhas pernas. Ele é um corredor muito simpático e generoso, que gosta de recompensar qualquer colega de equipa pelo trabalho que fazemos por ele, mas temos que ter nós a capacidade para o fazer. No passado viu-se muito poucas vezes um líder fazer pelos colegas o que ele faz por nós.”

Foto: Unipublic/Rafa Gómez/Sprint Cycling Agency
Últimos seis meses têm sido os mais duros da carreira
Todas as Grandes Voltas têm uma história e cada uma tem as suas peculiaridades. Um João Almeida reflexivo deixou no ar a possibilidade de que a história desta apenas seja escrita em Granada, à chegada, o que implica sobreviver ao terreno rompe-pernas do segundo dia, à média montanha do terceiro e, sobretudo, à 4.ª etapa, uma jornada de alta montanha em Andorra.
Os primeiros quatro dias da Vuelta ditarão se vamos ter João Almeida na luta pelo pódio ou se terá que repensar os objetivos.
Como dizia o filósofo Arthur Schopenhauer, o mundo físico é apenas uma ilusão superficial, movido por uma força oculta e irracional, a vontade. É esta irracionalidade que nos faz sonhar e é a vontade que faz João Almeida avançar quando o caminho se torce, afinal, os últimos seis meses têm sido os mais duros da carreira.