À conquista da Torre, desde Lisboa em bicicleta – Pela segurança dos ciclistas na estrada

Aproveitando o facto de o meu amigo Olivier ter conseguido reunir milhares de pessoas num evento na Covilhã (Serra da Estrela), decidi fazer o percurso de Lisboa até ao alto da Torre de bicicleta, no dia anterior ao evento. Serão mais de 300 quilómetros num dia, com a chegada à Torre, para chamar a atenção sobre um problema importante: a segurança dos ciclistas na estrada.
Como ciclista e adepto da modalidade, cada vez que vejo (e muitas vezes publico) uma notícia sobre a morte de um ciclista na estrada sinto um misto de medo, angústia, revolta e impotência, tenho sempre aquele pensamento de que aquela pessoa podia ser eu, podia ser um amigo, um familiar, ou alguém com quem pedalo.
Depois, como comunicador através do TopCycling e como comentador desportivo na vertente do ciclismo, também sinto que tenho a responsabilidade ou o dever de fazer alguma coisa, mesmo que não seja muito, aquilo que está ao meu alcance.
Aproveito assim a ocasião para esta iniciativa porque o ano está cheio de eventos, de festas, mas este problema continua presente.
Se cada um fizer a sua parte
Não existe uma solução milagrosa que acabe com as mortes de ciclistas nas estradas, existem acidentes com bicicletas e com outros veículos, vão continuar a existir, em Portugal e noutros países, mas acredito que em Portugal podemos fazer mais e melhor.
A responsabilidade da mudança não cabe apenas ao Governo, que é quem pode alterar a legislação, cabe a todos. Cabe à Federação, aos ciclistas, aos automobilistas, às marcas, aos clubes, aos organizadores de eventos, aos municípios, aos meios de comunicação e a todas as pessoas e instituições que fazem parte do mundo da bicicleta.
Se cada um fizer o que está ao seu alcance, podemos começar a mudar alguma coisa, só que as ações de uns podem ter mais efeito que as de outros. Falo da alteração da legislação e falo de campanhas de sensibilização para este problema (assim como existem campanhas de sensibilização para outros problemas da sociedade).
Portugal tem legislação que protege os utilizadores da bicicleta, o Código da Estrada estabelece, por exemplo, que um veículo motorizado deve manter pelo menos 1,5 metros de distância lateral de um velocípede, mas isto é muito pouco, basta olhar para o número de pessoas que morrem e ficam gravemente feridas por atropelamento e questionar se esta proteção é suficientemente clara, conhecida, fiscalizada e ambiciosa.

A Federação Portuguesa de Ciclismo já tem desenvolvido algumas ações no sentido de haver evolução neste tema, através de propostas concretas de alteração ao Código da Estrada e ao Regulamento de Sinalização de Trânsito no sentido da defesa da segurança e dos direitos dos ciclistas.
A MUBI (Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta), também tem sido um exemplo nesse sentido e ao longo dos anos e muito recentemente publicou um artigo no qual informa que teve uma audiência com o gabinete do Secretário de Estado da Protecção Civil, onde abordou mais uma vez este tema.
Os anos passam e continua tudo igual, porquê?
Não é necessário ir longe, Espanha é um exemplo que Portugal pode seguir
Não é preciso ir muito longe para encontrar um exemplo melhor que o nosso. Espanha já estava à frente na legislação em relação a este tema, mas aprovou este ano uma nova alteração que reforça a proteção dos ciclistas enquanto utilizadores vulneráveis.
Entre as alterações diretamente relacionadas com os ciclistas estão várias regras que espelham melhor a realidade dos perigos para quem anda de bicicleta, dentro e fora das localidades.
Por exemplo, na ultrapassagem de um ciclista, além da distância lateral mínima de 1,5 metros, o automobilista tem de reduzir a velocidade em pelo menos 20 km/h relativamente ao limite existente na via; e quando exista mais do que uma faixa no mesmo sentido, passa também a ser obrigatório que o veículo ultrapasse o ciclista na outra faixa de rodagem.
É muito diferente, obriga e “educa” o condutor a ultrapassar com distância e a ver o ciclista como um veículo, não como algo que “estorva” a circulação.
Mas há mais, essa atualização da legislação em Espanha prevê que, quando os ciclistas circularem em grupo, serão considerados uma única unidade móvel para determinadas regras de circulação. É uma alteração relevante para quem anda em grupo, seja em treino, seja numa prova ou simplesmente num passeio de bicicleta.

Em zonas urbanas a nova legislação espanhola estabelece também que a bicicleta, enquanto veículo, circule em regra pelo centro da faixa de rodagem, e as autoridades explica que esta alteração pretende reforçar a segurança do ciclista enquanto utilizador vulnerável, tornando-o mais visível.

Em Portugal a legislação indica que o ciclista deve circular pelo lado direito da via, parece fazer sentido mas na verdade junto á berma significa ficar menos visível, estar mais perto de buracos, sarjetas e outros obstáculos, ou estar na zona de abertura das portas dos automóveis estacionados (eu próprio já levei com uma porta por circular mais à direita).
Portugal também permite que duas bicicletas circulem paralelamente em determinadas circunstâncias, mas a nossa legislação continua ambígua e menos específica relativamente à circulação em grupo e à posição do ciclista na faixa de rodagem.
Não quero dizer que Espanha está a fazer tudo bem neste aspeto, mas parece-me pertinente olhar para o que está a ser feito noutro país europeu, mesmo aqui ao lado, e pensar se não se poderia implementar alguma destas soluções em Portugal?
A oportunidade da Visão Zero 2030
Portugal aprovou em junho de 2026 a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária – Visão Zero 2030, que tem como objetivo reduzir em 50% o número de mortos e feridos graves até 2030 e alcançar zero mortos e zero feridos graves até 2050.
Olhando para o website, a estratégia assenta no conceito de Sistema Seguro e em cinco pilares: utilizadores seguros, infraestruturas seguras, veículos seguros, velocidades seguras e resposta pós-acidente. (O Website até tem uma zona de “contributos“, sintam-se à vontade para deixar o vosso, de uma forma pertinente, realista e construtiva).
A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) descreve que “o website Visão Zero 2030 tem como principais objetivos divulgar a elaboração da nova Estratégia de Segurança Rodoviária, envolver todas as entidades públicas e privadas, bem como a sociedade civil e, ainda, partilhar o enquadramento e os documentos que constituem a nova estratégia e respetivos planos de ação.”
Portanto, entre utilizadores da bicicleta, empresas e entidades do mundo da bicicleta, parece que temos uma porta aberta para alertar e sugerir medidas realistas, medidas que realmente protejam o utilizador vulnerável da via que é o ciclista.
Se o país quer uma Visão Zero, os ciclistas têm de estar incluídos nessa discussão.

O que podemos mudar?
Primeiro, enquanto ciclistas devemos dar o exemplo, “vestir” a responsabilidade da mudança, respeitando as regras de trânsito, semáforos e prioridades, não circular em passeios de forma indevida, sinalizar as manobras e utilizar capacete.
Quando estás em cima da tua bicicleta, representas toda a comunidade, antes de infringir lembra-te disso.

Depois, as entidades centrais no mundo do ciclismo devem insistir no dialogo com o governo, no sentido de elucidar acerca da realidade dos ciclistas na estrada, procurando uma legislação mais clara, mais ambiciosa e realista, acompanhada de campanhas de sensibilização pode ajudar a reduzir o risco.
Segundo dados da ANSR (no enquadramento da campanha nacional dedicada aos utilizadores vulneráveis em 2026), entre Entre 2022 e 2024, verificaram-se 94 mortos e 500 feridos graves em utilizadores de bicicleta, e a mesma campanha identificou uma concentração significativa de acidentes graves com ciclistas dentro das localidades e em estradas secundárias.
Vendo estes números num texto parecem apenas estatísticas, mas são pessoas, são aquele amigo, aquele pai, aquele filho que descrevi no início do texto.
Se este texto e a minha pedalada de Lisboa até à Torre ajudar a colocar o assunto em cima da mesa ou na ordem do dia, já é uma vitória.
Como seguir a progressão Lisboa – Alto da Torre
Sexta-feira, dia 18 de Setembro começo a minha jornada bem cedo e vou partilhar um link no meu Instagram pessoal através do qual todos podem seguir a progressão até ao alto da Torre e no dia seguinte a subida com o Olivier Bonamici e restantes participantes no evento.