Ayuso e Del Toro trazem o sal e a pimenta ao Giro de Itália

Ayuso e Del Toro trazem o sal e a pimenta ao Giro de Itália
Foto: Massimo Paolone/Lapresse

Giro de Itália revolucionado e com perspetiva de duelo entre Ayuso e Isaac Del Toro. Tudo pela etapa do sterrato. Têm estes dias lugar nas grandes Voltas?

Esta segunda-feira o pelotão do Giro de Itália amanheceu com dores no corpo após a batalha de Siena, onde Isaac Del Toro mostrou a Juan Ayuso que não é o único jovem prodígio da UAE Emirates.

A passagem no sterrato da Strade Bianche fez diferenças entre os candidatos à geral e muitos fãs questionam se este tipo de etapas devem fazer parte de uma grande volta.

O ciclismo, como desporto de resistência que é, é um permanente teste aos limites do corpo humano. Recentemente, li na imprensa espanhola que a ultrafondista María José Silvestre propôs-se pedalar 24 horas com a bike de gravel e estabelecer um recorde mundial.

Arranca às 11 horas de sábado (24 de maio) na lindíssima localidade de Bocairent, no interior da província de Alicante. Passei uns dias maravilhosos, no verão passado, em Bocairent, pueblo cujo centro histórico foi escavado nas encostas da serra de Mariola.

Sítio lindo e com umas festas populares super divertidas, pensei para mim: “Porque é que alguém vai a Bocairente fazer 24 horas de gravel e percorrer 500 km a 21 km/h de média?”

É preciso ter uma inquietude e um espírito de sacrifício incríveis para testar os limites da fisiologia, mas sem os pioneiros nunca se teria quebrado o recorde da hora ou subido o Tourmalet.

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María José Silvestre aspira ao recorde mundial de 24 horas numa bike de gravel.

Ciclismo vintage veio para ficar

Ser pioneiro é pensar em algo que nunca foi feito e fazê-lo. Como Henri Desgranges, que fundou o Tour de France, em 1903, criando uma prova tão dura que só um corredor deveria chegar ao final.

Estava proibida assistência por terceiros e material só o que cada ciclista pudesse carregar. Recordemos que Desgranges vivia obcecado pela forma física e pela performance, aliás, foi recordista da hora em 1893.

A primeira metade do século 20 foi a era da bicicleta na Europa, de tal forma que em capitais como Amsterdão o trânsito de bicicletas representava 70-80 % do total. A reconstrução das vias de comunicação no pós-II Guerra Mundial e a aposta pelo automóvel, símbolo do modernismo, mudaram o paradigma.

É, por isso, curioso que nesta fase da história da Humanidade, na qual dispomos de melhores estradas do que nunca, os organizadores de Giro, Tour e Vuelta nos queiram levar por gravilha, empedrado e subidas tão inclinadas que só as cabras lá passavam.

Os puristas podem não gostar, mas o público pede espetáculo e responde com belas audiências nas etapas com o selo “retro”. E como o público é soberano, este ciclismo vintage veio para ficar.

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Van Aert bateu Del Toro em Siena.
Foto: Marco Alpozzi/Lapresse

Giro regressou ao passado para conectar com os fãs

O ciclismo passou de fugir de caminhos não asfaltados a proporcionar etapas épicas como a que vivemos na Toscana. Foi extraordinário ver Del Toro tornar-se o primeiro mexicano a liderar uma grande volta.

Para Ayuso foi um dia agridoce: por um lado caiu e foi suturado no joelho direito, viu o colega ganhar a etapa, chegar à maglia rosa e cedeu uns segundos para Richard Carapaz, Antonio Tiberi e Simon Yates; por outro lado ganhou 1:13 a Roglic.

“Se me tivessem dito que nesta altura ia ter mais de 1’ sobre o Roglic… É uma situação perfeita para mim e para a equipa. (…) O mais importante é que a equipa ganhe, obviamente eu quero ganhar, é um sonho, mas se tiver que perder que seja porque ganha um colega.”

Juan Ayuso na conferência de imprensa da UAE.

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Foto: Marco Alpozzi/Lapresse

Torito mexicano é discreto

De momento, a UAE Emirates tem quatro atletas no top 10, já que no domingo nem Adam Yates nem Brandon McNulty levantaram o pé.

O Torito mexicano é discreto, fala pouco e no dia de descanso não disse que era líder, mas também não assumiu o papel de gregário.

“É uma situação de corrida. Queríamos estar seguros, o dia não foi mau para a equipa, vamos continuar a dar o melhor e não muda nada, o objetivo é o mesmo. Manter a rosa na equipa.”

Isaac Del Toro na conferência de imprensa da UAE.

Por agora sorri Joxean Matxin, que compareceu com os homens do momento no encontro com os jornalistas e enfatizou que o importante é o título ficar na equipa. Também disse que quem leva a rosa deve ser respeitado e que a hierarquia se mantém a definida à partida para a corrida.

Depois de oito etapas sem sal nem pimenta, o Giro regressou ao passado para conectar com os fãs e desbloquear a corrida. A geral já mexe, há história na UAE Emirates e era mesmo isto que faltava à corrida.

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