À conquista da Torre, desde Lisboa em bicicleta – Pela segurança dos ciclistas na estrada

À conquista da Torre, desde Lisboa em bicicleta – Pela  segurança dos ciclistas na estrada
Foto: Eduardo Campos - Cabreira Solutions

Aproveitando o facto de o meu amigo Olivier ter conseguido reunir milhares de pessoas num evento na Covilhã (Serra da Estrela), decidi fazer o percurso de Lisboa até ao alto da Torre de bicicleta, no dia anterior ao evento. Serão mais de 300 quilómetros num dia, com a chegada à Torre, para chamar a atenção sobre um problema importante: a segurança dos ciclistas na estrada.

Como ciclista e adepto da modalidade, cada vez que vejo (e muitas vezes publico) uma notícia sobre a morte de um ciclista na estrada sinto um misto de medo, angústia, revolta e impotência, tenho sempre aquele pensamento de que aquela pessoa podia ser eu, podia ser um amigo, um familiar, ou alguém com quem pedalo.

Depois, como comunicador através do TopCycling e como comentador desportivo na vertente do ciclismo, também sinto que tenho a responsabilidade ou o dever de fazer alguma coisa, mesmo que não seja muito, aquilo que está ao meu alcance.

Aproveito assim a ocasião para esta iniciativa porque o ano está cheio de eventos, de festas, mas este problema continua presente.

Se cada um fizer a sua parte

Não existe uma solução milagrosa que acabe com as mortes de ciclistas nas estradas, existem acidentes com bicicletas e com outros veículos, vão continuar a existir, em Portugal e noutros países, mas acredito que em Portugal podemos fazer mais e melhor.

A responsabilidade da mudança não cabe apenas ao Governo, que é quem pode alterar a legislação, cabe a todos. Cabe à Federação, aos ciclistas, aos automobilistas, às marcas, aos clubes, aos organizadores de eventos, aos municípios, aos meios de comunicação e a todas as pessoas e instituições que fazem parte do mundo da bicicleta.

Se cada um fizer o que está ao seu alcance, podemos começar a mudar alguma coisa, só que as ações de uns podem ter mais efeito que as de outros. Falo da alteração da legislação e falo de campanhas de sensibilização para este problema (assim como existem campanhas de sensibilização para outros problemas da sociedade).

Portugal tem legislação que protege os utilizadores da bicicleta, o Código da Estrada estabelece, por exemplo, que um veículo motorizado deve manter pelo menos 1,5 metros de distância lateral de um velocípede, mas isto é muito pouco, basta olhar para o número de pessoas que morrem e ficam gravemente feridas por atropelamento e questionar se esta proteção é suficientemente clara, conhecida, fiscalizada e ambiciosa.

A Federação Portuguesa de Ciclismo já tem desenvolvido algumas ações no sentido de haver evolução neste tema, através de propostas concretas de alteração ao Código da Estrada e ao Regulamento de Sinalização de Trânsito no sentido da defesa da segurança e dos direitos dos ciclistas.

A MUBI (Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta), também tem sido um exemplo nesse sentido e ao longo dos anos e muito recentemente publicou um artigo no qual informa que teve uma audiência com o gabinete do Secretário de Estado da Protecção Civil, onde abordou mais uma vez este tema.

Os anos passam e continua tudo igual, porquê?

Não é necessário ir longe, Espanha é um exemplo que Portugal pode seguir

Não é preciso ir muito longe para encontrar um exemplo melhor que o nosso. Espanha já estava à frente na legislação em relação a este tema, mas aprovou este ano uma nova alteração que reforça a proteção dos ciclistas enquanto utilizadores vulneráveis.

Entre as alterações diretamente relacionadas com os ciclistas estão várias regras que espelham melhor a realidade dos perigos para quem anda de bicicleta, dentro e fora das localidades.

Por exemplo, na ultrapassagem de um ciclista, além da distância lateral mínima de 1,5 metros, o automobilista tem de reduzir a velocidade em pelo menos 20 km/h relativamente ao limite existente na via; e quando exista mais do que uma faixa no mesmo sentido, passa também a ser obrigatório que o veículo ultrapasse o ciclista na outra faixa de rodagem.

É muito diferente, obriga e “educa” o condutor a ultrapassar com distância e a ver o ciclista como um veículo, não como algo que “estorva” a circulação.

Vídeo do Boletim Oficial do Estado de Espanha, explicando as novas regras. (Bicicletas ao minuto 3:08).

Mas há mais, essa atualização da legislação em Espanha prevê que, quando os ciclistas circularem em grupo, serão considerados uma única unidade móvel para determinadas regras de circulação. É uma alteração relevante para quem anda em grupo, seja em treino, seja numa prova ou simplesmente num passeio de bicicleta.

Print canal youtube de uma escola de condução espanhola (Servando autoescuela).

Em zonas urbanas a nova legislação espanhola estabelece também que a bicicleta, enquanto veículo, circule em regra pelo centro da faixa de rodagem, e as autoridades explica que esta alteração pretende reforçar a segurança do ciclista enquanto utilizador vulnerável, tornando-o mais visível.

Print canal youtube de uma escola de condução espanhola (Servando autoescuela).

Em Portugal a legislação indica que o ciclista deve circular pelo lado direito da via, parece fazer sentido mas na verdade junto á berma significa ficar menos visível, estar mais perto de buracos, sarjetas e outros obstáculos, ou estar na zona de abertura das portas dos automóveis estacionados (eu próprio já levei com uma porta por circular mais à direita).

Portugal também permite que duas bicicletas circulem paralelamente em determinadas circunstâncias, mas a nossa legislação continua ambígua e menos específica relativamente à circulação em grupo e à posição do ciclista na faixa de rodagem.

Não quero dizer que Espanha está a fazer tudo bem neste aspeto, mas parece-me pertinente olhar para o que está a ser feito noutro país europeu, mesmo aqui ao lado, e pensar se não se poderia implementar alguma destas soluções em Portugal?

A oportunidade da Visão Zero 2030

Portugal aprovou em junho de 2026 a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária – Visão Zero 2030, que tem como objetivo reduzir em 50% o número de mortos e feridos graves até 2030 e alcançar zero mortos e zero feridos graves até 2050.

Olhando para o website, a estratégia assenta no conceito de Sistema Seguro e em cinco pilares: utilizadores seguros, infraestruturas seguras, veículos seguros, velocidades seguras e resposta pós-acidente. (O Website até tem uma zona de “contributos“, sintam-se à vontade para deixar o vosso, de uma forma pertinente, realista e construtiva).

A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) descreve que “o website Visão Zero 2030 tem como principais objetivos divulgar a elaboração da nova Estratégia de Segurança Rodoviária, envolver todas as entidades públicas e privadas, bem como a sociedade civil e, ainda, partilhar o enquadramento e os documentos que constituem a nova estratégia e respetivos planos de ação.”

Portanto, entre utilizadores da bicicleta, empresas e entidades do mundo da bicicleta, parece que temos uma porta aberta para alertar e sugerir medidas realistas, medidas que realmente protejam o utilizador vulnerável da via que é o ciclista.

Se o país quer uma Visão Zero, os ciclistas têm de estar incluídos nessa discussão.

O que podemos mudar?

Primeiro, enquanto ciclistas devemos dar o exemplo, “vestir” a responsabilidade da mudança, respeitando as regras de trânsito, semáforos e prioridades, não circular em passeios de forma indevida, sinalizar as manobras e utilizar capacete.

Quando estás em cima da tua bicicleta, representas toda a comunidade, antes de infringir lembra-te disso.

Depois, as entidades centrais no mundo do ciclismo devem insistir no dialogo com o governo, no sentido de elucidar acerca da realidade dos ciclistas na estrada, procurando uma legislação mais clara, mais ambiciosa e realista, acompanhada de campanhas de sensibilização pode ajudar a reduzir o risco.

Segundo dados da ANSR (no enquadramento da campanha nacional dedicada aos utilizadores vulneráveis em 2026), entre Entre 2022 e 2024, verificaram-se 94 mortos e 500 feridos graves em utilizadores de bicicleta, e a mesma campanha identificou uma concentração significativa de acidentes graves com ciclistas dentro das localidades e em estradas secundárias.

Vendo estes números num texto parecem apenas estatísticas, mas são pessoas, são aquele amigo, aquele pai, aquele filho que descrevi no início do texto.

Se este texto e a minha pedalada de Lisboa até à Torre ajudar a colocar o assunto em cima da mesa ou na ordem do dia, já é uma vitória.

Como seguir a progressão Lisboa – Alto da Torre

Sexta-feira, dia 18 de Setembro começo a minha jornada bem cedo e vou partilhar um link no meu Instagram pessoal através do qual todos podem seguir a progressão até ao alto da Torre e no dia seguinte a subida com o Olivier Bonamici e restantes participantes no evento.

Noticias relacionadas

Tadej Pogacar fala sobre a queda na Vuelta, a recuperação e a segurança no ciclismo: “Estou contente por estar vivo”

Tadej Pogacar fala sobre a queda na Vuelta, a recuperação e a segurança no ciclismo: “Estou contente por estar vivo”

Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua fora do ciclismo em 2027

Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua fora do ciclismo em 2027

A Factor regressa ao WorldTour em 2027 com a Bahrain Victorious, a equipa de Afonso Eulálio

A Factor regressa ao WorldTour em 2027 com a Bahrain Victorious, a equipa de Afonso Eulálio

Pedersen lidera processo por uso indevido de direitos de imagem

Pedersen lidera processo por uso indevido de direitos de imagem

Utilizamos cookies para garantir a funcionalidade e melhor experiência de navegação no nosso site. Saber mais