Quem é Enric Mas, o líder da Vuelta a Espanha 2026?

Quem é Enric Mas, o líder da Vuelta a Espanha 2026?
Foto: A.S.O-Cxcling-Toni Baixauli

A Vuelta a Espanha 2026 entra na fase decisiva e, contra os prognósticos, o espanhol Enric Mas está perto da vitória final.

Caso se confirme, será a maior da carreira do atleta da Movistar e a primeira Grande Volta da equipa desde 2019, quando Richard Carapaz venceu o Giro de Itália.

Quem é Enric Mas e como tem sido a relação com os aficionados espanhóis ao longo dos anos? Para responder a essas questões recorro a dados, mas também às experiências que vivi em várias visitas à ilha de Maiorca.

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Quando Pogacar abandonou na 8.ª etapa, Mas mostrou ser a alternativa credível.
Foto: A.S.O-Cxcling-Toni Baixauli

Maiorca é só pedra

Enric Mas é natural de Artà, no Nordeste da ilha, um sítio que não está imune à invasão de estrangeiros que povoam a maior ilha do arquipélago das Baleares, mas que conserva certa autenticidade.

De um lado tem paradisíacas “calas” do Mediterrâneo e do outro tem a serra que dá nome à localidade. As casinhas e as ruas são feitas de pedra, como podemos encontrar em alguns dos sítios mais encantadores de Maiorca.

Um residente disse-me: “Maiorca é só pedra.” Na altura não entendi que, além de ser matéria-prima, a pedra também molda a personalidade dos maiorquinos; através do seu idioma autóctone reivindicam as suas tradições e marcam distâncias face aos forasteiros.

Quem os pode criticar? Afinal, vivemos na era da massificação turística, da perda de identidade e da gentrificação.

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Mas venceu no Alto de Aitana, em Alicante.
Foto: A.S.O-Cxcling-Toni Baixauli

Devia ser o número um da nação nas Grandes Voltas

Voltamos a Enric Mas, um corredor com quatro pódios na Vuelta a España que não conquistou a simpatia da maioria dos adeptos do ciclismo até à presente Vuelta, sobretudo quando desafiou Tadej Pogacar. Pela lógica, o maior voltista espanhol, desde Alberto Contador, Alejandro Valverde e Joaquim Rodríguez, devia ser o número um da nação nas Grandes Voltas, mas não é assim.

Não foi só o carácter reservado que provocou certo afastamento entre Mas e os aficionados. A forma conservadora de correr, o facto de não ter ganho qualquer etapa ou feito pódio no Tour de France – conta três abandonos, um 5.º e um 6.º lugar – não lhe permitiram colocar-se ao nível dos seus predecessores, tanto a nível nacional como a nível da Movistar.

É preciso recordar que esta estrutura teve campeões de Grandes Voltas como Miguel Indurain, Pedro Delgado, Oscar Pereiro, Alejandro Valverde, Nairo Quintana e o já citado Carapaz.

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Pereiro e Mas, passado e presente da estrutura Abarca Sports, de Eusebio Unzué.
Foto: A.S.O-Cxcling-Miguel Ena

O clima e o ciclismo estão mais extremos

Um outro fator tem marcado a Vuelta: o calor. Segundo a Agência Espanhola de Metereologia, em 2026, a Espanha sofreu 61 dias de onda de calor, dados inéditos desde 1975.

Em vez de representarem um problema, as altas temperaturas tornaram-se a via de escape para Enric Mas, tanto na estrada, pelo à vontade que tem em correr debaixo de calor intenso, como nas entrevistas, onde com um toque de humor pediu aos adeptos que liguem os aquecedores na berma da estrada.

Aqueles com quem falei na rua acham que a Vuelta está feita e confiam em Enric Mas, o que é curioso porque este ano o melhor que fez numa prova por etapas foi um 5.º lugar, na Volta a Burgos. Por outro lado, negar que o atleta da Movistar tem sido o mais forte nas montanhas da Vuelta é tão inútil como negar a existência das alterações climáticas.

O clima e o ciclismo estão mais extremos. Tadej Pogacar, Jonas Vingegaard, Remco Evenepoel e Primoz Roglic são nomes de atletas, mas podiam ser nomes de tempestades, pela forma como arrasaram as Voltas do WorldTour nos últimos anos.

Numa fase da carreira em que o comboio das Grandes Voltas parecia já ter passado, só algo extraordinário poderá impedir Enric Mas de conquistar o título.

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Mas vive o seu auge de popularidade junto dos aficionados.
Foto: A.S.O-Cxcling-Angel Camarena

Momentos-chave da carreira de Enric Mas

  • Formou-se na Fundação Contador entre 2013 e 2015
  • Foi recrutado pela Klein Constantia, equipa-satélite da Quick-Step, na qual passou a profissional em 2017
  • Em 2018 estreou-se a ganhar na Vuelta, em La Gallina (Andorra), e foi 2.º na geral atrás de Simon Yates.
  • Em 2025 abandonou o Tour por uma tromboflebite e só voltou em janeiro de 2026
  • Até vencer no Alto de Aitana, foram três anos, dez meses e 29 dias sem vitórias – a última tinha sido o Giro dell’Emilia de 2022
Foto: A.S.O-Cxcling-Miguel Ena

O que representa Enric Mas para Maiorca?

Só há dois precedentes de maiorquinos na liderança da Vuelta: Antonio Karmany, cinco dias em 1959, e Gabriel Mas, um dia em 1960. Karmany foi três vezes rei dos trepadores e chegou a ser 4.º ao serviço da Kas; já Mas – que não tem relação de parentesco com Enric – foi gregário de Federico Bahamontes na Faema e ganhou uma etapa em 1959.

Desde então passaram 66 anos até que Enric Mas recolocou as Baleares no comando da corrida. Mesmo que saia de Granada campeão, ainda está longe de figurar entre as lendas do desporto do arquipélago.

Rafael Nadal é dono e senhor do número um entre os desportistas maiorquinos e na Academia que tem, em Manacor, há um museu onde se podem apreciar os 14 troféus de Roland Garros que venceu.

No ciclismo, há dois nomes que se destacam, ambos na pista. Joan Llaneras foi bicampeão olímpico (em Sidnei e em Pequim) e totalizou 12 medalhas em Mundiais; já Guillermo Timoner foi o primeiro espanhol a conquistar um Mundial de ciclismo, feito que repetiu em até seis ocasiões, entre1955 e 1965.

O que representa Enric Mas para Maiorca? Por agora, representa o sonho de finalmente alguém reclamar para a ilha o troféu da maior prova do ciclismo espanhol e, quem sabe, isso permita reaproximar a Vuelta das Baleares, onde os aficionados locais não veem passar a prova desde 1998.

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