Opinião: João Almeida, a UAE Emirates e o “Fado” de ser português

Opinião: João Almeida, a UAE Emirates e o “Fado” de ser português

Hoje na minha pedalada matinal só pensava na etapa nove da Vuelta, no João Almeida, na equipa UAE Team Emirates e em toda a quantidade de comentários que houve pelas redes sociais após a etapa.

Gosto de ciclismo por muitas razões e algumas delas têm a ver com o facto deste desporto nos mostrar coisas que vão além do desporto propriamente dito. O que tenho visto na Vuelta a Espanha parece um resumo do que vejo durante a carreira de tantos atletas portugueses (não só do João Almeida, mas é dele que vou falar).

Foto: Buchli Fotografie / Sam Buchli

Não gosto do discurso do “coitadinho do português” mas a verdade é que olho para João Almeida, um dos melhores ciclistas do mundo da atualidade, numa das equipas mais poderosas do pelotão, e raramente vejo a sua liderança ser realmente respeitada e protegida em corrida. (Raramente não é nunca).

Durante a minha pedalada pensava no caminho que João Almeida tem trilhado até chegar aqui e lembrava-me do filme “Perfume de Mulher“, mais concretamente do discurso final do coronel Frank Slade, interpretado por Al Pacino. (Para os mais jovens e outros que não conhecem este filme de 1992, aconselho vivamente, é um filme marcante).

No filme “Perfume de mulher” Charlie Simms era um jovem estudante humilde, vindo de uma família sem muitas posses, que conseguiu por mérito próprio uma bolsa para estudar numa prestigiada escola. Para ganhar algum dinheiro extra, num fim de semana aceitou o trabalho de “cuidar” do tal coronel reformado Frank Slade (Al Pacino), que era cego.

Durante o desenrolar de vários acontecimentos ambos ficam amigos, principalmente porque o coronel Frank Slade vê naquele jovem valores importantes na sociedade e nas pessoas, valores pelos quais Charlie acaba por ser prejudicado e ver o seu lugar na escola em perigo, podendo ser expulso.

Nesse discurso em defesa do jovem Charlie, o coronel Slade fala sobre valores – os verdadeiros valores que devem ser passados aos jovens: como lealdade, coragem, honra, sentido de comunidade, entre outros.

Eu hoje pensava que se pudesse, metia o coronel Slade dentro do autocarro da UAE Team Emirates, a falar diretamente para os diretores desportivos da equipa, pois o que se tem visto nesta primeira semana da Vuelta não é digno de uma equipa que quer vencer a classificação geral final.

(Vejam o vídeo e pensem se não vos dá vontade de o fazer).

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Corrijam-me se estiver errado, mas eu vejo alguns ciclistas da UAE a correr individualmente, a pensar só neles mesmos e a gastar energia em momentos que nada acrescentam ao objetivo maior, que seria vencer a Vuelta.

No meio disto, o líder teórico da equipa (mas também o ciclista mais capaz e melhor colocado na classificação geral), João Almeida, vê-se sozinho muito cedo durante as etapas, numa batalha desigual contra a poderosa Visma Lease a Bike (que a par da UAE, é uma das mais poderosas equipas do mundo).

Jonas Vingegaard é um ciclista extraordinário, a sua equipa também, e para os vencer tudo tem que ser perfeito, um João Almeida perfeito e uma UAE perfeita como equipa.

Créditos: A.S.O.

João Almeida tem aquela forma de ser, mais reservada, mas sempre se tem pautado por um homem que mostra aqueles valores que referi anteriormente. Quando noutras corridas lhe é pedido que trabalhe para os seus colegas, ele cumpre.

Créditos: Sam Buchli

Cumpre o que lhe pedem porque é profissional, porque sabe estar no ciclismo, mas também cumpre como funcionário exemplar que é na “empresa” UAE Team Emirates.

Isto não se espera só de um profissional mas de um colega de equipa, seja ela qual for, no entanto, quando chega a hora de lhe darem o mesmo respeito, parece que não existe esse retorno e eu penso: será pelos diretores, será pelos proprietários da equipa ou será pelos colegas de equipa?

Hoje pensava nisto tudo e lembrei-me daquele filme porque João Almeida me faz lembrar o jovem Charlie Simms. Neste caso fica-me a impressão de que é por ser português. Tem talento, vem de um país apaixonado pelo ciclismo mas com menos peso económico e político dentro do pelotão.

Acho que até os donos da equipa, lá nos Emirados, deviam “puxar as orelhas” aos diretores que parecem esquecer-se daquilo que o João Almeida tem feito como ciclista e de quem é realmente o melhor colocado para ganhar a Vuelta, porque uma equipa e uma marca deve passar valores como a união e a lealdade, não o inverso.

Foto: UAE Emirates/Fizza

Enfim, isto não se vive só no ciclismo, tenho a certeza de que outros atletas e profissionais portugueses com talento e aspirações internacionais se vão rever neste tipo de cenário, digamos que é o “Fado” de ser português.

E se João Almeida fosse “Juan Almeida”? Seria tudo igual?

Créditos da foto de destaque: A.S.O.-Billy-Ceusters

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