O que nos deixou este Tour de France

O que nos deixou este Tour de France

Terminou ontem a 108.ª edição do Tour de France, uma edição que por um lado ofereceu muito espetáculo e teve muito para contar, por outro nem tanto, visto que apesar de ser uma corrida de três semanas esta ficou praticamente sentenciada à 8.ª etapa no que respeita à classificação geral.

Mas daqui por cinco ou dez anos quando nos falarmos do Tour 2021, que iremos ou deveremos recordar da 108.ª edição da corrida de ciclismo mais mediática do planeta? O que foi fora do comum?

Tadej Pogacar

Independentemente do numero total de Tours de France que Tadej Pogacar venha a vencer, o Tour 2020 e também o 2021 ficarão na memória de todos os fãs de ciclismo.

O de 2020 porque o vence praticamente na derradeira etapa, destronando Roglic que havia liderado grande parte da corrida e o de 2021 pelo domínio avassalador que teve sobre os adversários, vencendo a corrida com mais de 5 minutos de vantagem sobre o segundo classificado.

Estas recordações já não dependem de acontecimentos futuros, aconteça o que acontecer, creio que recordaremos sempre estes dois primeiros Tours de Tadej Pogacar, seja porque significam o inicio de uma nova era, ou porque simplesmente os venceu como venceu.

Que rivais o poderão vencer numa grande volta?

Para já nenhum, alguns terão receio de o enfrentar a partir de agora, como se fosse um pugilista que vence todos os adversários por KO no segundo assalto, alguns não aceitam o combate com ele por ter medo de ser humilhados.

Em 2019 Bernal (na altura apelidado de prodígio) venceu o Tour com 1 min. de vantagem para o segundo classificado, em 2019 o sétimo classificado ficou a 5 min’s. Em 2021 o segundo classificado ficou a 5 min’s, o que fez Pogacar foi abismal.

Talvez Primoz Roglic o possa fazer, mas não com esta superioridade. Bernal? É forte mas não parece estar à altura. João Almeida? A sua evolução nos próximos anos é que nos dirá se sim, por enquanto não. Remco Evenepoel? Primeiro tem que mostrar que é ciclista de 3 semanas. Jonas Vingegaard? Tal como Roglic, poderá fazê-lo mas é difícil acreditar que seja com esta superioridade.

Só parece haver uma forma de o fazer (porque as outras não resultaram), é ter dois ou mais ciclistas da mesma equipa bem colocados na classificação geral, e atacarem o jovem esloveno à vez, obrigando-o a ter que responder a mais do que um ciclista. Talvez fosse este o plano da Ineos este ano ao vir para este Tour com Carapaz, Richie Porte e Geraint Tomas em bom estado de forma.

Jonas Vingegaard

Este jovem dinamarquês mostrou que ainda vai dar que falar, só a vitória de Pogacar ofusca o grande Tour de France que ele fez. Tem só 24 anos e ingressou no escalão World Tour em 2019 (tal como Pogacar).

Entrou numa equipa recheada de estrelas tendo que trabalhar para os outros, até que este ano, por circunstâncias de corrida ficou nele a responsabilidade de levar a Jumbo-Visma ao melhor resultado possível no Tour, e faz segundo numa corrida na qual participou pela primeira vez na sua carreira.

Ciclista regular em 3 semanas, bom escalador e bom no contrarrelógio, não era um desconhecido mas consolidou o seu estatuto e passou a ser um nome a ter em conta nas próximas grandes voltas.

A título de curiosidade, este rapaz também sabe o que é a dureza da vida, antes de ser profissional de ciclismo trabalhava numa fábrica de peixe.

Mark Cavendish

O Tour de France 2021 viu renascer das cinzas Mark Cavendish, um ciclista que conseguiu as suas primeiras vitórias no Tour em 2008 (há 13 anos atrás), desde aí marcou uma era dos velocistas, arrecadando vitórias sem conta ano após ano, esteve integrado nas melhores equipas do World Tour e conseguiu um campeonato do mundo (2011).

Tantos anos a vencer num desporto como o ciclismo não é fácil, manter a motivação tantos anos não é fácil, e no segundo ano ao serviço da equipa Dimenson Data (2017) os resultados foram deixando de aparecer para Mark Cavendish. Se foi desmotivação que levou à falta de resultados, ou a falta de resultados que levou à desmotivação não sabemos, mas desde essa altura Cavendish deixou de ser o “Míssil de Man”.

Em 2020 Mark Cavendish chegou a anunciar o final da sua carreira quando estava na equipa Bahrain, a falta de resultados e a idade eram factores incontornáveis nessa altura, o ciclista britânico não conseguia o contrato que queria em equipas World Tour, mas também não queria terminar assim a sua carreira.

Lefevere aceita-me por favor

Acabou por conseguir ingressar na Deceuninck Quick-Step, sendo o próprio a pedir a Lefevere que o aceitasse por favor, ao que o director da Deceuninck respondeu que tinha o orçamento do ano esgotado, pelo que se quisesse ir para a Deceuninck Quick-Step teria que arranjar patrocínios para suportar a sua época. Canvedish ligou no dia a seguir a dizer que já tinha os patrocínios. (História completa neste nosso artigo).

Mark Cavendish não havia deixado de ser bom, só havia perdido a motivação, sem esta não se treina bem e se não se treina bem, não se vencem corridas. (Já diz o velho ditado “não treina não anda”).

Outro factor importante para os velocistas vencerem é terem uma boa equipa, que os coloque e os lance bem, Mark Cavendish voltou “só” para melhor equipa do mundo a fazer isso, no Tour 2021 teve Michael Morkov, Davide Ballerini, Kasper Asgreen e Tim Declercq, um comboio que fez lembrar os tempos da equipa HTC-Columbia, onde Cavendish construiu grande parte das vitórias da sua carreira.

Com a motivação e forma física de volta, um lote de ciclistas de alto nível a trabalharem a colocação e lançamento, aliados à sua experiência, Mark Cavendish sai do Tour de France 2021 como o velocista mais vitorioso em etapas, vence a camisola verde (classificação por pontos) e iguala o record de vitórias no Tour de France pertencente a Eddy Merckx, uma história que ficará certamente na memória dos fãs de ciclismo.

Ben O’Connor

Ben O’Connor finalizou o Tour 2021 com uma vitória de etapa e no quarto posto da classificação geral, e é provavelmente a maior surpresa desta edição da corrida.

É verdade que apesar dos seus 25 anos já tem 5 grandes voltas no currículo, e que chegou ao Tour 2021 com uma vitória de etapa no palmarés (etapa 17 do Giro 2020), mas terminar no 4.º posto da classificação geral foi algo em que nem o próprio acreditaria, provavelmente.

Contra qualquer previsão, o australiano terminou o Tour de France 2021 com uma vitória de etapa e um brilhante 4.º posto. Este é daqueles casos em que só o futuro dirá se nos vamos recordar deste resultado.

Wout Van Aert

O belga já havia demostrado em 2020 que era o “homem dos 7 ofícios”, já se sabia que podia vencer etapas ao sprint, vencer no contrarrelógio e ajudar a equipa na alta montanha, só não se sabia que podia vencer etapas de alta montanha como o fez este ano.

Será recordado precisamente por isso, por ter vencido 3 etapas de perfil completamente diferente, alta montanha, contrarrelógio e em sprint (com maior simbolismo sendo nos Campos Elíseos).

Este “todo terreno” não pára de surpreender, ele vence corridas de Ciclocrosse entre Novembro e Fevereiro, vence clássicas em Abril, vence etapas em de grande voltas em Julho, e veremos o que mais vai conseguir este ano.

Mathieu Van der Poel

A fugaz passagem de Mathieu Van der Poel pelo Tour de France 2021 será recordada por ser a sua primeira participação, pelo mediatismo que teve a sua vitória na etapa 2 e os dias em que liderou a corrida, mas por enquanto não passa disso, de uma vitória numa etapa.

O calendário ambicioso e apertado que o super ciclista holandês tem durante o ano ditaram o seu abandono precoce desta corrida, no sentido de preparar a corrida de Cross-Country Olímpico (XCO) nos Jogos Olímpicos. Sim, um ciclista que correu de camisola amarela no Tour de France, saiu da corrida mais cedo para fazer a corrida de BTT nos Jogos Olímpicos, isso também nunca se tinha visto.

Os Portugueses

Rúben Guerreiro

Vivemos numa era em que surgem ciclistas a vencer cedo, desde muito jovens, mas cada atleta é uma atleta, têm diferentes velocidades de progressão, e o ciclista de Pegões tem feito a sua progressão de uma forma menos rápida, mas de uma normal e acima de tudo forma consolidada.

Rúben Guerreiro fez a sua primeira grande volta em 2019 e logo nesse ano, na Vuelta a Espanha, o português terminou 17.º da classificação geral e quase venceu uma etapa (disputou e terminou segundo).

Em 2020 Rúben Guerreiro fez pela primeira vez o Giro de Itália, no qual venceu uma etapa e terminou a corrida vencendo também a classificação da montanha.

O Tour 2021 deverá ficar também na nossa memória como o primeiro Tour de France no qual Rúben Guerreiro participou, no qual terminou num brilhante 18.º lugar, mas acima de tudo no qual esteve integrado em várias fugas e no qual tentou com muita garra uma etapa, não deixando de ajudar o seu líder Rigoberto Urán. Tudo isto são aprendizagens que ficam para o futuro.

Rúben Guerreiro sobe na alta montanha com os melhores do mundo, sabe-se colocar e é regular durante 3 semanas, a sua progressão não é lenta, a dos outros é que tem sido muito rápida e estamos certos de que, se não tiver azares e as equipas por onde passa apostarem nele, Rúben Guerreiro vai dar muito mais que falar durante os próximos anos.

Rui Costa

Rui Costa integrou os convocados da UAE – Team Emirates à ultima hora. O português já havia assumido em declarações que o seu objectivo em 2021 eram os Jogos Olímpicos, pelo que o Tour não estava no seu calendário.

Acontece que o seleccionador nacional teve que fazer escolhas difíceis e acabou por deixar Rui Costa de fora dos convocados para os Jogos Olímpicos, optando por João Almeida e Nelson Oliveira.

A partir daqui, Rui Costa ficou livre para poder integrar a equipa da UAE – Team Emirates no Tour de France, e não hesitaram, incorporaram o português ao bloco que iria ajudar Tadej Pogacar a conseguir a sua segunda vitória na prova rainha do ciclismo mundial.

De realçar que Rui Costa parte para este Tour já com 12 grandes voltas na bagagem, algumas vitórias de etapa (3 delas no Tour), além do restante e recheado palmarés, pelo que aportou muita experiência ao bloco de apoio a Tadej Pogacar, foi uma espécie de capitão que guiou e protegeu a equipa nos momentos chave.

O Tour 2021 deverá ficar-nos na memória como a edição na qual um português fez parte da equipa vencedora, tendo um papel fundamental nessa vitória.

Lachlan Morton, fora da corrida mas ligado a ela

Num registo diferente de tudo o que se tem visto, Lachlan Morton (ciclista profissional da EF-Education Nippo), propôs-se a fazer todo o trajecto do Tour de France 2021, com os transfers incluídos e sem qualquer apoio, em modo bikepacking (transportado o seu equipamento, em autonomia na bicicleta).

Além de se propor a tal desafio, o seu objectivo era iniciar no mesmo dia que o pelotão profissional e terminar em Paris, antes do mesmo.

Apesar de uma carreira discreta em termos de resultados como ciclista profissional de estrada, na EF-Education First o australiano conseguiu encontrar o seu espaço, realizando desafios como o Everesting, ou outras corridas de Gravel ou BTT que dão visibilidade aos patrocinadores, e nesse registo propôs-se a este desafio.

Não foi uma tarefa fácil, em vez dos 3,383 km’s do pelotão, Lachlan fez 5,500 km’s, e em vez dos 42,200 mts. de desnível acumulado de subida do pelotão, Lachlan fez 65.000 mts. D+ de acumulado. Em vez de ter um dias de descanso, Lachlan pedalou todos os dias e em vez de pernoitar em hotéis, Lachlan acampou junto da sua bicicleta.

Lachlan Morton chegou aos Campos Elíseos 5 dias antes do pelotão profissional, pedalando com sandálias em vez de sapatos de encaixe normais, pelas dores de joelhos que teve, e problemas nos pés por pedalar tantos dias molhado.

Com esta sua aventura o australiano conseguiu ajuda para a World Bicycle Relief, uma instituição de caridade que dá bicicletas a pessoas cadenciadas em países subdesenvolvidos, nos quais uma bicicleta pode fazer muita diferença reduzindo distâncias e tempos de deslocação, melhorando acesso a escolas e oportunidades de trabalho.

Os patrocinadores da iniciativa, a marca de roupa Rapha e a Education First doaram 500 bicicletas para o efeito, mas durante a aventura de Lachlan Morton foram sendo recolhidas doações, que no dia de chegada aos Campos Elíseos tinham totalizado € 440.000.

Não assistimos só a uma mudança de geração de ciclistas, assistimos a uma mudança de paradigmas, não tem que se ter uma super equipa para vencer o Tour de France, quem vence ao sprint também pode vencer na montanha, há ciclistas que saem do Tour de France mais cedo para preparar a participação no BTT dos Jogos Olímpicos, há ciclistas a correr ao mais alto nível com 40 anos de idade, e há patrocinadores que têm abordagens diferentes do ciclismo para comunicar as suas marcas.

Não é a nova era Pogacar, é a nova era do ciclismo em geral.

Por: Luís Beltrão

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