Precisam-se mecânicos! Indústria da bicicleta preocupada

Precisam-se mecânicos! Indústria da bicicleta preocupada

A bicicleta tornou-se indispensável no dia a dia para responder às necessidades de mobilidade das pessoas, mas a falta de mecânicos e as dificuldades para uma manutenção adequada preocupam a indústria europeia.

Uma iniciativa conjunta do grupo de trabalho NextGen Mechanics – constituído pela Shimano – e da European Cycling Industries concluiu que é preciso formar 100 mil mecânicos adicionais até 2032, o que equivale a 60 por cento da força de trabalho atual. Atualmente, já existe um défice de 45 mil profissionais neste setor, que emprega 175 mil pessoas.

Estas conclusões resultam da análise aos dados extraídos do inquérito “State of the Nation 2026”, que a Shimano fez chegar a 25 mil pessoas, e que foram apresentadas em Bruxelas, no início de outubro.

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Falta de mecânicos desincentiva a utilização da bicicleta

O TopCycling recorreu à experiência de Hélder Gomes, mecânico da EF Education–EasyPost, que entrou neste mundo aos 16 anos, em 1995, e que tem vivido a evolução da profissão.

Seja no WorldTour ou numa loja de bicicletas, a responsabilidade de um mecânico é igual no ciclismo ou no setor automóvel: uma reparação mal feita e as consequências podem ser trágicas.

“Hoje em dia evolui-se rapidamente, mas sem alicerces. A informação está disponível, mas falta a experiência. Tive a sorte de começar com gente boa, que me ensinou como funcionavam as coisas. Marcas como Shimano, SRAM e Campagnolo deviam investir mais na formação porque a teoria muita gente tem, mas o segredo está em apalpar o material.”

A falta de mecânicos desincentiva a utilização da bicicleta: 121 milhões de europeus andam menos do que desejariam e 7,6 milhões encostaram a bicicleta por não conseguirem fazer a manutenção.

O mecânico do século 21 é um profissional muito diferente dos seus predecessores. Há que estar à vontade a nível informático, lidar com sistemas de baterias e transmissões digitais; desafios crescentes que não tiveram correspondência em termos salariais.

“Arranjar mecânicos é extremamente difícil e mesmo quem vem para o mundo da competição, ao fim de algum tempo, abandona, porque não é fácil. Tens que ter paixão e brio profissional. O ciclismo evoluiu de tal maneira que parece F1 ou Moto GP, cada vez há mais eletrónica. Tens que ter a humildade de aprender e evoluir. Lembro-me que, quando comecei, a roda era em alumínio e agora é tudo em carbono, já não se encontra uma roda em alumínio.”

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“Aprendam a lavar uma bicicleta”

A solução passa por formar novos mecânicos, mas há um aspeto que Hélder Gomes considera fundamental para estar na profissão: a vocação.

A escassez de materiais aguça o engenho, mas na sociedade atual é mais fácil substituir do que reparar. Se, por um lado, isto acelera os processos, por outro lado, limita a capacidade crítica e criativa.

“Tenho colegas da nova geração que pegam numa roda ou uma mudança e deitam ao lixo quando se partem. Trocam por material novo e já está. Eu gosto de olhar para aquilo e tentar perceber o que aconteceu. Os reais engenheiros somos nós, mecânicos, porque estamos na estrada com o material e damos feedback às marcas.”

Um estudo do Dutch Institute for Road Safety Research concluiu que 10 por cento dos acidentes devem-se a defeitos mecânicos e a fraca manutenção está na origem de metade dessas incidências.

Há, ainda, outro dado preocupante: estão a aumentar as reparações clandestinas, feitas por pessoas que não estão certificadas. Ao mesmo tempo, nos Países Baixos, por exemplo, 24 por cento dos mecânicos no ativo em 2024 deixaram a profissão.

Não falta trabalho, mas sim profissionais qualificados e salários competitivos.

“Na EF Education–EasyPost temos muitas formações, mas lidamos com poucas marcas. Um mecânico de uma loja pode ter uma formação da SRAM, mas aparece um cliente com uma mountain bike com forqueta da Fox e para estar a par de tudo é preciso estar muito formado e por várias marcas.”

Hélder Gomes deixa ainda um conselho aos aspirantes a entrar na indústria da bicicleta: “Aprendam a lavar uma bicicleta. Pouca gente sabe, mesmo no WorldTour. Já a lavaste, mas como é que a lavaste? Ao lavar podes danificar peças, é preciso saber lavar a bicicleta. Outro exemplo é por uma fita no guiador; tudo tem que ter um processo e hoje em dia perdeu-se o processo porque anda tudo a 1000 à hora.”

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