Opinião | Pogacar é o melhor amigo de Arensman no Tour

Thymen Arensman ganhou etapas nos Pirenéus e nos Alpes com o consentimento de Tadej Pogacar, líder supremo do Tour de France.
Arranjem alguém que cuide de vocês como Tadej Pogacar tem cuidado de Thymen Arensman neste Tour de France.
Sem tirar mérito ao neerlandês da Ineos Grenadiers, que se recompôs de um Giro cheio de percalços no qual falhou o objetivo geral, há algo que tem que ser dito: as duas etapas que ganhou no Tour de France têm a complacência de Pogacar como denominador comum.
O esloveno mostrou na 19.ª etapa que também é humano e sentindo que podia ser batido por Jonas Vingegaard escolheu Arensman como vencedor do dia.
A prenda nos Alpes foi a segunda; a primeira foi nos Pirenéus, na 14.ª etapa, numa fuga vitoriosa do neerlandês. Pogacar vinha de ganhar em Hautacam e em Peyragudes, antes de Luchon-Superbagnères, por isso limitou-se a defender a amarela de um ataque de Vingegaard a 4 km da meta.

A.S.O./Aurélien Vialatte
Estreia de sonho
No final, Pogacar e Arensman cochichavam nos bastidores do pódio e o neerlandês agradeceu-lhe não ter atacado. O esloveno respondeu-lhe “estiveste incrível na última subida“, denotando cumplicidade com Arensman. Já mencionei que foram 1.º e 2.º na Volta a França do Futuro?
A diferença dos Pirenéus para os Alpes é que Arensman surgiu mais forte e subiu com os favoritos à geral os 19 km até La Plagne.
O líder da corrida ainda atacou a 14 km do final, mas sem a potência das duas primeiras semanas. Arensman lançou dois contra-ataques e o segundo – a 12 km do topo – pegou!
Estreia de sonho para o corredor da Ineos Grenadiers no Tour de France.

Pogacar está cansado
Normalmente, com os favoritos a 0:20 da frente da corrida a 3 km de um final em alta montanha, o homem da frente está condenado. Só que em La Plagne viveu-se um dia atípico.
Jonas Vingegaard entregou os pontos na luta pela geral e decidiu não atacar Tadej Pogacar na última jornada com dureza a sério. Respeito a mais do dinamarquês.
O caso de Pogacar é diferente. Desde há meses, senão anos, o esloveno tem sido sujeito a uma pressão desmedida que o próprio se encarrega de aumentar a cada vitória.
Pogacar está cansado e o motivo é a erosão da vitória, isto é, ganha tanto que acaba esmagado pelo êxito. Já não basta vencer; é preciso esmagar a concorrência, dar espetáculo arrancando a 100 km do final ou subir o Mont Ventoux a sacar um cavalinho.
O cansaço de Pogi não é físico, mas mental. Prepara-se para ganhar o quarto Tour de France, recuperou o domínio na Volta à Flandres e quase venceu na estreia na Paris-Roubaix. Em 41 dias de competição fechou 27 no top 10, está sempre competitivo, bem posicionado e é preciso não esquecer que no espaço de um ano fez a dobradinha Giro-Tour fechando 2024 como o ciclista com mais vitórias na temporada. E ainda ganhou um Mundial de forma épica!
Já se esqueceram que estamos perante um rapaz de 26 anos que chegou às 100 vitórias de carreira neste Tour de France?

UAE Emirates está bem coberta para a Vuelta
Deixem o rapaz ir de férias porque a cara e o discurso de Pogacar em cada entrevista é a de que não suporta dar nem meia pedalada mais, nem fazer outra flash interview.
Diria mais: temos visto Pogacar a criticar a Visma, a tática dos rivais e a soar amargo… um tipo que costuma irradiar alegria converteu-se num rezingão.
A UAE Emirates está bem coberta para a Vuelta a Espanha com João Almeida (quem sabe acompanhado pela surpresa de última hora Juan Ayuso). Alguém que mande Pogi para um resort nas Maldivas fazer snorkeling e o deixe fazer um reset mental.