Paris – Roubaix Challenge | Como ir viver o inferno do norte

Paris – Roubaix Challenge | Como ir viver o inferno do norte

Desde que sigo o ciclismo de uma forma mais intensa que o Paris-Roubaix é a corrida que mais me apaixona, ir assistir era algo que queria fazer e desde que a organização criou a prova amadora (Paris Roubaix Challenge foi criada em 2011), que ir pedalar naquele percurso para sentir o que o pelotão profissional sente (numa escala diferente claro) passou a ser um sonho a realizar nesta vida.

Créditos: Sportgraf

Tal como outros sonhos, existe o foco, mas existe também o resto da vida a acontecer, pelo que fui adiando e adiando ano após ano, sempre com as razões racionais de qualquer outra pessoa, até que um amigo das bicicletas simplesmente decidiu ir em 2023 e isso fez-me o “click”, não iria adiar mais.

Daí até ele me confessar que queria regressar foi um instante, ainda em 2023 colocámos em andamento o plano da ida ao Paris-Roubaix 2024 (mais ele do que eu, porque o David Raquel é um craque a planear viagens de bicicleta).

Eu e o David Raquel já fizemos umas quantas aventuras de bicicleta juntos, a primeira foi após o confinamento na pandemia COVID-19. Quando autorizaram a população a circular, a primeira coisa que fizemos foi uma aventura de dois dias em modo bikepacking, que podes ver neste vídeo.

Neste artigo descrevo a experiência e conto os pormenores, com o objectivo de inspirar e ajudar os que quiserem ir um dia.

Pormenores de planeamento 

Convém inscreverem-se no Paris-Roubaix Challenge com bastante antecedência, pois as inscrições esgotam todos os anos, além disso, quando se inscrevem não há volta atrás, ou perdem o dinheiro da inscrição ou colocam-se em ação para ir (treinar, marcar férias para a data, preparar bicicleta, marcar estadia, voos, etc.), é melhor fazer tudo com antecedência na minha opinião.

No nosso caso a inscrição no evento foi feita em outubro de 2023, tudo o resto foi organizado e pago até janeiro de 2024.

Viajámos de avião até Bruxelas. Créditos: Topcycling.

O formato da viagem vai depender do budget de cada um, nós fomos de avião até Bruxelas e a partir daí deslocamos-nós de transportes públicos (comboio e autocarro, mas dá para fazer só de comboio), não alugámos carro, nem pagámos transfers (excepto o transfer da organização desde a chegada para a partida na manhã da prova e Uber no dia da corrida profissional para o local onde fomos assistir), pelo que posso considerar que viajámos em versão “low cost”.

Deslocámo-nos desde Bruxelas para Lille e depois de Lille para Roubaix comboio. Créditos: Topcycling.

Se houver capacidade financeira para alugar viatura após viagem de avião, facilita todas estas deslocações.

O Paris-Roubaix Challenge 

O Paris-Roubaix Challenge é evento cicloturista aberto a qualquer pessoa que faça a inscrição, o organizador é o mesmo da prova profissional e disponibiliza 3 distâncias para os ciclistas entusiastas , 70km., 140km. e 170 km., sendo que a única que tem todos os sectores do pelotão profissional é a distância dos 170km.

São seis mil inscritos, distribuídos pelas várias distâncias.

A inscrição encontra-se facilmente no site da prova e todas as indicações estão lá descritas, são cerca de seis mil inscrições por ano, distribuídas pelas várias distâncias. Para os nunca participaram num evento fora de Portugal preparem-se para pagar mais e pagar por tudo. (Por exemplo, se querem uma fotografia, esta é paga no momento da inscrição ou comprada após o evento, não há oferta de fotografias).

Créditos: Sportgraf

Formato

Não há classificações, não é uma competição, cada um completa o desafio como quer, seja em modo passeio, seja a competir com amigos ou consigo próprio. Também não há restrições no que respeita à bicicleta a utilizar, eu vi lá bicicletas de todo o género, desde passeio, a BTT, eléctricas, tudo! Só tem que ser uma bicicleta.

Como encarei o Roubaix Challenge

A forma como eu quis viver o evento foi fazer tudo seguido, dar o meu máximo, encarnar e sonhar que era um profissional e chegar ao velódromo de Roubaix esgotado tal como os meus ídolos, que durante tantos anos vi pela TV.

O vídeo da experiência vivida

Preparei-me para ir desfrutar a experiência assim, treinei com a consciência de que iria necessitar desse treino para pedalar no pavet o mais rápido que conseguisse, na minha opinião (que é só uma opinião como todas as outras), o Paris-Roubaix não é uma prova na qual se vá passear, embora tenha visto muita gente a fazê-lo e respeito (qualquer um que complete aquele percurso é de se lhe tirar o chapéu, porque não é fácil para ninguém).

Apesar de amador e sem qualquer tipo de “gabalorice”, devo dizer que nós passámos bem rápido (num nível amador) por aqueles sectores, na minha cabeça (e provavelmente de outros) eu era um Tom Boonen, sofria os impactos das pedras no guiador, nas pernas, em todo o corpo, mas senti também que ia a voar por aqueles sectores (mas baixinho, a menos 15/20 km/h que os profissionais).

Créditos: Sportgraf

Apesar dos meus 44 anos, parecia uma criança a sonhar, encarnei um personagem e sentia-me esse personagem, na minha cabeça fui Tom Boonen ou Cancellara por umas horas.

Depois de passar o receio de furar, depois de fazer alguns sectores e tomar tacto à coisa o objectivo passou a ser completar os 170kms. com uma média de velocidade superior a 30km/h., conseguimos!

A logística da organização para os 170kms.

A distância de 170kms. do Paris-Roubaix Challenge é a única que inclui no seu percurso, os mesmo sectores que o pelotão profissional, sendo também a única das três que obriga a uma logística diferente no dia da prova, pois a organização recolhe os ciclistas e bicicletas em Roubaix (chegada), e leva-os para a partida em Busigny.

Alvorada 3:15AM, deslocação de Bike para os transfer.

Pelas 4:00AM estávamos a colocar bicicletas em camiões. Mais ou menos 1000 bicicletas distribuídas por camiões que têm letras, nós temos um cartão com a letra do camião e autocarro onde vamos seguir. Na partida vamos recolher a bicicleta ao respectivo camião.

Autocarro de transfer para o local de partida da distância dos 170kms. (É um opcional pago no momento da inscrição).

A caravana dos camiões do Paris-Roubaix Challenge é uma caravana que transporta um valor considerável de bicicletas, já pensaram? Daria um filme do género Oceans Eleven, um grupo planear roubar aqueles caimões cheios de bicicletas. Vamos fazer uma média de 4000€ por bicicleta, 4000€ X 1000 bicicletas, são 4 milhões de Euros.

A esperteza Tuga

Esperámos e deixamos quase todos passar à nossa frente, com a intenção de deixar as nossas Bikes em último e assim sermos os primeiros a retirar as bicicletas do camião na chegada.

Conclusão, tirámos mal a medida à fila, quando íamos entregar as bicicletas o nosso camião  estava cheio, as bicicletas foram no início da fila de outro camião e fomos os últimos a receber as bicicletas na mesma. (Tentar não custa, a estratégia estava lá, é um processo que se vai aperfeiçoando à medida que vamos fazendo vários Paris-Roubaix).

Camiões de transporte das bicicletas do tranfer. Os ciclistas vão de autocarro, mas bicicletas neste camiões. É permitido levar um saco com o que o ciclista quiser lá colocar (um peça de roupa por exemplo), que a organização traz de regresso para a chegada.

Como a nossa alvorada foi às 3:15, não íamos antecipar mais 20/30 mins para tomar pequeno-almoço, além de que chegávamos á partida com fome, como tugas que somos, preparámos a bela sandes com “Baguete” fiambre e queijo para comer no autocarro do transfer. Achámos que seria o pensamento de toda a gente, só que não.

Resultado, três tugas a fazer um pic-nic no autocarro, enquanto belgas, holandeses, ingleses e franceses dormiam (ou faziam que dormiam, porque devem ter sentido o cheirinho das sandes e das bolachas com Nutella do André Rocha).

Para enquadrar os procedimentos, convém acrescentar que o David Raquel já tinha feito a prova o ano passado e sabia como era o processo do transfer para os 170km. do Paris-Roubaix Challenge.

O treino

Não tenho treinador, nem fiz nada de especial, limitei-me a fazer o que gosto (que é andar de bicicleta) com mais regularidade e tentei ter uma alimentação ainda mais saudável.

Tendo em conta a experiência como ciclista amador que sou, sabia que tinha que fazer o esforço de pedalar uma média de 10 horas semanais, durante pelo menos uns 4 meses para estar minimamente preparado para este desafio, consegui fazer isso desde outubro de 2023.

Uma das provas de preparação para o Paris-Roubaix. Gravel Challenge Albufeira, em janeiro. Créditos da foto: Eduardo Campos

Também sabia que pelo meio desta preparação era conveniente participar em alguns eventos, para “esticar o motor” e para estar habituado às dinâmicas de pedalar em grupo neste tipo de eventos. Isto pode não parecer importante, mas mesmo para quem só vai passear é importante porque assiste-se muitas vezes a ciclistas que não sabem pedalar rodeados por mais ciclistas e isto pode causar quedas.

Este ano planeei outro grande desafio além do Paris-Roubaix, pelo que optei desde o início do ano em utilizar sempre a mesma marca de nutrição. Não sou treinador nem nutricionista mas pelo que me vou informando creio que é vantajoso habituar o estômago aos géis, barras e bebidas que ingerimos em prova.

Neste caso foram 5 horas e 41 minutos as quais só utilizei géis e bebida Named Sport (ingeri uns 7 ou 8 géis, mais a bebida Race Fuel e Hydrafit da mesma marca).

A Bicicleta

Como refiro no início, qualquer bicicleta é aceite para se fazer o Paris-Roubaix Challenge, no meu caso que quis fazê-lo como os ciclistas profissionais, com uma bicicleta de estrada.

A bicicleta que levei foi uma Specialized Roubaix SL8 Comp, equipada com Shimano 105 Di2, rodas DT Swiss de alumínio, e pneus Specialized SW Mondo 32mm. É uma bicicleta de estrada inspirada nesta prova e construída para proporcionar ao ciclista o melhor conforto em longas jornadas de pedal, é uma bicicleta que facilita a tarefa no Paris-Roubaix.

Deixo-vos o vídeo do teste que fiz a este modelo, depois das imagens do evento falo em pormenor sobre este modelo.

Só tive o cuidado de fazer foi uma revisão na loja Bike Planet, reforçando a quantidade de líquido tubeless nos pneus, não houve qualquer alteração na na bicicleta para enfrentar o Inferno do Norte, lembrando que esta bicicleta tem um pequeno amortecedor de 20mm. por debaixo do avanço, que é bem vindo neste percurso.

Na minha opinião, qualquer bicicleta de estrada que suporte pneus de 30/32 ou 34mm., que seja fiável e vá bem preparada (com revisão feita) oferece condições para se fazer esta prova aproveitando o que ela tem para oferecer.

Outro tipo de bicicletas de estrada também o farão (no tempo de Merckx já o faziam com bicicletas muito mais limitadas que as de hoje em dia), mas quanto menos volumoso o pneu, mais pressão terá que se utilizar e menos conforto se terá, logo, mais sofrimento, dificuldade e dureza.

O BRUTAL e histórico pavet do inferno do Norte

O exilibris do Paris-Roubaix é o empedrado, estradas em paralelepípedos que originalmente foram construídas durante o século XIX na região norte da França, que na altura eram consideradas uma inovação técnica, oferecendo uma superfície mais resistente e durável em comparação com as estradas de terra ou cascalho.

Créditos: Topcycling

São históricos não só pela corrida mas também porque a sua construção teve como principal objetivo proporcionar vias de transporte duráveis e resistentes para a comunidade local, bem como para facilitar o escoamento de produtos agrícolas e industriais.

Durante anos e anos assisti na TV com paixão ao Paris-Roubaix, durante anos e anos pesquisei por informação, escrevi sobre o Paris-Roubaix, vi fotografias do Paris-Roubaix com a brutalidade das imagens das quedas, das mãos e do sofrimento dos ciclistas, da forma como as bicicletas sofrem, da forma como equipas, ciclistas e marcas de bicicletas pensam na melhor forma de se passar naqueles sectores de empedrado da melhor forma possível, mas só quando pedalei os primeiros metros no sector Camphin en Pévèle (quatro estrelas) e no Carrefour de l’Arbre me apercebi realmente de como é duro e “áspero” aquele empedrado.

Só vos posso dizer que na TV, nas fotos, tudo o que vemos não dá a real ideia da brutalidade que é passar aqueles sectores, esta opinião é unânime entre todos os amadores que se propõem ir completar aquele desafio.

Créditos: David Raquel

Quando terminei o primeiro sector no dia em que fomos fazer o reconhecimento, notei o desgaste e força que tinha que colocar nos pedais para progredir, pensei:

Como é possível os profissionais passarem aqui à velocidade que vemos a TV?

Créditos: David Raquel

No fundo é o mesmo espanto de quem já assistiu a etapas de montanha onde passam os World Tour, é impressionante a velocidade deles.

Assistir ao verdadeiro Inferno do Norte, a corrida dos World Tour

No sábado pedalámos pelo mesmo percurso dos profissionais (menos quilometragem total, mas todos os mesmos sectores de empedrado), no domingo pela manhã fizemos uma pedalada de passeio pela zona e fomos assistir à passagem dos World Tour no Carrefour de l’Arbre.

Créditos: Topcycling

Ir ao ciclismo é uma festa, é o verdadeiro desporto do povo, não se paga bilhete para ver os ídolos em ação, não há bancadas mais caras e menos caras, quem chega primeiro escolhe o lugar.

Créditos: David Raquel

Não há restrições de entrada de bebidas ou comidas, cada um leva o seu “farnel” ou prepara-se para o confecionar no local. Não há claques nem rivais, li todos convivem com o “vizinho do lado”, conhecem-se pessoas novas, partilham-se experiências, fala-se de ciclismo.

Créditos: David Raquel

Tudo isto é transversal ao ciclismo em geral, seja o pelotão World Tour ou um pelotão de uma divisão inferior, mas ali assistimos a momentos históricos do ciclismo mundial, assistir à segunda vitória de Mathieu van der Poel e à primeira participação na Paris-Roubaix de António Morgado.

Créditos: Jorge Oliveira

A história por detrás da fotografia de destaque deste artigo é o espelho de como ir ao ciclismo é uma experiência positiva e enriquecedora.

António Morgado na sua primeira Paris-Roubaix. Créditos: Topcycling

A fotografia foi tirada por um senhor belga chamado Bernard, que entre todas as fotos que fez da passagem dos ciclistas se apercebeu de que o ciclista da UAE deveria ser português (ele nem sabia que era António Morgado. Não sabia mas vai saber certamente), e perante isto, chamou-me, mostrou-me a fotografia e perguntou-me se queria que me enviasse e assim foi, cedeu-me a fotografia.

Creio que esta atitude do senhor Bernard explica bem o ambiente que se vive entre os adeptos de ciclismo que estão a assistir à modalidade nas estradas.

Orçamento

Sem entrar em pormenores, preparem entre 800€ a 1000€ para uma aventura destas.

Se forem dois dias antes do Roubaix Challenge e regressarem no dia depois do Roubaix profissional, para fazer as coisas com calma, serão cinco dias e quatro noites de alojamento, mais inscrição, voo com transporte da bicicleta incluido (que é mais caro), alimentação, pagamento de transportes públicos para deslocações. (Se alugarem viatura para deslocações o orçamento é bem mais alto).

Se a paixão é pedalar, vale a pena

O que me move é a paixão pelas bicicletas e ciclismo, espero com este tipo de conteúdo inspirar e motivar mais pessoas a desfrutarem da bicicleta e do ciclismo na estrada (e não falo só de pedalar, falo de assistir ao ciclismo), porque na verdade, seja com uma bicicleta melhor ou pior, seja numa prova de ciclismo nacional ou internacional, basta haver vontade e paixão para desfrutar desta modalidade.

É certo que para embarcar nestas aventuras não basta haver vontade, também é necessário algum dinheiro, mas há muito ciclismo em Portugal para se assistir e participar, estas coisas “fora de portas” fazemos quando há possibilidade.

Créditos: Topcycling

Sejamos realistas, pode transformar-se numa modalidade cara sim (como outras), mas seja para praticar ou para viver o ciclismo não é essencial imenso dinheiro, cada um adapta às suas possibilidades.

Boas pedaladas a todos.

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