O impacto da Volta a Portugal lá fora – Artigo de Opinião

O impacto da Volta a Portugal lá fora – Artigo de Opinião
Créditos: Miguel Simão

Quando fundei e iniciei o TopCycling, em 2017, eu gostava de ciclismo e consumia o produto televisivo do ciclismo, mas, como tantos outros, a Volta a Portugal não era até essa altura, uma prova que eu acompanhasse, até me aperceber do impacto que tem.

Começando nesse ano um projeto ligado ao ciclismo e à comunicação, pensei que não podia ter uma plataforma de comunicação na qual não figurasse a Volta do nosso país e, embora não tivesse muito interesse pelo tema, achei que deveria tratar a Volta a Portugal da mesma forma que tratava as grandes voltas, dedicando-lhe o mesmo tempo e atenção.

Depois de escrever os primeiros artigos da Volta a Portugal, quando fiz a análise de dados habitual no TopCycling e vi os números de tráfego da Volta a Portugal, o meu queixo caiu ao chão: eram dados superiores aos de um Tour de France!

Se os meus olhos não vissem, eu não acreditaria, mas estava ali à minha frente e o Google Analytics não estava avariado.

Foi nesse ano que comecei a seguir com mais atenção a Volta a Portugal. Confesso-vos que, inicialmente, com mais interesse pelo que trazia ao website do que pelo interesse pela corrida, mas quando seguimos todos os anos, a paixão pela corrida acaba por surgir e, com o tempo, acabei por me apaixonar naturalmente também pela corrida.

Onde é que eu quero chegar com este assunto? Explicar-vos a minha paixão pela Volta a Portugal? Não! Quero explicar que por vezes, primeiro é necessário ver para crer, é isso que pode acontecer este ano com outros players no mercado audiovisual do ciclismo.

Foto: Igor Martins – Volta a Portugal

Novo organizador leva a Volta fora de Portugal mais longe

Este ano, embora a organização da Volta a Portugal não esteja a fazer um trabalho fantástico de divulgação nas plataformas digitais (é uma crítica que deve ser encarada como um ponto a melhorar, e vai melhorar, tenho a certeza), é normal haver pontos a melhorar quando se inicia um projeto, há no entanto, uma coisa fantástica que conseguiram: colocar a Volta a Portugal no universo Warner Bros. Discovery (WBD), que inclui várias plataformas e chega à audiência em vários formatos.

Quem trabalha em comunicação (e não falo só da comunicação social, porque a comunicação compreende outras áreas, como o marketing, por exemplo) deve estar atento aos dados, fazer experiências, analisar os dados e meter na balança se compensa “atacar” determinados temas ou programas. Tem de haver alguma estratégia quando se gere tempo, meios humanos e recursos.

Não tendo os dados de audiência da Volta a Portugal na HBO noutros países, fui analisar o que um mero espectador tem à sua disposição em alguns dos mais importantes canais do mundo digital: as visualizações e “engagement” no YouTube e no Instagram (sim, também são canais, também têm a sua audiência e essas audiências também são incluidas nos acordos. Aos dias de hoje, não conta só a TV).

Gastando só alguns minutos, basta fazer scroll pelo canal YouTube TNT Sports Cycling para ver que a Volta a Portugal rivaliza com a Volta à Polónia e com a Volta a França feminina. Se analisarem os números no Instagram do TNT Sports Cycling é igual.

Os vídeos da Volta a Portugal no canal Youtube TNT Sports Cycling
Os vídeos da Volta a Portugal no Instagram TNT Sports Cycling

Quem gere as plataformas TNT Cycling e analisa os dados pode não estar tão surpreendido como eu estava em 2017, ao ver o tráfego da Volta a Portugal, mas, se estiver atento, poderá pensar algo como: “Caramba, a Volta a Portugal tem uns números incríveis!”

As pessoas fora do nosso país não têm a noção da tradição e da paixão por ciclismo que existe em Portugal, e aliado a isso, a tradição e paixão que existe pela Volta a Portugal, que hoje em dia pode não ser aquilo que foi noutros tempos, mas continua a ser um destaque e um acontecimento anual do desporto nacional.

Sim, mas são números de visualizações são só parecidos, em alguns casos são até inferiores.

Pois são, mas a Volta à Polónia já é transmitida há muitos anos pelos canais internacionais e tem lá todas as equipas World Tour. É uma volta com estatuto superior no calendário, assim como a Volta a França feminina (que não tem a mesma audiência da masculina), mas não deixa de ser uma Volta a França.

O que vos quero dizer é que a Volta a Portugal (só com uma equipa World Tour presente), no primeiro ano em que “aterra” nas plataformas da TNT Sports Cycling (que é basicamente a marca de televisão desportiva da WBD para alguns mercados), como produto de ciclismo para ser consumido pelo espectador, rivaliza (pelo menos nas plataformas YouTube e Instagram) com provas de maior estatuto internacional e que já são transmitidas há mais anos.

Mas o mais importante, é que há publico que não via a Volta a Portugal e este ano viu, seja em que plataforma for, viram excertos da corrida, ouviram os nomes das equipas e dos ciclistas.

Isto dá que pensar

Dou por mim a pensar que, se alguém atento, com visão e com dinheiro, quisesse ter e desenvolver a Volta a Portugal como produto televisivo, não poderíamos ter um cenário de concorrência num mercado onde ela praticamente não existe?

Sabendo das audiências, não poderia haver mais canais a querer investir na Volta a Portugal para ter o retorno publicitário?

Havendo mais audiência, não seria natural haver mais marcas a querer investir na Volta a Portugal?

E se a Volta a Portugal “engrena” como produto apreciado e consumido por milhões de pessoas, ao nível desportivo, isto não pode despertar o interesse de participação de mais equipas WorldTour ou ProTeam?

Diga-me o leitor, nos comentários da publicação pela qual acedeu ao artigo, se são perguntas pertinentes.

Foto: Volta a Portugal

Em todos os projetos é necessário tempo, tem de se começar por pequenos passos que servem de base ao desenvolvimento futuro. Independentemente de tudo o resto, conseguir colocar a Volta a Portugal num canal internacional é, na minha opinião, “O grande passo” desta nova organização.

Resta-nos aguardar para ver como se vai desenvolver o resto, mas uma coisa é certa: independentemente do espetáculo desportivo, em 2026 aconteceu algo de diferente neste evento desportivo nacional, que é quase centenário.

A Volta a Portugal tem mais potencial do que muitos imaginam. Acreditem nela.

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